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17/02/2004

Água é vida

A frase “água é vida” é uma fórmula proposicional de duplo sentido porque a vida também é água. Se há água, então há vida. Se há vida então há água. Ou seja, água e vida são condições suficientes recíprocas.

No entanto, os profetas começam a prenunciar a escassez da água o que implica a redução da vida. A humanidade consome muita água e muitas vezes mais do que realmente necessita. É escusado dizer que os países mais ricos consomem mais do que os pobres.

A escassez da água transformou-se em questão estratégica nos países mais desenvolvidas. Para espanto do mundo, há poucos meses, o presidente da General Electric, proferindo uma aula nos EUA, afirmou que daqui a pouco as guerras não eclodirão por causa do petróleo mas pela falta dágua.

No Brasil, a administração dos recursos hídricos é realizada quase sempre pelos prefeitos municipais. Cabe-lhes a sua distribuição, a coleta e o tratamento dos esgotos. Historicamente, quase sempre pouca bola dão ao problema.

Nos EUA o consumo da água é administrada por uma rede de poderes que finaliza na Casa Branca. Ou em palavras mais simples, as autoridades locais, no nosso caso os prefeitos, perderam poderes para administrar um bem tão ligado à sobrevivência da cidadão e do Estado. Não é possível, pois, que uma cidade estabeleça um sistema de limpeza de esgotos e a sua vizinha não. Os esgotos somente são lançados nos rios após a devida limpeza, ou seja, quando se tornam água potável ou dela se aproximem em qualidade.

Dando-se um verdadeiro cuidado ao problema, vidas são salvas quase que diretamente. Num segundo momento, a saúde das vidas futuras é respeitada. Ouvi de um notável professor de medicina que a coleta e a limpeza de esgotos salvam mais vidas do que a vacinação.

Muito embora nos EUA, e, nos países mais desenvolvidos o tema seja estratégico, dele dependendo a paz e da guerra, infelizmente no Brasil não são muitas as cidades que coletam seus esgotos e os submetem a tratamento antes de lançá-los aos rios e mares.

O Estado de São Paulo é um exemplo. Quase todos os nossos rios correm da Serra do Mar para o interior. Quase todos eles estão degradados por esgotos domésticos e empresariais. Estas águas, como as do Rio Tietê e as do Rio Pardo, por exemplo, são remetidas para a Argentina e para o Uruguai, onde formam o Mar del Plata, antes, é óbvio, de serem lançadas no Oceano Atlântico.

Há anos atrás recebi em minha casa um engenheiro químico uruguaio que, representando o seu governo, veio a Ribeirão Preto para estudar a poluição gerada pelos curtumes de Franca que, até então, degradavam, entre outras fontes, as margens platinas do país irmão. O exemplo pode ser multiplicado muitas vezes. O Uruguai sentia a sua soberania violada pela poluição brasileira.

Há quem diga que se o Brasil, o maior depositário de água doce do mundo, não assumir a responsabilidade de bem administrar sua riqueza, outro país infelizmente o fará.

Há necessidade de se proceder a uma educação individual e pública sobre como bem administrar essa riqueza. É importantíssimo anotar que Ribeirão Preto e Franca são duas cidades que deram um passo importantíssimo na preservação da água, coletando e limpando seus esgotos. Tal exemplo merece ser cantado em prosa e verso, transmitido por toda a parte e para todas as gerações.


Autor(es)

Feres Sabino. Sérgio Roxo da Fonseca