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25/07/2003

O Árabe Abençoado por Deus

A dedicada professora irmã Luísa Romão, de Marília (SP), dirigiu-nos, em carta, a seguinte e curiosa pergunta:

- Li algures que a Humanidade deve o Cristianismo a um árabe e que existe, inspirada na tradição cristã, uma lenda em torno de episódio no qual aparece um pagão (árabe) salvando Nosso Senhor. Que lenda é essa?

A nossa resposta é a seguinte:

- De acordo com a tradição foi um árabe de Jafa, homem simples e bondoso, que proporcionou recursos à Santa Família, a fim de que o Divino Infante e seus Pais pudessem escapar às ameaças sinistras de Herodes, o Grande, e procurar refúgio nas terras do Egito. Existe, realmente uma lenda. Vamos apresentá-la na íntegra, para atender o pedido de irmã Luisinha, de Marília".

“Quando os cristãos, de Chipre, ouviram a estranha notícia de que Tito, o bispo escolhido por Paulo, o consagrado chefe da Igreja, planejava uma longa e penosa viagem ao Egito, ficaram assombrados.

- Que pretenderia Tito, o bom cristão, com aquela viagem ao país dos idólatras? Estaria, certamente, naquela terra distante, sujeito a mil perigos no meio dos aventureiros pagãos!

Certo de que poderia, em poucas palavras, justificar os objetivos de sua viagem, reuniu Tito os seus companheiros e auxiliares da Igreja e fez-lhes uma surpreendente revelação:

- Algo muito estranho ocorreu comigo. Foi um sonho. Sim, um sonho e nada mais. Sonhei que me achava em terras do Oriente e vi um árabe, no seu pisar vagaroso, em longa estrada do deserto, carregando no colo o Menino Jesus. Sim, asseguro que não me enganei. Não era uma criança qualquer: era o próprio Menino Jesus. E o Divino Infante olhava com alegria para o árabe e sorria com meiguice. Um árabe no deserto, tendo em seus braços o Filho de Maria, o Salvador do Mundo! Era incrível! Acerquei-me do árabe, toquei-lhe, de leve, no ombro forte e interroguei-o: - “Qual é o teu nome? Que pretendes fazer com esse menino?” O árabe voltou-se para mim, parou um instante e respondeu-me, com a serenidade de um justo: - “Nada temas, ó cristão! Nada temas. Chamo-me Kazan, o Quebir! Sou o chefe da caravana! Quero amparar este Menino! Quero tornar tranqüila e feliz a jornada que vai fazer pelo deserto!”

Na confusão daquele sonho, olhei em redor de mim e avistei extensa caravana de mercadores sírios, judeus, gregos e egípcios. Agitavam-se todos, de um lado para o outro, ultimando os preparativos para a partida. Os cameleiros gritavam: - “A caravana vai partir! A caravana vai partir!” Chegava, aos meus ouvidos, um ecoar surdo de vozes roucas. Nesse momento um beduíno de turbante negro, com uma longa corda na mão, puxou-me, com violência, pelo braço e advertiu-me em tom rude: - “Tranqüiliza-te, cristão! Tranqüiliza-te! O Menino está bem seguro nas mãos de nosso Quebir! Tudo se cumprirá como está escrito!” Com o golpe violento do beduíno, acordei. Que sonho estranho!

- Estranho sonho - repetiu o jovem Acilino, o auxiliar predileto de Tito - Cristo carregado, no colo, por um árabe! Um caravaneiro pagão protegendo, amparando, o Menino Jesus! Que significação terá esse sonho do nosso mestre?

- Não sei, meu caro Acilino, volveu Tito em tom grave e com um certo olhar de inquietação – Envolvem os sonhos mistérios que são inatingíveis para a  nossa inteligência. O certo seria esquecer esse sonho. Mas não posso e não devo proceder assim. E direi a razão. Hoje, pela manhã, ao atravessar a praça, encontrei, casualmente, dois mercadores sírios de Damieta, no Egito. Eu os conhecera em Damasco. Contei a esses mercadores o meu sonho. E deles ouvi a mais estranha e surpreendente revelação: em Damieta vive, realmente, um árabe, muito estimado pelo povo, querido de toda a gente, que se chama Kazan, o Quebir. Quando moço foi quebir, isto é, chefe de caravanas e centenas de vezes jornadeou pelo deserto, andou pela Judéia, percorreu várias cidades de Israel.

E, depois de pequena pausa, Tito declarou:

- Abalou-me esse traço de realidade que reponta no meu sonho. Estou, portanto, resolvido a ir até Damieta. Quero apurar tudo. Não teria havido, no caso, uma simples coincidência de nomes? Partirei amanhã, ao romper do dia, numa galera Síria, que transporta vinho e tecidos. Levarei Acilino em minha companhia.

E o prestigioso bispo, da Igreja de Chipre, partiu para a Terra do Nilo, o país das lendas e dos mistérios.

Logo que desceram na pitoresca cidade de Damieta, viram-se os dois cristãos cercados de mercadores e aventureiros de todos os recantos do mundo. Dirigiu-se Acilino à uma florista grega e perguntou-lhe:

- Conhece aqui, em Damieta, um árabe chamado Kazan, o Quebir? Onde mora?

A florista respondeu:

- Conheço muito bem. É meu amigo. Dele tenho recebido muitos presentes. Mora ao lado de Mezaleh, para além da Casa dos Patos.

Seguindo as indicações da florista, Tito e Acilino foram ter ao modesto recanto em que vivia o velho Kazan, que os egípcios apelidaram de “O Quebir”.

A casa do árabe ficava junto ao lago, em terreno arenoso, no meio de pequeno bosque de palmeiras.

Recebeu-os Kazan, com muita simpatia. Vivia só. Ganhava a vida consertando as redes dos pescadores e criando patos que vendia no mercado nos dias de feira. Era um homem alto, de aparência forte, mas já bastante idoso. Tinha as barbas grisalhas, mas os seus cabelos eram totalmente brancos.

Ao perceber que seus visitantes eram cipriotas, o árabe saudou-os no idioma grego.

- É espantoso – comentou Tito, com certo enlevo – Esse homem conhece bem o grego. Fala com surpreendente correção!

- Nada há de extraordinário – volveu, com naturalidade, o ancião. Vivi dois anos em Atenas; estive também em Creta e em Chipre.

E depois de fazer com que seus hóspedes se sentassem em pequenos bancos de bambu, tornou em tom delicado:

- A que devo a honra dessa visita?

Ia se revelar o mistério do caso. O bispo de Chipre tomou da palavra e falou sem rodeios:

- Nada de importante. Viemos, como já disse, de Chipre e chegamos hoje pela manhã. Sinto-me preocupado com um sonho, cujo sentido desejo esclarecer. Quero que nos responda, apenas, a uma pergunta: Sei que exerceste, durante muitos anos, a profissão de quebir, isto é, de guia de caravanas. Lembra-te de teres, algum dia, antes da partida de uma caravana, carregado ao colo um menino que vinha para o Egito?

O árabe sorriu orgulhoso:

- Ora...ora, meu amigo... Como poderei responder? Muitas e muitas vezes, nas tendas do deserto, ou sob o vento nas noites frias, carreguei crianças ao colo! Umas sadias e alegres, outras tristes e enfermas...Era o meu dever...

- Não se trata, porém, de uma criança qualquer – revidou Tito, muito sério – Escuta-me, ó Quebir! Escuta-
Folha de São Paulo, de 27/12/1965

 


Autor(es)

Malba Tahan
Malba Tahan, aliás Julio Cesar de Mello e Souza,célebre Professor de Matemática do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, publicava regularmente suas brilhantes histórias