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02/12/2003

Globalização e ética. Um ponto fundamental para as relações entre países

A análise da globalização nas comunicações, na economia e na política conduz-nos, finalmente, ao tema crucial do processo de integração mundial: os valores que presidem o relacionamento internacional neste início de século e de milênio. O atentado ao World Trade Center surpreendeu o mundo. Após a fase inicial de estupor e revolta diante da tragédia, o desastre começou a ser esclarecido. Ao compasso das investigações sobre a ação terrorista, surgiram tentativas de explicação e a ética nas relações internacionais tornou-se o tema do momento.

Inicialmente ganhou força a tese do "choque das civilizações" enunciada por Samuel Huntington em 1997. O futuro das relações internacionais estaria associado ao fator cultural. As culturas que impregnam as diversas civilizações entrariam em conflito em uma conjuntura de integração mundial. A globalização, de acordo com Huntington, contribuiu para esse cenário e tem a sua parte de responsabilidade: "a globalização incentiva e permite que gente como Bin Laden trame seus ataques ao centro de Manhattan, enquanto está em uma gruta do Afeganistão pobre." ( O Estado de S.Paulo, 28/10/2001, p. A23). O ataque terrorista, na opinião de Huntington, restituiu ao Ocidente sua identidade comum.

A interpretação dos ataques aos Estados Unidos levantou a questão de saber quais são os valores que presidem às diversas civilizações como elementos subjacentes à explicação dos acontecimentos e da história. É preciso esclarecer, entretanto, que o responsável pela tragédia não foi o mundo islâmico, mas apenas um grupo radical que não representa adequadamente o Islã. Como apontou Henry Kissinger, "a América e seus aliados precisam tomar cuidado para não apresentar esta nova política como choque de civilizações entre o Ocidente e o Islã. A batalha é contra uma minoria radical que macula os aspectos humanos manifestados pelo islamismo em seus períodos grandiosos." (Folha de S.Paulo, 20/11/2001, Especial, p.6)

O episódio das Torres Gêmeas, entretanto, alertou o mundo quanto à importância dos valores que presidem as culturas e civilizações. Ou seja, a ética nas comunicações, na economia, na política e na cultura é o elemento-chave para o futuro do mundo. Este é o fator fundamental que deve ser analisado na globalização.

Antes de avançar nesse estudo é necessário indagar: há uma única ética correta, aplicável a uma determinada situação, ou a ética é passível de interpretação diversa em função de fatores circunstanciais? Mais: há valores universais, que se aplicam a todos os povos de todos os tempos, ou os valores éticos são relativos?

O mundo presente vive mergulhado no relativismo ético. Sob a égide do relativismo, a ética torna-se subjetiva, sendo impossível chegar a qualquer conclusão objetiva e permanente. Esse é o grande dilema e limitação do mundo moderno: a ética esqueceu as suas origens como estudo filosófico, na Grécia clássica, sob a poderosa luz da inteligência de Sócrates.

Ética da convicção x ética da responsabilidade

Nas relações internacionais, por exemplo, o dualismo ético foi formulado por Max Weber ao distinguir entre uma ética da convicção e uma ética da responsabilidade: "toda a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção." (Weber, 1968, p. 113) O partidário da ética da convicção deve velar pela doutrina pura. Seus atos "visam apenas àquele fim: estimular perpetuamente a chama da própria convicção." (idem, p. 114) A ética da responsabilidade, por sua vez, tem como guia as previsíveis conseqüências dos atos: "o partidário da ética da responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do homem [...] e entenderá que não pode lançar a ombros alheios as conseqüências previsíveis da sua própria ação." (idem, pp. 113-14)
Autor(es)

José Maria Rodriguez Ramos