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25/07/2003

Lux in Tenebris



Uma pedra, uma simples pedra, contém em seu corpo todas as determinações
físicas, químicas e mineralógicas que a constituem. Ela
é saber mineralizado, oculto, soterrado, à espera da inteligência
que o desenterre. Assim é toda a natureza que nos cerca - plantas e bichos,
átomos e galáxias.

A mente de um homem, de qualquer homem, contém todo o potencial de percepções
e de seus arranjos lingüísticos, simbólicos e lógicos
que constituem o orbe inteiro do saber humano possível. Ele é
saber em germe, pronto a florescer tão logo encontre seu objeto - o mundo
que nos cerca.

 

Se
o homem não é só a consciência que conhece, se ele
é também realidade, ser, parte do mundo, o mundo, por sua vez,
não é só objeto inerte e estranho que "está
aí". O divórcio do homem e do cosmos só existe na
imaginação do homem: fisicamente, o homem não sobreviviria
um só instante a esse divórcio. O mundo em torno de nós
está também dentro de nós, sob a forma das mesmas determinações
físico-químicas que nos compõem - a nós e a ele.
Do mesmo modo, nosso cérebro, submetido a idênticas determinações,
não poderia ser estranho ao mundo que conhece. A hipótese de um
abismo entre a inteligência e o cosmos é a imagem hipotética
do nada, e nada deveria nos preocupar menos que um nada hipotético.

 

 

Desdobrado
sob a dupla aparência de consciência e de presença, é
o mesmo Logos, a mesma Inteligência que se manifesta dentro e em torno
de nós, que dialoga consigo sempre que um homem vê uma pedra e
a pedra é mostrada ao homem.

 

 

No
fluxo do tempo cósmico, esse Logos atravessa, desde o ponto de vista
humano, ciclos de revelação e de ocultação, marcados
por quatro momentos fundamentais: o momento em que ele se oculta na multiplicidade
confusa do mundo; o momento em que ele se refugia no fundo obscuro da consciência
isolada; o momento em que ele se manifesta com todo o seu esplendor na inteligibilidade
do mundo em torno; e o momento em que ele se manifesta com todo o seu esplendor
na auto-realização da consciência humana.

 

 

O
Natal é o momento em que a luz nasce no fundo das trevas - numa gruta,
entre animais, ignorada pelo mundo. Os lucros do comércio e as edificantes
mensagens sociais dos demagogos nada têm a ver com isso: são ecos
da matança dos inocentes, e convém não confundir as celebrações.

 

 

Mas
se o nascimento do Logos é tão discreto, não seria sensato,
da parte de um escritor, esperar fazer-se compreender no que escreve a respeito
desse mistério na hora mesma em que ele se desenrola no fundo ignorado
do cosmos e da consciência.

 

 

Eis
por que me permito registrar, no Natal de 1997, estas palavras que muitos hão
de julgar, não sem razão, cifradas e enigmáticas. Talvez
leiam aqui uma promoção das Casas da Banha. Talvez uma mensagem
em código de conspiradores internacionais. Compreenderão isto
como o governador romano compreendeu o que se passava na Judéia. Para
ele, tudo era uma questão de política e de economia; o resto eram
meras "crenças culturais" dos judeus. Passados dois milênios,
o mundo povoou-se de economistas, antropólogos e ideólogos que
nos dirão exatamente o mesmo. Et tenebrae non comprehenderunt eum.

 

 

Não
creio poder, sem a ajuda miraculosa da luz que nasce, fazer nada para que me
compreendam melhor.

 

 


Autor(es)

Olavo de Carvalho