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08/05/2008

Mídia e Justiça

Em valioso livro, Casos Criminais Célebres (RT, 1998), René Ariel Dotti alerta para as dúvidas em que navegam a liberdade e a responsabilidade da imprensa. Básicos numa sociedade democrática, a liberdade de informar e o direito de ser informado podem, no entanto, transbordar ao se transformar a mídia em tribunal sem apelação. Nos casos criminais mais famosos a imprensa tomou partido, presumiu culpas, decretou inocências.

Caso ainda hoje duvidoso foi o crime do Sacopã. Na manhã de 7 de abril de 1952, num Citroën preto, largado na Ladeira do Sacopã, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, jazia o corpo do bancário Afrânio Arsênio de Lemos, abatido com três tiros de revólver.

As investigações dirigiram o foco para a antiga namorada, Marina de Andrade, moça charmosa e elegante. A imprensa cercou Marina de todos os lados. O jovem tenente-aviador Alberto Bandeira era o namorado dela na época. Marina passou a ser vista pela polícia e por parte da imprensa como o “pivô” do crime e Bandeira como o assassino.

O advogado Leopoldo Heitor, depois envolvido no desaparecimento da milionária Dana de Teffé, dizia à imprensa que um seu cliente fora testemunha ocular dos fatos. Foco das atenções, Leopoldo Heitor revelou ter Walton Avancini testemunhado o crime. Este declarou, por sua vez: “Eu me encontrava no Citroën quando se deu o crime e foi o tenente Bandeira quem matou Afrânio.”

Havia, por outro lado, fortes boatos de que influente senador da República estaria manobrando para incriminar o tenente Bandeira. Segundo boatos, a filha do senador, conhecida no “café society” como Mimi, teria tido um namoro com Afrânio, que certa feita a espancara no Clube Caiçaras. Constava que o irmão de Mimi teria contratado dois homens para matar o bancário, um dos quais o próprio Walton.

A imprensa dividiu-se: a famosa revista O Cruzeiro transformou-se em tribuna de defesa; o jornal O Globo, em assistência da acusação. Como resultado, o tenente Bandeira foi condenado a 15 anos de prisão, dos quais cumpriu sete. Em 1972, o Supremo Tribunal Federal anulou o julgamento e o crime prescreveu em 1973.

Há 50 anos, Copacabana foi o palco de morte que convulsionou o País: Aída Curi, mocinha de 18 anos, terminou os seus dias no asfalto da Avenida Atlântica, provavelmente jogada do último andar do Edifício Nobre, aonde fora a convite de dois playboys que personificavam a então juventude transviada: Ronaldo Guilherme de Castro e Cássio Murilo Ferreira, menor de 18 anos, sobrinho de um coronel do Departamento de Ordem Política.

A imprensa, pelo envolvimento de jovens de classe média, passou a cobrir o fato com sofreguidão. O jornalista David Nasser veio a ser, na revista O Cruzeiro, o assistente de acusação em defesa da memória da jovem.

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Autor(es)

Miguel Reale Júnior