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17/04/2003

Filosofia no Brasil


Há 40 anos, ai de quem se aventurasse a falar em "filosofia brasileira". Correria o mesmo ridículo de quem mencionasse, por exemplo, a "arquitetura gótica no Sião", conforme ouvi então de um ilustre catedrático da USP. Faz parte da nossa baixa auto-estima a crença generalizada de que o brasileiro não tem bossa para a filosofia. Desmentindo essa convicção tão arraigada, três livros recém-publicados acusam um salto qualitativo impressionante da pesquisa filosófica entre nós, comprovando que ela sempre existiu, porquanto o exercício da filosofia não se improvisa de uma hora para outra.

Luiz Alberto Cerqueira, carioca, professor-adjunto no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, batiza o seu livro, precisamente, com o nome de Filosofia Brasileira (Vozes\Faperj, 2002). Reconhecendo a contribuição do Iseb na compreensão crítica da historiografia filosófica brasileira, Cerqueira acompanha Antonio Paim ao incluir em nossa história da filosofia o período colonial, mas atribui a Miguel Reale os louros pela revolução na historiografia filosófica brasileira. Reportando-se ao "conhece-te a ti mesmo" socrático e ao "cogito" cartesiano, Cerqueira liga o desenvolvimento da filosofia à evolução da "consciência de si". Num lance certeiro, descobre a germinação da consciência de si ainda na fase colonial, localizada na obra do padre Antônio Vieira, sob o aspecto da conversão religiosa. Segue-se Gonçalves de Magalhães, que substituiu a antiga conversão religiosa pelo "cogito" cartesiano, renovando o princípio da autoconsciência e inserindo o Brasil mental no século 19. Na seqüência surgem Tobias Barreto, o vulcânico pensador e poeta sergipano, "verdadeiro responsável pela definitiva superação do aristotelismo no Brasil", Farias Brito, o discípulo criativo de Bergson, e, finalmente, o próprio Miguel Reale, que, mais do que ninguém, insistiu na necessidade de vincular as idéias e doutrinas dos autores estrangeiros à "imanência de nossas circunstâncias".

Cerqueira atinge em cheio seu propósito, patenteando que a filosofia brasileira existe, sim, senhor, tem uma história que remonta aos tempos coloniais e inclui um projeto que consiste na modernização e no desenvolvimento da consciência de si.

Maria Cristina Franco Ferraz desponta no panorama da filosofia brasileira como a intérprete ideal de Nietzsche. Não simples expositora ou comentadora, mas "intérprete" no sentido musical da palavra, sonorizando magistralmente a partitura filosófica do autor de Assim Falava Zaratustra em todo o vigor, a riqueza de matizes e recônditos segredos que encerra, sem esquecer seu relampejante senso de humor, em que poucos reparam.

Maria Cristina é também do Rio, professora da Universidade Federal Fluminense, e autora de Nietzsche, o Bufão dos Deuses. Publica agora Nove Variações sobre Temas Nietzschianos (Relume Dumará, 2002). Nenhum outro pensador é vítima de leitura tão apressada e superficial como Frederico Nietzsche. Em conseqüência, forjou-se dele uma figura torva de energúmeno cultural, perdendo-se de vista seu perfil filosófico de linhas clássicas e poderosa envergadura.

No primeiro ensaio do livro relembra a autora, precisamente, o questionamento de Nietzsche acerca da leitura, indagando que é "ler", tarefa que exige "dedos e olhos delicados", imersão demorada no texto, "ruminação" obstinada. Para quê? Não será para desvendar alguma "verdade" oculta no texto, nada disso. Não, a leitura ruminativa tem por finalidade entrar na "perspectiva" adotada pelo texto, adequar-se ao seu modo peculiar de ver as coisas. Nietzsche diverte-se com a dança variada das aparências em sua diversidade de matizes, ou, como dizia ele, emprestando a palavra da pintura, com seus diferentes "valeurs" (valores, tons mais ou menos escuros, mais ou menos saturados). Para Nietzsche, nada de dogmatismo e contraposições grosseiras (bem-mal, essência-aparência, verdadeiro-falso


Autor(es)

Gilberto de Mello Kujawski