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01/03/2004

Silêncio de dor

“A fé não costuma falhar”
Gilberto Gil

 

Nosso cancioneiro popular é rico de expressões sábias. Por exemplo, recordo um trecho que diz assim: “E o que prende demais minha atenção é uma pulga do jeito que é pequena dominar a bravura de um leão”.

Há momentos em nossa caminhada pela Terra que nos encontramos em situações semelhantes. Momentos em que nos sentimos totalmente suspensos, imóveis, impossibilitados de comunicar a dor que perpassa nossa alma, justamente por não encontrarmos ao nosso redor alguém que consiga co-dividir conosco um mesmo sentimento, uma mesma compreensão, uma mesma sensibilidade. E torna-se pior justamente quando aqueles amigos e amigas com os quais poderíamos ou deveríamos contar, são justamente esses que duvidam de nós, incapazes de perceber, com sincera amizade, a vida que habita nossos corações.

E a nossa dor transforma-se numa palavra inaudível, num palpitar silencioso, sacro, secreto...

Contemplando a história descobrimos uma personagem que é uma espécie de arquétipo - padrão exemplar – para todos aqueles que já vivenciaram situações semelhantes.

Jesus, ao ser assassinado numa cruz, entregue pelo seu povo à autoridade romana, no auge de sua dor, esbraveja-a enigmaticamente: “Meu Deus, por que me abandonaste?”. Mas ao seu lado, submersa em dor de igual intensidade, Maria, sua mãe, é o silêncio de dor. Aos pés da cruz, sofreu a dor maior em segredo, num silêncio tão fecundo que naquele instante Deus a tornou mãe de uma nova humanidade que surgia fecundada no sangue e no grito do seu filho.

Relendo algumas páginas do livro Ideal e Luz (Ed. Brasiliense e Cidade Nova), da autora Chiara Lubich, encontro uma reflexão que a mim parece-me encaixar-se muito bem neste contexto: “Duas coisas devo guardar em segredo: o amor e a dor; mas a luz deve ser doada”.

Maria, a desolada, silêncio de dor e de amor, é luz que pode iluminar os caminhos de todos aqueles, das mais variadas profissões de fé, que, em situações semelhantes, têm a enorme possibilidade de transformar os seus silêncios de dor em luz, nos seus ambientes do dia a dia, gerando, como Maria, uma nova humanidade que se aproxime da sensibilidade de consciência, que se despoje dos padrões da dominação e do autoritarismo, atenta aos sinais que a vida nos comunica a partir de situações simples, das pessoas simples, aprofundando e clarificando os laços da família humana, baseados na fraternidade e na partilha de todos os dons.

 


Autor(es)

Alexandre Aragão