Artigos

13/10/2001

O MEC e a universidade pública

Luís Nassif
Em uma época em que a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação tecnológica são elementos fundamentais na competitividade entre nações, é imperdoável a maneira como a questão da universidade pública foi tratada nos últimos anos. Nesse período, o Ministério da Educação elegeu como prioridade única o ensino fundamental. Mas o trabalho de formação de uma nação não pode ser feito em cima de prioridades únicas -tem de ser um todo integrado, equilibrado, com todas as frentes se desenvolvendo simultaneamente. E o papel da universidade pública é fundamental.
Em vez disso, criou-se um falso conflito entre o ensino básico e o de terceiro nível. Pior: tomaram-se vícios do velho modelo acadêmico como desculpa para, em lugar de mudar ou aprimorar o modelo, simplesmente varrer os problemas para debaixo do tapete.
O que se tem hoje é a universidade pública ainda tendo a maior massa crítica de conhecimento do país, mas indo para o vinagre, e uma profusão de universidades privadas com pouquíssimo interesse em melhorar seu nível de ensino.Não é simples mudar a universidade pública. É trabalho de estadista, de gente grande, mas o MEC fugiu desse desafio. Nas últimas décadas, o ambiente universitário foi dominado por um corporativismo dos mais pesados, consolidado pela estrutura departamental que criou feudos intocáveis no âmbito de cada universidade.
Não é fácil enfrentar esse jogo. Eu sei o que é isso, a partir das sucessivas polêmicas nas quais me meti com diversas universidades. Nessa área o debate é pesado, prenhe de acusações morais, patrulhamentos. Há que ter fígado para meter a colher nesse tema.
Ao mesmo tempo, foi possível perceber o aparecimento de uma nova mentalidade, de novas gerações de professores e de pesquisadores empenhados em trabalhar e conseguir resultados. Houve mudança nos paradigmas da pesquisa científica. A guerra conceitual acabou: com raras exceções, sabe-se que universidade tem de formar pesquisadores e que pesquisas devem objetivar resultados concretos para a economia.
Mas todo esse processo se deu ao largo da universidade pública. Toda essa geração de PhDs, formada ao longo dos últimos anos com muito esforço de sua parte e muito recurso público, está sendo desperdiçada porque não se ousou avançar na busca de um modelo eficaz, justamente para não despertar as forças do corporativismo. Preferiu-se matar pouco a pouco a universidade pública.
Nesse período, houve propostas importantes de mudança na universidade pública. A UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), sob um reitor moderno, propôs experimentar um modelo de autonomia administrativa. Tempos depois, a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) apresentou um modelo inovador e eficaz de autonomia universitária amarrada a indicadores de avaliação.Nada disso prosperou no âmbito do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e do MEC. Da parte do conselho, porque qualquer forma de autonomia obrigaria os reitores a buscar resultados e acabaria com o álibi da transferência de responsabilidades. Da parte do MEC, para não se expor ao tiroteio do corporativismo.
O resultado desse "movimento dos sem vontade" está à vista de todos: a universidade pública caindo aos pedaços, sendo destruída pela inação, por falta de uma política de recursos humanos e de implantação da meritocracia. E toda tentativa de criar políticas de pesquisa se fazendo ao largo da estrutura formal da universidade.
USP
Seria importante que, nas próximas eleições para reitor da USP, a maior universidade pública brasileira deixasse de lado embates corporativistas e obrigasse os candidatos a definir novos modelos de gestão que salvassem a USP da mediocrização.


Autor(es)