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09/12/2008

Padre Vieira e os direitos humanos

“Os erros dos homens não provêm apenas da ignorância, mas principalmente da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras. Os olhos vêm pelo coração e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor assim as vistas se tingem dos mesmos humores, de que estão bem ou mal, afetos os corações.” Essas são palavras do padre Antônio Vieira no Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma de 1669. Pascal, um século depois, repetiria o mesmo pensamento com exemplar concisão: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.”

Não se pode deixar de ressaltar como característica primordial do padre Vieira a simbiose aparentemente contraditória do orador sacro com o político. Seus sermões, sobremodo, foram utilizados como veículo de propagação sacerdotal-missionária dos preceitos evangélicos e coincidiam com a patriótica solução de problemas múltiplos, socioeconômicos em especial, em favor de sua pátria-mãe e de suas colônias.

A propósito, no instante em que se faz memória da passagem do quarto centenário do nascimento do padre Antônio Vieira e em que se celebra a passagem dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, impõe-se dar ênfase ao obstinado papel que exerceu o padre Vieira na defesa dos índios, negros, escravos, cristãos-novos e judeus.

Vale salientar, nesse contexto, duas lúcidas constatações do embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, em suas Palavras liminares, registradas no livro Traços Marcantes da Vida e Obra do Pe. Antônio Vieira, de autoria do padre e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos Brandi Aleixo: “Quando também agora se assinalam os 200 anos da presença da corte portuguesa, cabe lembrar que a idéia de deslocação da capital do Império para o Brasil havia sido aventada por Vieira bem antes de 1808, pelo que talvez também lhe deva caber parte do mérito de empreendimento fundacional da modernidade brasileira”; e “num tempo em que a ética pública atenta cada vez mais para as questões dos Direitos Humanos, mais notável se torna a presciência de Antonio Vieira ao adiantar, na humanidade de seu verbo, muitas das preocupações que agora nos são comuns, mas que, à época, representavam uma nem sempre confortável visão antes do tempo.”

Clóvis Bulcão, historiador e escritor de romances históricos, ao se reportar à presença da comunidade judaica do Recife no período da ocupação holandesa, registra a atuação de Vieira entre os cristãos-novos, então muito discriminados, e o inclui como o primeiro, à época, a falar da convivência dos cristãos e judeus. Da mesma forma, anota o historiador, Vieira considerava a catequese dos índios como a única maneira de conquistar a região amazônica.

De 1652 a 1661, atuou Vieira como missionário no Maranhão, empunhando a defesa dos índios - e o fazia do púlpito, que, segundo o padre e professor da UnB José Carlos Aleixo, era considerado por Vieira “a única tribuna independente, perante a autoridade civil, para expressar agravos populares”. De lá foi expulso, juntamente com os demais jesuítas, pelos moradores que se sentiram prejudicados pela alforria dos indígenas daquele regime escravocrata que lhes vinham impondo.

Dotado de personalidade riquíssima e de aspectos aparentemente contraditórios, Vieira - catequista de indígenas, pregador jesuíta, orador em cortes européias, missionário, professor de Humanidades e de Filosofia, homem de Estado, pensador de larga visão, de enorme atividade epistolar e arguto ator em política externa, diplomata-síntese de sua época - foi, igualmente, “o mestre da prosa portuguesa clássica”, consoante a definição precisa do professor Rubem Queiroz Cobra.

Deixou-nos Vieira por volta de 200 sermões eminentemente originais. Entretanto, o que mais causa admiração é o zelo religioso de seu talento como orador sacro, vazado num estilo tão contundente que a mera leitura de seus textos nos faz revisualizar, ainda hoje, a imagem dinâmica de seus gestos no púlpito e ouvir-lhe a voz tonitruante.

Essa exuberante demonstração de criatividade foi naturalmente haurida na Ratio Studiorum dos jesuítas, toda calcada na filosofia de Aristóteles, na teologia de Santo Tomás de Aquino e nas humanidades clássicas das maiores sumidades greco-romanas. Não são de admirar, assim, suas metáforas, alegorias e inesperadas comparações, que não dispensavam o paradoxo - como no Sermão do Santíssimo. Sacramento (1645). “Milagres feitos devagar são obras da natureza: obras da natureza feitas depressa são milagres.” Nem é de estranhar mais esta outra, extraída do Sermão da Epifania (1662). “O estilo era que o pregador explicasse o Evangelho: hoje o Evangelho há de ser a explicação do pregador. Não sou eu o que hei de comentar o Evangelho: o texto é o que me há de comentar a mim. Nenhuma palavra direi que não seja sua, porque nenhuma cláusula tem que não seja minha. Eu repetirei as suas vozes, ele bradará os meus silêncios.”

Concluo com o poeta Fernando Pessoa: 

“O céu estrela o azul e tem grandeza

Este, que teve a fama e a glória tem,

Imperador da língua portuguesa,

Foi-nos um céu também.”

Marco Maciel