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04/09/2007

Como vim parar em Chigago?

Faleceu em São Paulo o Promotor de Justiça Teixeira Scavone. Foi um dos mais notáveis membros do Ministério Público do meu tempo, tendo se aposentado como Procurador de Justiça, após exercer a Corregedoria Geral. Rendo a ele a admiração de discípulo de mula ruça.

Era dotado de grande visão humanista. Como escritor, levou-me a admirar as novelas policiais, entre as quais uma por ele assinada: Casa de Campo.

Como ensaísta escreveu uma das mais perfeitas páginas sobre a pequena cidade, na qual, segundo seu olhar, ecoavam ainda os costumes da época colonial. O trabalho está publicado na “Justitia”. Li em algum lugar que as cidades brasileiras são planejadas como Brasília e Volta Redonda, ou não são planejadas como Canudos, São Paulo e Rio.

Depois de ler Scavone consegui entender que há cidades do século XIX e outras do século XX ou XXI, como queiram. Para o bem ou para o mal. Faz muito tempo que li e reli o texto. Parece-me que Scavone o escreveu para novos promotores. Com a sua visão universalista, penso que o texto deveria ser lido tanto pelos jovens promotores, como pelos velhos, tanto pelos promotores, como pelos não promotores: no texto ouço a voz de um homem culto.

Na década de setenta a Associação do Ministério Público promovia concursos de contos, de poemas e de fotografias. Scavone compunha sempre o júri dos dois primeiros. Concorria aos últimos, recebendo sempre os prêmios do primeiro ao décimo lugar. Num deles, fiquei em décimo primeiro com uma foto que batizei com o nome de “Jardim das veredas que se bifurcam”. Suponho que tenha sido premiado não pela foto mas pelo seu título que eu havia tomado de Jorge Luís Borges.

Os campeões eram sempre Scavone e Aníbal Augusto Gama. Perto deles sempre fui dente de leite.

A premiação tinha a finalidade de reunir velhos amigos, entre os quais eles, mais Ewelson Soares Pinto, Flávio Bierenbach, Paulo Fernando de Toledo, Salinas e João Benedito de Azevedo Marques entre tantos outros. 

Num desses encontros, perguntei ao Scavone como havia sido a visita de Faulkner a São Paulo, quando havia sido recepcionado por sua mãe, Maria Teixeira, a romancista do café. 

Narrou-nos que Faulkner veio do Rio para São Paulo, acompanhado pela “caipirinha”. As pessoas que foram buscá-lo no aeroporto já conseguiram ver a extensão do seu amor.

E o que você conversou com ele? Nada ou quase nada. Durante a passagem por São Paulo, o grande escritor quase só conversou com a tal da “caipirinha”.

Tanto assim que, no dia seguinte, ao abrir a janela do seu hotel, que dava para o Anhangabaú, levou um grande susto. Soube apenas dizer: -“Meu Deus, como vim parar em Chicago”?

Scavone está bem vivo na nossa memória.

 

 


Autor(es)

Feres Sabino. Sérgio Roxo da Fonseca