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20/10/2003

Um falso enfoque agrário

O MST é um partido político não legalizado. As teses que defende são políticas. Não acreditam, seus líderes, na economia de mercado. Grande parte deles tem convicções marxistas e adota técnicas defendidas pelo famoso autor de O Capital - que, como Galbraith dizia, pela sua inteligência, era sempre mais admirado nos países em que não estivesse no momento.

Seus integrantes são contrários à propriedade privada, a não ser a dos que se filiam às suas plataformas ideológicas e políticas. Têm horror à riqueza dos outros, que pretendem transferir para si mesmos e para os demais correligionários. A democracia que pretendem é "pro domo sua", não aquela decorrente dos embates na Casa, por excelência, dos Poderes constituídos, que é o Legislativo, mas sim a do confronto, das invasões e das imposições de suas idéias.

O Direito, para esse movimento, não existe. Os que o seguem são os legisladores do próprio Direito e seus únicos julgadores, criando uma República própria dos "acampados" no País, que capta os novos desempregados, por força de uma recessão provocada por excesso de tributos e de juros.

Por essa concepção, o direito à propriedade nasceu para ser violado em sucessivas invasões, inclusive de bens públicos, e se a Justiça, quando provocada, repõe o Direito produzido pelas Casas Legislativas, e não pelos acampamentos desse partido não legalizado, os juízes que cumprem a lei são hostilizados por cumpri-la como manda a Constituição, e não como desejam os líderes do MST.

Jamais dizem que o Brasil é uma potência agropecuária superior aos países desenvolvidos e que luta - exatamente por sua eficiência - para ter espaço na globalização econômica. Jamais esclarecem à opinião pública que há mais proprietários de terra no Brasil que nos EUA, no Canadá e na Austrália, juntos. Jamais invadem terras improdutivas, mas sim terras produtivas, justamente aquelas que estão permitindo ao Brasil essa magnífica performance no cenário mundial.

Respeito a ideologia marxista de seus líderes, mas entendo que eles também deveriam:

Respeitar a lei; criar o partido dos sem-terra; lutar por convencer o povo - que não está com eles - de que têm razão em suas teses e, mais do que isso, disputar eleições. Que façam o teste das urnas para saber o que pensa o povo brasileiro.

Tentar impor contra o Direito suas teorias, perturbando o cenário político nacional, maculando a democracia, criando permanente instabilidade, é prestar um monumental desserviço à Nação, se é que essas pessoas estão preocupadas com o País, e não em desestabilizar as instituições democráticas, desrespeitar a Constituição e perpetrar permanente assalto à propriedade privada.

O dramático de tudo isso é que o governo federal - que em muitos aspectos tem surpreendido positivamente o Brasil e o mundo -, por um "viés" de origem, não é suficientemente firme em coibir o permanente estupro do Direito e da ordem constituída perpetrado pelo partido não legalizado do MST. E a fraqueza governamental nessa matéria levou a um crescimento - como noticiou a imprensa - de 33% do número de acampados, nos últimos tempos, objetivando o fortalecimento da legião de invasores.

A paz no campo se faz com prudência, emprego e justiça social. Jamais com confronto. E as políticas surgiriam naturalmente, visto que as ameaças dos violadores do Direito provoca, como reação, a defesa dos que temem que suas propriedades sejam violadas. Jamais tal atitude maculadora da ordem levará a um pacto social no campo, visto que os sem-terra desejam exatamente as terras daqueles que estão produzindo e tornando o Brasil uma das maiores potências agrícolas do mundo.

Convenço-me de que certas reminiscências de origem (progressividade de tributos, simpatia pela ditadura de Castro e tolerância com as invasões) mais prejudicam do que beneficiam o governo, que deveria pensar mais em fazer com que no Brasil<
Autor(es)

Ives Gandra da Silva Martins