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19/01/2015

Água ou álcool?

Adverte o engenheiro Arlindo Falco Júnior (FSP de 17.12.14, p.A3) sobre um fato que a população desconhece. Somente 10% da água consumida é para uso direto das pessoas. 20% vão para consumo industrial e 70% para a agricultura. Dir-se-á que tudo, no final, converge para atender a necessidades humanas. Mas é preciso cotejar o custo-benefício desse gasto. São Paulo tem 4,5 milhões de hectares plantados com cana de açúcar. Quase 20% do território paulista. Fenômeno constatável a olho nu. Tanto que já escrevi sobre “cana & cana”, pois a separar um canavial de outro existe um presídio. Para produzir essa cana, foi necessário despender 78,2 bilhões de metros cúbicos de água, enquanto a chuva foi de 50,9 bilhões. Houve um déficit de 27,3 bilhões de metros cúbicos de água. Como faltou chuva, extraiu-se água do solo, do lençol freático, da umidade do ar, dos rios e cursos d’água. Ainda se usa a nefasta queima da palha para colher 780 mil hectares do plantio. Método que, segundo Arlindo Falco, “exaure a umidade do solo, depredando os recursos hídricos”. Considerado também o consumo de água nas usinas, chega-se a uma pegada hídrica de 2.100 litros para produzir um litro de etanol. Resultado: quando alguém abastece o carro com 40 litros de álcool por semana, utilizou no transporte 84,3 mil litros de água. O que é mais vital para a subsistência da vida: o álcool ou a água? Muitos diagnósticos foram feitos e, como sempre, a imprevidência é a regra num Brasil de “malfeitos”. Um continente com tanto sol, poderia investir mais na energia solar. Uma costa de 8,5 mil quilômetros poderia pensar em energia das marés e em matriz energética eólica. Mas o imediatismo e a limitação intelectual enxergam apenas o lucro rápido. Vamos continuar a fazer mais do mesmo. Continuemos a acabar com as poucas matas nativas, enterrar os cursos d’água. Dizimar a mata ciliar. Poluir os rios. Preservemos a “coivara”, o arcaico e criminoso método da queimada. Quando estivermos com sede, bebamos álcool. Ele serve também para higienizar, já que os banhos com água se tornarão a cada dia mais raros. Burra e irresponsável humanidade!


Autor(es)

José Renato Nalini