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07/11/2008

Após 145 anos, finalmente acabou a Guerra Civil

Aconteceu que, em 4 de novembro de 2008, pouco após as 22 horas (horário da costa leste dos EUA), a Guerra Civil americana acabou quando um negro - Barack Hussein Obama - recebeu uma votação suficiente para se tornar presidente.

A Guerra Civil que, até certo ponto, foi decidida pela Batalha de Gettysburg, Pensilvânia, em 1863, terminou 145 anos mais tarde pelas urnas nesse mesmo Estado. Pois Obama conquistou a Pensilvânia, crucial para as eleições, garantindo sua vitória. 

Em seu Discurso de Gettysburg, o presidente Lincoln instou cada americano a retomar “o trabalho inacabado que os que aqui lutaram promoveram até agora tão nobremente”. Entretanto, essa obra ficou inacabada por um século e meio. Pois, apesar de décadas de ativismo social, de intervenções judiciais, de leis em defesa dos direitos civis - do caso Brown contra a segregação nas escolas, da cruzada de Martin Luther King (“Eu tenho um sonho”) e da Lei dos Direitos Civis de 1964 -, não se podia dizer que a Guerra Civil tivesse acabado enquanto a maioria branca dos EUA não elegesse um presidente negro. 

Foi o que aconteceu na noite de anteontem, e os americanos acordaram em um país diferente. A luta pela igualdade nunca acaba. Mas agora podemos recomeçar de um novo ponto de partida. Que toda criança, todo cidadão e todo imigrante saiba que deste dia em diante “tudo é realmente possível nos EUA”. 

Como Obama conseguiu? Provavelmente, foi necessária a crise econômica para que houvesse votos brancos suficientes para eleger um negro. E o jeito calmo de Obama, sua oratória comedida e branda, sua mensagem de “mudança” desprovida de ameaças foram elementos que ele soube usar muito bem. 

Mas houve também o “efeito Buffett”, que derrotou o “efeito Bradley” - pelo qual os eleitores brancos diriam a pesquisadores que votariam em Obama mas votariam no candidato branco. O efeito Buffett foi o contrário: foram os republicanos brancos que afirmaram aos colegas no restaurante masculino do Country Club que votariam em McCain e depois votaram em Obama, mesmo sabendo que isso implicaria aumento de impostos. 

Por quê? Alguns fizeram isso porque perceberam que seus filhos concentraram suas esperanças em Obama e não só não quiseram frustrar essas esperanças como secretamente decidiram compartilhá-las. Outros abraçaram intuitivamente as convicções de Buffett segundo as quais, se você é bem-sucedido, é porque teve a sorte de ter nascido nos EUA. Portanto, precisamos mais uma vez arrumar nosso país - precisamos de um presidente que possa nos unir. Intimamente, também sabiam que, após a atuação desastrosa da equipe de Bush, haveria conseqüências gravíssimas para o Partido Republicano. Eleger McCain agora significaria premiar a incompetência, zombar da confiança no governo e desencadearia uma onda de cinismo nos EUA. 

Obama será sempre nosso primeiro presidente negro. Mas conseguirá ser um dos nossos grandes presidentes? Ele terá sua chance, pois nossos maiores presidentes são os que assumiram o cargo nos momentos mais sombrios. “Assumir em um momento de crise não garante a grandeza, mas pode ser uma oportunidade para alcançá-la”, disse o especialista em filosofia política Michael Sandel, da Universidade Harvard. “Foi o que aconteceu com Lincoln, Franklin Delano Roosevelt (FDR) e Truman.” Entretanto, parte da grandeza de FDR “foi o fato de ele ter criado uma nova filosofia política aplicada ao governo - o New Deal - a partir dos destroços e da desordem política da depressão econômica herdados do antecessor”. Obama precisará proceder do mesmo modo, mas isso leva tempo. 

“FDR não disputou em 1932 tendo como plataforma o New Deal”, disse Sandel. “Seu programa baseava-se no equilíbrio do orçamento. Assim como Obama, ele não assumiu a presidência com uma filosofia de governo claramente elaborada.” 

Bush & Co. não acreditaram que o governo pudesse ser um instrumento do bem comum. Castraram os secretários de gabinete e nomearam incompetentes para cargos importantes. Para eles, a busca do bem comum não passou da busca do interesse próprio. Os eleitores rebelaram-se. Mas houve também uma rebelião contra uma versão democrata tradicional do bem comum - que é a soma de todos os grupos de interesse que reivindicam sua fatia do bolo. 

“Nesta eleição, o público americano rejeitou esses conceitos mesquinhos de bem comum”, afirmou Sandel. Mas uma nova política do bem comum não pode dizer respeito apenas ao governo e aos mercados. “Também terá de dizer respeito a um novo patriotismo - do que significa ser cidadão”, disse. O que arrancou os maiores aplausos em seu discurso de agradecimento foi a afirmação de que todo americano terá a possibilidade de freqüentar a universidade desde que preste um período de serviço à nação - no Exército, nos Peace Corps ou na comunidade. “A campanha de Obama despertou um idealismo civil, a fome de servir a uma causa maior do que eles próprios.” 

Nada disso será fácil. Mas, de todas as mudanças que a presidência de Obama inaugurará, a ruptura com nosso passado racista será talvez a menor. Há muito trabalho a fazer. A Guerra Civil acabou. É hora de reconstruir.

 


Autor(es)

Thomas L. Friedman, The New York Times