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30/07/2003

Quando a Providência interfere

Conta-se que no reinado de Frederico Guilherme II houve, mais ou menos na metade do século XVII, misterioso assassínio de uma jovem. Dois soldados - Rafael e Alfredo, que namoraram a moça - ficaram suspeitos, porque, rivais, a pretendiam para casamento.

 

Presos, submetidos a longos interrogatórios e provados até a tortura, negaram peremptoriamente culpabilidade. Nenhuma confissão lhes foi arrancada. E juravam inocência. Era caso delicado para a Justiça.

 

O Juiz deliberou apresentar o problema a Frederico - suprema autoridade do Estado - que o solucionou, declarando:

 

“Ficou demonstrado que um dos soldados é o criminoso, mas não se conseguiu ainda a necessária confissão do culpado. Vamos, como recurso derradeiro, recorrer ao julgamento da sorte, para o qual pediremos a intervenção da divina Providência. Os dois soldados jogarão os dados. Aquele que perder a partida será condenado à morte como autor do crime. Não há outra solução”.

 

Solenemente foi a cerimônia presidida pelo próprio Frederico, acompanhado de sua corte. Os indigitados homicidas ficaram em frente de uma longa mesa, onde foi posto um copo de ébano, dourado, contendo dois dados de marfim.

 

Rafael ia jogar. Havia tumular silêncio na vasta assembléia. Corações batiam mais apressados. Ansiedade se estampava na maioria dos rostos, porque, como em todas as coisas, as opiniões estavam divididas. Até apostas se fizeram...

 

Atirou. Os dados rolaram sobre a mesa, marcando 12 pontos. Ouviu-se no vasto salão prolongado rumor. Sussurros de admiração. A maioria concluiu ser Rafael o inocente, pois que havia obtido o total máximo: 12 pontos. A multidão fitava agora o outro soldado, vendo nele um condenado à morte. É muito humano tirar conclusões precipitadas.

 

Chegou a vez de Alfredo. A cerimônia ficou mais impressionante e solene quando ele se ajoelhou e começou a orar, Entre as suas palavras ouviu-se: “Vós, Senhor, sabeis todas as coisas e conheceis que sou inocente”. Elevou-se calmamente e apanhou o copo dourado, sob um silêncio que comovia. Sua única oportunidade seria obter outros 12 pontos e empatar a partida. Uma força estranha parecia então haver se assenhoreado do jovem soldado no instante de jogar. Bateu o copo contra a mesa com tal vigor que um dos dados se partiu pelo meio: o que ficara intato marcava 6; uma das meias partes do outro também indicava 6 e a outra metade exibia 1. Somavam as três peças o total 13!

 

Demorado murmúrio encheu o recinto em que se processava o curioso julgamento. Foi manifesta a certeza de que só mesmo a Providência poderia interferir para salvar Alfredo. Presenciava-se um milagre.

 

Custou a volta do silêncio ao salão. Rafael acabou confessando a culpa e foi condenado. Frederico lavrou a sentença, concluindo-a com estas palavras:

 

“Deus falou!” Eis aí uma curiosa maneira de como foi a voz do Céu ouvida.

 


Autor(es)

H. P. de Castro Lôbo