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17/03/2005

Um papa radical

Que sentido podem ter as palavras do papa em nosso mundo despudoradamente leigo, dominado, de um lado, pelo mercado e, do outro, pelo Estado soberbamente secular?

Autoridade suprema da Igreja Católica, vive o papa às voltas com os grandes temas da fé, como a Encarnação, a Eucaristia, a Ressurreição, a imortalidade da alma, a Trindade, o pecado e a Redenção, os milagres... Hipocrisia à parte, em que isso pode interessar ao homem contemporâneo, de ouvidos duros, utilitarista, imediatista, agnóstico, acreditando só nos "fatos", na razão e na ciência?

Em nenhum momento lhe passa pela cabeça que a fé na razão e na ciência apenas substitui a antiga fé religiosa, sem diferir essencialmente desta. "Fatos"? Por acaso Goethe não assinalou que "todo fato já é teoria"? Fatos físicos, biológicos, econômicos, embutem em si a física, a biologia, a economia, simples teorias e, como tais, permanentemente discutíveis, tanto quanto é discutível a fé religiosa. "Razão"? Desde quando fé e razão se contradizem? Para Santo Agostinho (século 4.º), ambas se complementam, não se excluem. Para Santo Anselmo (século 11), fides quaerens intellectum, a fé busca a compreensão, o entendimento; a fé não é cega, ela se aperfeiçoa no conhecimento racional. Santo Tomás (século 13) argumenta na mesma linha. Não se brinca com a teologia católica, que constitui um prodígio de coerência lógica e sutileza intelectual. Algo tão sólido quanto uma catedral.

O papa João Paulo II, neste último livro, Memória e Identidade, bem como em escritos anteriores, revela-se um consumado radical. Marx dizia que ser radical é ir às raízes das coisas. Só que as "raízes" estudadas por Marx, o capital e o trabalho, são demasiado rasas para quem quer ir mais a fundo. Para o autor de Memória e Identidade, as raízes da História não se localizam na economia, nas classes e na luta de classes, em coisas como a mais-valia, etc. Para ele, as raízes da História se escondem em Deus, no supremo Criador, e somente nele devem ser localizadas. Por isso o radicalismo de João Paulo II vai mais fundo do que o pobre radicalismo de Marx. E, indo mais a fundo, descobre que os homens estão separados e em luta somente na superfície da realidade. No subsolo estamos todos unidos nas mesmas raízes, ligados e abraçados no seio e no amor do Pai. Seu radicalismo tem sinal de soma, não de divisão, como em Marx.

Escrito em estilo coloquial, de perguntas e respostas, não de um "discurso acadêmico, mas de um diálogo familiar", o texto do novo livro enfrenta problemas que residem no cerne da angústia e das aflições do homem de hoje - e suspeito ser esta a razão principal de sua tão larga audiência -, sempre remontando, como quem navega por um rio em direção à nascente, da situação atual para o mistério do encontro e do desencontro do homem com Deus.

No impressionante depoimento sobre o atentado de que foi vítima em1981, o pontífice, abordando mais uma vez o problema do mal, oferece esse diagnóstico definitivo: "O mal do século XX não foi um mal em edição pequena, por assim dizer, artesanal; foi um mal de proporções gigantescas, um mal que se valeu das estruturas estatais para cumprir a sua obra nefasta, um mal erigido em sistema." O comunismo, o nazismo e, agora, as redes do terror proclamam o mal "erigido em sistema".

O mais importante não é a liberdade, e sim o uso que se faz da liberdade. A liberdade é para o amor, e neste encontra a liberdade humana sua maior realização. Da mesma forma, a democracia representa uma conquista vital para todos nós, mas deletério é o mau uso da democracia no permissivismo moral, nas várias formas de agressão à vida, na tendência a nivelar por baixo. "Em face de tudo isso, é legítimo questionar se não estamos perante uma nova forma de totalitarismo, dolosamente velado sob as aparências da democracia." Note-se que a crítica não incide sobre a democracia em si, mas em sua deformação e falsificação.

Co
Autor(es)

Gilberto de Mello Kujawski