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27/07/2003

O Lambe-Lambe e a Primavera


          De "ver
primeiro" do latim nasceu o vocábulo primavera em português.
Trata-se da única estação do ano feminina provavelmente
porque o encanto da maternidade atinge a terra e do seu seio germinam
as sementes das novas vidas que se convertem em flores e árvores.

 


          Do céu
desabam as chuvas que empapam o chão e dão verde às
folhas que fogem do resto da secura que lhes cobriu o frio. Chove forte.
Já tem água bastante para lavar o telhado, diz o meu vizinho.

 

 


          Silenciosa
e imperceptivelmente as flores e as flores iniciam uma dança inaudível
para os homens, mas ouvida pelas fadas e bruxas que compõem o cenário
imaginário entretecido pelos raios solares.

 

 


          Lá
na Praça Sete as folhas da sapucaia mudam da cor do verde para
um rosa próxima do salmão. Próximo do museu dos troncos
das curupitas saem as flores muito cheias de néctares que atraem
as abelhas. Pudera, a abelha que lhe toma o mel chama-se curupira na linguagem
nativa. Mel que envenena, segundo Silveira Bueno. Pelo que sei, tanto
a sapucaia como a curupita são plantas amazônicas.

 

 


           As árvores
do cerrado já cantaram a sua sinfonia prefaciando a primavera.
Ipês e manacás já derramaram suas cores pelas colinas
e vales como se houvesse uma mão invisível pincelando os
campos, caminhos, veredas e sendas para que o homem permanecesse encantado
perante tal milagre. Sem bem saber por que houve a criação
e a recriação.

 

 


           Basta
um dia de chuva. A vida é eterna em cinco minutos, já dizia
uma frase chilena. Ou como perguntou Neruda, quantas semanas tem este
sábado ? Quantos meses tem esta primavera ? Quantos anos tem esta
noite chuvosa. Basta um dia de chuva para a vida recobrar o seu sentido.

 

 


           Cada
um dos meus amigos sonha construir uma praça segundo sua imagem
e semelhança. Sonhos, sonhos são. A minha praça teria
um lago e nele um fonte luminosa, com garças espalhadas pela grama.
Duas figueiras enormes na parte debaixo. Um baobá na esquina da
Visconde. Uma ficheira ao lado da estátua. Um fotógrafo
lambe-lambe debaixo da árvore imitando um quadro antigo. Tudo resplandecendo
de vida. Tal como num dia de primavera foi uma Praça XV que ainda
vive em minha memória.
 


Autor(es)

Sérgio Roxo da Fonseca
* É Secretário Municipal de Educação da Prefeitura de Ribeirão Preto, Professor de Direito na UNESP, Campus de Franca-SP; Procurador da Justiça de São Paulo, aposentado.