Artigos

23/01/2009

O sonho de Luther King é realidade

Na sua última entrevista formal antes da posse, Barack Obama se estendeu pela primeira vez desde a campanha sobre o significado histórico da chegada de um negro à Casa Branca. Autor, em março do ano passado, do mais franco e lúcido pronunciamento sobre a questão racial nos Estados Unidos já feito em público por um político americano - quando se tentou explorar a sua proximidade com um pastor de Chicago que pedira a maldição divina para o país -, Obama explicou na semana passada ao Washington Post por que exatamente, a seu ver, os Estados Unidos não serão os mesmos a partir da sua eleição. “Uma geração inteira vai crescer achando normal que o posto mais elevado do planeta seja ocupado por um afro-americano. É uma coisa radical”, declarou. “Muda como as crianças negras olham a si mesmas. Muda também como as crianças brancas olham as crianças negras. Eu não subestimaria a força disso.”

Ninguém deveria. Como tampouco ninguém deveria imaginar que depois da eleição de Obama “todos viveram felizes para sempre”, na mordaz formulação do colunista (branco) Frank Rich, escrevendo domingo último no New York Times, embora confesse que até agora não consegue acreditar que efetivamente chegou “o dia de Obama”, que ele nunca pensou que pudesse chegar. Nascido em Washington, a capital cuja população negra formou secularmente uma “maioria invisível” para a elite do poder, Rich lembra a segregação de fato que persistia nas escolas do Distrito de Columbia, anos depois de ter sido abolida pela legislação dos direitos civis. O colunista lembra também que na inauguração do Memorial Lincoln, em 1922, o único orador negro do evento discursou não da plataforma oficial, mas de uma área reservada para os seus, “separada do resto do público por uma avenida”.

Desde ontem, é bem provável que as crianças brancas e negras se olhem umas às outras como nunca antes nos 233 anos da paradoxal república americana, onde a luz incandescente das liberdades coexistiu com a interminável noite do escravagismo, da discriminação e do preconceito. Mas também com oportunidades sem paralelo na história e na geografia, que transfiguraram a existência de incontáveis milhões, americanos e estrangeiros, brancos e pretos, homens e mulheres. É verdade que, “apesar de todo o nosso imenso progresso, não somos pós-raciais, seja lá o que isso queira dizer”, atesta Rich. “O mundo não muda num dia, e as tensões raciais que emergiram tanto nas prévias democratas como nas eleições gerais não terminaram em 4 de novembro.” 

Mas é igualmente verdadeiro, para ficar nas suas palavras, que “não se pode simplificar e estereotipar e amplificar o que é negativo, a ponto de distorcer a realidade”; que “o notável não é quantos foram vencidos pela discriminação, mas quantos superaram os obstáculos e foram capazes de abrir caminho a partir de caminho algum”; e, enfim, que “em nenhum outro país do mundo a minha história seria possível”. Ontem, uma circunstância envolveu essa realidade em um cintilante simbolismo: Obama e o presidente da Suprema Corte, John G. Roberts Jr., que lhe tomou o juramento da posse, vindos de ambientes em tudo diferentes, cursaram a mesma Escola de Direito da Universidade Harvard, de cuja revista um foi presidente, o outro, editor-chefe, e se formaram, ambos, com distinção e louvor. Ironicamente, o então senador Obama foi um dos 22 colegas a votar contra a indicação de Roberts para a Corte, alegando que “ele usou com muita frequência as suas formidáveis aptidões em favor dos fortes em oposição aos fracos”.

Mas “o notável”, como diria Obama, é que, nos EUA, os desníveis de oportunidade podem ser neutralizados por traços pessoais e familiares mais fortes do que origens raciais ou sociais adversas, sob o estímulo da meritocracia e de instituições que, no limite, suportam antes o igualitarismo do que o privilégio - por trazerem embutidas, desde a Declaração de Independência de 1776, as sementes da correção das injustiças.

É por isso que Obama pôde dizer no discurso de posse: “Este é o significado da nossa liberdade e do nosso credo - porque homens, mulheres e crianças de todas as raças e fés podem se juntar nesta celebração e porque um homem cujo pai há menos de 60 anos talvez não fosse atendido em um restaurante local pode estar diante de vocês para fazer um sagrado juramento.”

 


Autor(es)

"O Supremo Fortalecido" - Editorial OESP