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27/07/2003

O Pássaro e a Flor


        Segundo um amigo, a cidade
de São Paulo teria adotado como símbolos um pássaro
e uma flor, ou seja, o sabiá e a azaléia. Não confirmei
a afirmação mas a aplaudi de pé.

 


        Após o Tom e o
Chico terem imortalizado em verso e som o sabiá, melhor dizendo,
a sabiá, que eu ainda irei ouvir cantar debaixo de uma palmeira
que já não há, fico acreditando que ainda vou voltar
para o meu lugar. O encanto extraordinário da música, talvez
a mais perfeita que ouvi entre as denominadas populares, alçar
o sabiá à altura de símbolo de uma cidade de pedra
e cal, pareceu-me mais do que um belo gesto, mas, sim, um modelo a ser
seguido.

 

 


        A azaléia, cujo
nome, segundo o mestre Silveira Bueno, vem da Grécia, onde significa
seco ou enxuto, nestes tempos de pouca chuva, toma cor que as palavras
não descrevem. Prefiro dizer que isso ou aquilo têm a cor
da azaléia. O filólogo acrescenta que a palavra foi acentuada
na terceira letra pelos espanhóis e na última pelos franceses,
valendo para nós qualquer das duas pronúncias. O costume
consagrou a influência francesa.

 

 


        Fiquei matutando que quem
transformou o pássaro e a flor no símbolo da paulicéia
desvariada bem mereceria ser conhecido e aplaudido com toda força.
O sabiá e a azaléia, um com o seu canto evocativo e a outra
com a sua cor indescritível bem remontam um cenário sonoro
e colorido que a cidade de São Paulo fez por merecer.

 

 


        Mas se é assim,
bom seria se a minha cidade também adotasse esses símbolos.
Quais dos pássaros ? Quais das flores ? Já não são
tantos e nem tantas hoje em dia, mas ainda sobreexistem nesses tempos
de quase primavera.

 

 


        Vou dar um palpite. No
jardim da catedral e no Museu do Café plantaram enormes curupitas.
Para alguns a curupita chama-se cuiê ou abricó de macaco.
Afirmam que vieram da floresta amazônica. No Rio de Janeiro há
curupitas defronte do aeroporto Santos Dumont e, é claro, no Jardim
Botânico. Poucas vezes vi uma flor tão misteriosamente bela.
Nasce no tronco de uma grande árvore. Parece esculpida em madeira,
variando sua cor do vermelho forte ao amarelo. Se pudesse a flor da curupita
seria um dos símbolos da minha cidade.

 

 


        E o pássaro ? Hoje
em dia a cidade foi invadida pelas maritacas e pelas rolas. Nada contra
elas, ao contrário, gosto de ver a disciplina dos gritos das primeiras
e o silêncio sorumbático das segundas. Mas daria meu voto
para o pintassilgo que com o seu belo nome e com a harmonia do seu canto
transportam a gente para os tempos de eu criança quando as árvores
se forravam deles prelibando a primavera. A cidade ficaria mais nossa
se simbolizada pela curupita e pelo pintassilgo. Nós também
ficaríamos mais atentos com o som dos pássaros e as vozes
das flores.
 


Autor(es)

Feres Sabino. Sérgio Roxo da Fonseca