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13/05/2010

Minhocão e minhoquinha

Aos pedestres sejam dadas as ruas da cidade; aos motoristas sejam dadas as compridas estradas. A regra tem vários sentidos, um deles é o sentido jurídico: na cidade todas as interpretações devem amparar o pedestre; na estrada, os motoristas. Ou seja, na cidade exige-se redobrada atenção do motorista; na estrada, do pedestre.

 

A questão não é somente jurídica, multiplica-se segundo a multiplicidade dos problemas. A cidade pode e deve invadir a estrada ou a região de seu contorno. A estrada não deve invadir a cidade e seu conteúdo.

 

Daí se extrai que não se deve abrir via expressa estradeira nas cidades, mas, com certeza, é permitido urbanizar a zona rural. Nos livros modernos, a cidade é a cidade mais o subúrbio e a zona rural. A cidade é o mundo.

 

As mais modernas cidades abominam os viadutos e as vias expressas. A civilização do automóvel tem de ser resolvida pelo transporte coletivo. Os povos, que adotaram a regra, são muito mais felizes do que os que cavalgam sobre os cavalos de força de seus automóveis.

 

No Brasil há exemplos eloqüentes dessa lição. A mais grave invasão da estrada na zona urbana foi a construção do Minhocão em São Paulo,  rebatizado com o nome de Elevado Costa e Silva. A Avenida São João, uma das mais belas áreas da cidade no passado, foi transformada num amontoado de lixo, sombra e miséria. Naquela época, o Palácio do Governo ficava na sua vizinhança. Pobre, paupérrima vizinhança, hoje em dia.

 

A época de sua construção, Robert McNamara, Secretário de Defesa dos EUA e presidente do Banco Mundial, criticou duramente a construção do Minhocão: “os paulistas deveriam gastar seu dinheiro construindo o Metrô”.

 

Alguém dirá que o Minhocão é necessário para dar velocidade ao trânsito atravancado da paulicéia. Errado. Com o Minhocão o trânsito em São Paulo continuou e continua caótico porque os urbanistas privilegiaram  os automóveis quando tinham o dever de olhar para o pedestre.

 

Há cidades exemplares no mundo onde não há minhocões e nem minhoquinhas. Por exemplo, Paris e Londres, poucos são os seus viadutos, e o trânsito flui com muito mais segurança e velocidade do que o de Ribeirão Preto. Lá o pedestre é mais importante do que o automóvel. Nem sempre. Mas quase sempre. Tem se como idéia-vetor que as cidades devem rumar para o horizonte e não para os céus. Nem sempre. Mas quase sempre.

 

Aqui tem sido tudo ao contrário. Há minhocões e minhoquinhas para todo o lado para dar velocidade aos automóveis e freiar a locomoção dos pedestres. Aqui as estradas invadiram as cidades, sem resolver a fluência do trânsito, mas criando grandes e graves problemas.

 

Triste exemplo do fenômeno foi a construção da minhoquinha que teve o condão de estender o Anhanguera para dentro de Ribeirão Preto, transformando a Avenida Castelo Branco em pista expressa. Atribuiu-se o poder dos automóveis cruzarem a zona urbana em velocidade. Expulsaram dali os pedestres. O que é pior, foi construído um muro dividindo a cidade em duas. De um lado a Lagoinha. De outro lado, a Ribeirânia. Uma grande pena. O seu futuro pode ser pressentido olhando para a experiência do Minhocão de São Paulo.

 

É mesmo possível temer que em breves dias a Minhoquinha da Castelo Branco seja também transformada em pista de c

 


Autor(es)

Feres Sabino. Sérgio Roxo da Fonseca