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27/07/2003

Romance Sonâmbulo

Verde
que te quero verde

Verde vento. Verdes ramas.

O barco sobre o mar

E o cavalo na montanha.

Com a sombra na cintura,

Ela sonha em sua varanda,

Verde carne, pelo verde,

Com olhos de fria prata.

Verde que te quero verde.

Debaixo da lua cigana,

As coisas a estão mirando,

E ela não pode mir-a-las.



Verde que te quero verde.

Grandes estrelas prateadas,

Chegam com o breu da penumbra

Que abre o caminho da aurora.

A figueira esfrega seu vento

Com a lixa de seus ramos,

E o monte, gato ladrão,

Eriça seus pêlos ásperos.

Mas que vem lá ? E por onde ?

Ela segue em sua varanda,

Verde carne, pelo verde,

Sonhando com o mar amargo.

Compadre, quero trocar

Meu cavalo por sua casa,

Minha cela por seu espelho,

Minha faca por sua manta.

Compadre, venho sangrando,

Desde os portos de Cabra.

Se eu pudesse, mocinho,

Esse trato se fechava.

Mas eu já não sou eu,

Nem minha casa é minha casa.

Compadre, quero morrer

Decentemente em minha cama.

Apunhalado se pode ser,

Sob lençóis de linho.

Não vês a ferida que tenho

Do peito até a garganta ?

Trezentas rosas morenas

Trajava seu peito branco.

Teu sangue goteja e mancha

Ao redor da tua faixa.

Mas eu já não sou eu,

Nem minha casa é já minha casa.

Deixa-me subir ao menos

Até as altas varandas,

Deixa-me subir, deixa-me

Até as verdes varandas.

Avarandados do luar

Por onde retumba a água.



Já sobem os dois compadres

Até as altas varandas.

Deixando um rastro de sangue.

Deixando un rastro de lágrimas.

Tremiam nos telhados

Farolitos de folha de flandres.

Mil pandeiros de cristal,

Feriam a madrugada.



Verde que te quero verde,

Verde vento, verdes ramas.

Os dois compadres subiram.

O longo vento deixava

Na boca um raro gosto

De fel, de hortelã e de manjerona.

Compadre, onde está, diga-me?

Onde está tua menina amarga ?

Quantas vezes te esperou !

Quantas vezes te esperara,

Cara fresca, negro pelo,

Nesta verde varanda !



Sobre o rosto da cisterna

Se mexia a cigana.

Verde carne, pelo verde,

Com olhos de fria prata.

Um filete de lua

A segura sob a água.

A noite estava íntima

Como uma pequena praça.

Guardas civis bêbados

Na porta golpeavam.

Verde que te quero verde.

Verde vento. Verdes ramas.

O barco sobre o mar.

E o cavalo na montanha.
 


Autor(es)

Federico Garcia Lorca