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25/07/2003

O Julgamento de Eva

Um
dia, o velho Jeová passou as mãos, reflexivamente, pela longa barba branca,
chamou um dos arcanjos e lhe disse:

 

-
Tenho ouvido falar mal das mulheres. Parece-me que elas são uma das minhas
obras menos perfeitas.

 

 

-
As mulheres são belas Jeová!

 

 

-
São belas na aparência. Mas recebi notícias tão desagradáveis que penso em
suprimir na criação esse ente suplementar e imperfeito que é a mulher.

 

 

-
Mas como queres tu que os homens nasçam, Jeová?

 

 

-
Isso é um pormenor sem importância. Podem nascer das ondas do mar, dos troncos
das florestas, ou do ventre fecundado dos rochedos, como queria um poeta grego
há dois mil e quinhentos anos.

 

 

-
Mas ...

 

 

-
Em todo o caso, não quero extinguir a mulher de forma precipitada. Quero primeiro
ouvir o que me dizem os homens. Por isso te chamei. Espero amanhã ao meio-dia
as almas de todos os sábios e de todos os poetas que, em vida, disseram mal
das mulheres. Depois de os ter ouvido, tomarei a minha resolução.

 

 

No
dia seguinte, à hora indicada, Jeová tinha a seus pés uma multidão de sombras
humanas, de todos os tempos, idades e civilizações. Ele, que os conhecia a
todos, olhava-os sorrindo. Então, disse-lhes: 

 

 

-
Teólogos, poetas, filósofos, reis, sábios, meus filhos, quero ouvir-vos antes
de  pronunciar uma sentença que
interessa ao gênero humano. Cada um de vós, cujo espírito nasceu do meu sopro,
dir-me-á, ao passar por mim, o que em vida pensou das mulheres.

 

 

“Poderoso
Júpiter”, disse o grego Eurípedes, “por que permitiste que aparecesse debaixo
do Sol um mal tão perigoso como a mulher?.” A seguir vinha Sócrates: “No dia
em que eu me julguei igual aos deuses, Xantipa, minha mulher, entornou-me
sobre a cabeça um vaso de imundície.” E Platão então acrescentou: “Por isso
eu nunca soube se devia incluir minha mulher entre os animais racionais ou
irracionais.” “Sabeis”, disse Demócrito, “por que escolhi para meu leito uma
mulher tão pequena? Porque, dos males, o menor.” “E sabeis”, interveio o sofista
Protágjoras, “por que razão casei a minha filha com meu maior inimigo? Porque
não tinha nada pior para lhe dar.” Em seguida, no longo cortejo de espectros,
surgiram os romanos. Catão, oitenta anos, uma dobra da toga pretexta de cônsul
lançada sobre a cabeça, foi o primeiro a falar: “Se as mulheres não existissem,
Júpiter, viveríamos como os deuses!” Agora era os grandes vultos do mundo
cristão que vinham caminhando pálidos e curvados. Todos eles, místicos, ascetas
e santos, viam na mulher um objeto de terror. S. Crisótomo, arcebispo de Bizâncio,
levantou a voz potente: “Senhor, Senhor, para que criaste a mulher, se ela
é o maior mal do homem?” S. Gregório Magno pedia: “Senhor! Quando as trombetas
soarem no vale de Josafá, não consistas que as mulheres ressucitem no seu
sexo, porque são capazes de fazer apostatar os anjos na presença do próprio
Deus!” No tropel das sombras, vinham chegando os homens da Renascença e da
Reforma. Erasmo passou, lendo em voz alta o Elogio da Loucura: “A mulher é
um amável animal que nunca teve o juízo todo.” Em seguida, Rabelais: “A diferença
que faço entre o cavalo e a mulher é que açoito um com as varas e a outra
com a mão.” Depois, Milton, cego, tateando o espaço: “Não há dúvida de que
a mulher é o mais belo defeito da natureza.” Logo é Shakespeare que surge:
“Se as lágrimas das mulheres pudessem fecundar a terra, de cada lágrima nasceria
uma serpente!” Troveja uma voz: é Luthero, perguntando de forma violenta:
“Quem é capaz de sustentar que a mulher pertence ao gênero humano?” Passam
agora os filósofos modernos e contemporâneos, passam os artistas, passam os
poetas. Schopenahuer queixa-se amargamente a Deus: “Eu disse que um dia as
mulheres eram animais de cabelos compridos e de idéias curtas. Os cabelos
já elas cortaram; mas as idéias ficaram mais curtas ainda.” Nietzsche, indignado,
brada: “O homem descende dos deuses, Senhor, mas a mulher descende do macaco!”
Vem Oscar Wilde, desdenhoso, paradoxal: “O mundo foi feito para os homens
e não para as mulheres!” Aparece Heine, irônico, sorrindo: “Eu nunca soube
bem onde acaba a mulher e onde começa o diabo!” Michelet afirma: “A mulher
é uma perpétua doente.” E Soren Kirkegaard: “A mulher é um erro de Deus.”

 

 

Ouvem-se
as últimas palavras dos inimigos de Eva. Percebe-se o eco das mesmas. Passam,
vagamente, as últimas sombras. Entretanto, Jeová está mergulhado em profunda
meditação. Quando o arcanjo lhe perguntou o que resolvia, Jeová ergueu os
seus dois dedos imperiais e, com lentidão que tornava ainda maior sua majestade
disse:

 

 

-
Vai chamar meu filho.

 

 

O
ar luminoso encheu-se de uma música harmoniosa. E momentos depois, uma voz
ao mesmo tempo doce e forte ergueu-se para Deus:

 

 

-
Pai, aqui estou.

 

 

-
Ouviste-os, meu filho?

 


Autor(es)

Júlio Dantas