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25/07/2003

O Vestidinho Azul

A primavera de 1909 cegou a Cleveland sem afetar a Avenida Gates. Em torno desse logradouro, o elegante bairro residencial era todo atividade: cavavam-se canteiros, podavam-se gramados, pintavam-se fachadas... Mas na Avenida Gates o que se via era inércia e desleixo.

Embora só se estendesse por um quarteirão, a avenida, de tão descuidada e suja, dava a impressão de maiores dimensões. As famílias que ali moravam eram, quase todas pobres, e aparentemente resignadas à pobreza. Os homens trabalhavam irregularmente nas usinas de aço, e eram freqüentadores assíduos dos botequins e tavernas. Nas casas sombrias, nem água corrente havia; as famílias da avenida Gates iam, de baldes na cabeça, buscar o precioso líquido no registro. 

A rua propriamente dita, era esburacada e desprovida de calçamento. Lá no fim do quarteirão, a estrada de ferro ainda contribuía para aumentar a imundice e tornar mais barulhento o local. Faltava até iluminação pública. 

Na escola primária ali perto, quase todas as meninas apareceram com vestidinhos novos naquela primavera; mas a garotinha da Avenida Gates voltou com a mesma blusa encardida e a saia remendada que usara durante todo o inverno. Provavelmente era a única roupa que tinha... 

A professora suspirou. Um menina tão bonitinha..., simpática, estudiosa. Seu rosto vivia sujo, e o cabelo despenteado: mas, apesar disso, percebia-se que a criaturinha tinha feições finas. Compadecendo-se, disse a mestra: 

- Minha filha, por que você não lava o rosto antes de vir para a escola? Quer fazer isso para mim? 

Na manhã seguinte, a menina veio com as bochechas rosadas de tão limpas, e o cabelo penteado. 

A professora animou-se a acrescentar: 

- Agora, meu bem, peça à sua mamãe para lavar essa blusa e essa saia... 

A
aluna continuou a usar o mesmo traje sujo. A mãe deve ser desleixada! pensou o professora; e, assim refletindo, tomou a iniciativa de comprar um vestidinho azul-vivo, que deu à criança; esta recebeu o presente com grande alegria, e foi correndo para casa. No dia seguinte, estava linda. Comunicou, então, à professora:

- Mamãe quase caiu pra trás quando me viu de vestido novo! Papai estava no serviço, por isso não me viu. Mas vai me ver na hora do jantar. 

Quando o pai finalmente a viu, piscou os olhos, percebendo de repente que sua filha era um primor... E piscou outra vez, ao ver uma toalha na mesa da sala de jantar. Nunca houvera dessas coisas em sua casa... 

- Que história é essa? perguntou.

- De agora em diante a gente precisa cuidar da limpeza, respondeu a mulher. – Nossa filha está dando o exemplo... 

Terminado o jantar, a mãe começou a esfregar os soalhos, sob o olhar do marido que, em silêncio, não escondia sua surpresa. Em seguida caminhou ele até o quintal, e pôs-se a consertar a cerca. 

Na noite seguinte, ajudado pela família, limpou o quintal e principiou a cuidar dos canteiros. 

U
ma semana depois, um dos vizinhos, intrigado com tanta atividade na casa ao lado, inspirou-se e começou a pintar a sua... pela primeira vez em dez anos. 

Daí a alguns dias o Reverendo Alfred Fleming, jovem pastor duma igreja próxima, passou pela avenida Gates e viu os dois homens a trabalhar. Reparou na rua sem calçamento e na imundice acumulada nos quintais. Bem sabia que aquilo era perigo em caso de incêndio, pois ele próprio tomara parte nos serviços de salvamento, por ocasião do incêndio da Collingwood, que vitimara 173 alunos. E disse, consigo mesmo: "É preciso ajudar estes homens que tem a energia de procurar melhorar suas casas no meio de tanta sujeira." 

Dirigindo-se às autoridades municipais, conseguiu persuadir a Prefeitura a calçar a rua e instalar ali canalização de água e luz elétrica. Feito isso, exerceu pressão junto aos senhorios no sentido de que se procedesse a reparos nas casas, no que foi auxiliado por outras pessoas interessadas em trabalhar pela comunidade. 

Pouco a pouco, a avenida foi tomando novo aspecto. As famílias vestiam-se melhor, e alguns dos bêbados costumazes chegaram a abandonar o álcool. Houve, mesmo, famílias que passaram a freqüentar a igreja. 

Seis meses depois de a menina ter ganho o seu vestido novo, a Avenida Gates já era um quarteirão bem arrumado, com casas simpáticas e cidadãos respeitáveis. 

Notícias de metamorfose, espalharam-se até outras localidades, e resultaram em campanhas semelhantes. Por onde quer que fosse, o Reverendo Fleming ia contando a história da limpeza levada a sério a afeito na
Revista de Atualidades. Anais Franciscanos nº 679, São Paulo, Julho de 1968, pp. 4/5.