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25/07/2003

Os que não são Consultados

Prosseguindo
hoje naquilo a que nos propusemos, apresentamos outro trecho de autoria de Gustavo
Corção. Trata-se aqui da parte final da Crônica "Os que não são consultados",
de seu livro
Dez anos.


"Ouvi
hoje contar o caso de um acrobata americano que teve uma idéia. “Brain Wave!”.
Uma idéia nova para seu programa de televisão. E assim: em pé no rebordo do
telhado de um arranha-céu ele faz cabriolas, não com seu próprio corpo, mas
com o corpo de uma criancinha de meses que ele atira para o ar, apanha, equilibra,
muda de mão e passa entre as pernas. Como se vê, o espetáculo deve ter sido
excitante e gostoso para as pupilas cansadas de outros espetáculos mais rotineiros.


Essa
história lembrou-me outra. Estavam duas ou três senhoras de nossa melhor sociedade,
dessas que tomam chá de chapéu, a discutir o caso de um desabusado cirurgião
(também da melhor sociedade) que provocara um aborto sem consultar ninguém.
Dizia então, uma das senhoras, a do chapéu de lilazes: "Eu acho que a família
deve ser consultada"... A dama de chapéu cor-de-amora foi mais precisa:
"Eu acho que compete à mãe, exclusivamente, resolver o caso". E estava
a conversa nesse ponto quando um amigo meu, tímido e gago, que nunca consegue
ser ouvido por ninguém, sugeriu que quem devia ser consultada era a criança.
E é a ausência dessa consulta que me horrorizou na história do acrobata. Por
muito menos zangou-se um dia Jack London, numa tourada, porque os touros e cavalos
não eram ouvidos.


Mas
ninguém ouviu a reflexão de meu amigo. Como ninguém ouve a misteriosa linguagem
com que os embriões de dois a três meses declaram categoricamente que querem
viver. Como também cada dia menos se ouve a linguagem, já menos misteriosa,
das crianças de dois a três anos que são energicamente contrárias ao divórcio.
0 fato é esse: na ginástica, no aborto e no divórcio, há pessoas, personagens,
pessoas humanas, vivas, que estão envolvidas e que não são ouvidas.


“Ora,
direis, ouvir crianças .... certo perdeste o siso!", dirá algum leitor
que ainda se lembre dos esplendores de nosso parnaso. Como é possível ou­vir
um embrião? Como se pode ponderar o que diz uma criança de dois anos?


Digo-te
eu, leitor, que foste tu que perdeste o siso. E acrescento: o mundo está como
está e o nosso Brasil chegou onde sabemos que chegou, porque as pessoas (a começar
pelas da melhor sociedade) não têm mais ouvidos para ouvir e entender a linguagem
dos fetos. Fuzilam-se inocentes, aos milhões, sem remorsos, dada a circunstância
supersônica de seus protestos. Vou explicar-te, amigo, mais uma vez, como se
pode ouvir o que não fala, e consultar o que não tem a idade da razão. E muito
simples: ouvindo e consultando a lei que está gravada na natureza das coisas,
a lei que qualquer consciência desobstruída de chás e chapéus pode ouvir e consultar.
Uma boa lavadeira, uma honesta cozinheira, sem procurar psicólogos e sociólogos,
tem ouvidos para a voz da Inocência perfeita, para a voz de Deus gravada na
mais humilde das criaturas, para essa voz que condena o aborto, o divórcio,
e outras acrobacias feitas com carne de gente.


Por
falar em aborto, ouvi dizer que na Suíça tornou-se legal. Não sei detalhes.
Não sei em que circunstâncias, pelos quatros cantões da Suíça, tornou­-se admissível
matar a criança que teve a impertinência de brotar num ventre de moça. Imagino
que os suíços, que são reconhecidamente um povo ordeiro e asseado, e sobretudo
muito deferen­te com os turistas, tenham descoberto excelentes razões para assassinar
pequeninos suíços. Uma das razões que imagino seria a seguinte: mata-se a criança
excedente para o bem da pátria e da família. Um pouco como se queima o café,
para valorizá-lo. De uma senhora, que tem um Pontiac verde-claro, já ouvi dizer
que se justifica "não guardar" para manter o "padrão de vida".
Não se guarda a criança para guardar-se o Pontiac. Outra senhora, um pouco menos
desvairada, alega que fuzila a criança não nascida em benefício das outras já
nascidas.


Esses
argumentos chegaram aos ouvidos de meu amigo Álvaro Tavares que sugere uma emenda
para a teoria dessa senhora que mata um filho em benefício dos outros: admitido
que se deva matar um para benefício da família e da sociedade, devemos deixar
a criança nascer, e, mais tarde, num conselho de família, escolher a criança
mais feia, ou mais bronca na tabuada, ou mais birrenta na mesa, e então executá-la
para o maior bem da família e da pátria.


Concordo
inteiramente com essa emenda apresentada pelo meu amigo Álvaro Tavares. Em nome
da psicologia, da sociologia e da eugenia, acho precipitada a pena de morte
que recai sobre a "criança desconhecida”. O mundo, entre seus momentos
de prolongado desvario, já teve a idéia de honrar o soldado desconhecido; mas
nos seus piores momentos ainda não teve a idéia de fuzilar um criminoso desconhecido.
E muito menos um desconhecido inocente. Aprovo pois a emenda e aqui acrescento
o meu pesponto. Em lugar do conselho de família eu sugiro que consultem um psicotécnico.


Cf. Gustavo CORÇÃO, Dez Anos. Rio de Janeiro, AGIR, 1957.


  • Autor(es)

    Conferência do Dr. Gustavo Corção - PUCRGS ( Julho de 1953