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26/07/2018

A outra ponta da meada

Gustavo Corção

Disse muito bem sobre Gustavo Corção o Prof. Gladstone Chaves de Melo em sua memorável conferência no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio, em junho de 1984: "Esse robusto e singular escritor, apesar de presente sem desfalecimentos durante trinta e cinco anos na literatura e na cultura brasileira, não é hoje sequer lembrado, sequer referido, nem nos compêndios ou nos balanços literários, como se pode verificar, por exemplo, na História Concisa da Literatura Brasileira de Alfredo Bosi.

Corção escreveu estes grandes livros e outros, menores, de que não falei. Esteve presente na grande imprensa duas vezes por semana, durante trinta anos. Escreveu com agudíssima inteligência, com suculenta cultura e excelente língua... Sua obra caiu no vácuo. Praticamente ninguém tem coragem de falar nele, menos ainda citá-lo. Simplesmente não existiu (...). Não foi contestado: sobre ele pesou a cortina do silêncio, muito pior do que a contestação. Qual a razão desta estranhíssima coisa? Por que? Exatamente porque enfrentou o Príncipe deste mundo e seus numerosos e vários ministros".

Muito embora tenhamos já publicado vários trechos de obras do grande autor, traduzido em diversas línguas, é nosso firme propósito prosseguir, agora de maneira mais ordenada e constante para, inclusive, benefício dos leitores mais jovens que não tiveram a ventura de conhecer suas obras quando foram escritas.

Desse modo estaremos também acompanhando nossa colaboradora Marta Braga que, na Universidade de Navarro, na Espanha, trabalha - já adiantadamente - numa Tese de Doutorado sobre "Gustavo Corção - Um Brasileiro Universal" que tem merecido grande encorajamento e apreciação.

Os estimados leitores encontrarão em muitos dos próximos números transcrições de artigos e passagens de livros do insigne escritor e pensador que tivemos o privilégio de ter como mestre e amigo nos melhores anos de nossa juventude e no início de nossa vida de adulto.



A outra ponta da meada

Gustavo Corção

Foi Chesterton, creio que em Orthodoxy, quem disse, a propósito de alguns gran-des problemas do mundo, como por exemplo, o da exploração do homem pelo homem, que era preciso armá-lo de outro modo, e procurar a outra ponta da meada. É o que está acontecendo aqui e um pouco por toda parte com o problema da justiça social. Enquanto se obstinarem em procura-la no sistema econômico, no modo de possuir ou não possuir os bens materiais, no modo de produzir ou de incre-mentar a produtividade para promover maior fartura, pela livre empresa ou pelo regime de produção estatizada, não conseguirão realizar nem vislumbrar uma solução razoável. Não contestamos a existência de regimes, e até de estruturas econômicas melhores do que outras. Ao contrário, não temos feito outra coisa, há alguns anos, senão defender o regime democrático com seu indispensável princípio de subsidiaridade no domínio econômico. Esse regime e esse sistema é incomparavelmente superior ao que propõem os socialistas, por ser mais adequado à natureza a ao valor da pessoa humana. Ou melhor, por ser portador de maior riqueza espiritual. Mas por si mesmo esse regime e esse sistema não produzirão os benefícios esperados enquanto os homens não procurarem armar os problemas pela outra ponta da meada, isto é, pelo primado do espiritual e pela consideração da transcendente vocação de santidade, que nos foi dada, a todo nós, no mesmo ato de criação de nossos primeiros pais. Se não levarmos em conta a dupla transcendência do homem sobre o mundo, aquela de natureza, pela qual somos maiores do que todo o mundo físico, e aquela da ordem da graça, pela qual entramos na intimidade de Deus, não poderemos sequer entender os gemidos do mundo em suas formas mais elementares. E sairemos por aí desa-tinados, como esses moços católicos de esquerda, que vão procurar a solução do humano o mais longe possível do homem e de Deus.

É um grande equívoco atacar os fenômenos de avareza, do egoísmo, da cupidez, dando-lhes o nome de capitalismo, e identificando-o com um determinado país que se tornou mais rico do que os outros. O capitalismo, no sentido exato do termo, como fenômeno ligado aos eixos de uma civilização, passou. O que não passou, e o que não passará até o fim do mundo, é a ferocidade produzida por avidez de vida e de mundo. Poderão melhorar as sociedades, poderão diminuir as injustiças se conseguirmos, por cima dos telhados, trazer uma notícia que seja crida, uma boa nova que seja acolhida como norma de vida e que funcione como remédio contra a aspereza da alma humana. Somente pela espiritualização da sociedade pode diminuir aquela sinistra avidez geradora de tantos males. Fora disto o que existe é palavra vazia, perseguição de vento. Se os problemas humanos não são colocados em termos espirituais, em termos de amor de Deus, em termos de mandamentos, não há estrutura nem regime que possa diminuir a crueldade com que se avilta a vida e com que se magoa o próximo. Torna-se cômica a tentativa quando ela se dirige justamente para o lado onde cresce a espessura das coisas materiais e desvanecem-se os últimos lampejos dos valores espirituais. Posta cruamente tem termos de materialismo, a questão social chega ao auge da contradição e da derrisão. É o caso de sair perguntando, como o personagem angustiado de Roger Martin du Gard: - Au nom de quoi: Au nom de quoi? Sim, em nome de quê devo eu deixar de ser egoísta: Em nome de que amor, de que compromisso, de que mandamento, devo eu ajudar meu irmão, devo eu alegrar-me de estar no meio dos amigos comungando no pão e no vinho?

A mim me parece ofuscantemente claro que haverá sempre maior ferocidade, maior desamor, na medida em que a sociedade se desespiritualiza. Os mais bem dotados para a caça dos bens materiais pisarão os mais hesitantes, machucarão os distraídos, e terão o sempre, sob as espécies do dinheiro ou sob as espécies do poder, um domínio terrível sobre os desarmados. O mundo imperfeitamente democrático, e muito imperfeitamente cristão, que temos diante dos olhos é um espetáculo impressionante de esquecimento da verdadeira grandeza do homem. Mas não é por causa dos grupos econômicos, pelo amor de Deus! Esses grupos e sua malícia aparecem como efeitos, e não como causas. A causa é a falta de temor e de amor por Deus.

A causa é a materialização das próprias coisas espirituais. Tomemos por exemplo as encíclicas dos Papas. Qualquer documento deve ser lido com a principal preocupação de sua clave, de sua perspectiva formal, e não com a preocupação dividida pela matéria tratada e esquecida da unidade que a comanda. Assim é que, nas encíclicas de João XXIII, deixaram de ler - julgando talvez que aquilo fosse uma convenção do Vaticano - as colocações basilares dos princípios, e passaram a caracterizar o documento pelas beiradas. Ora, se é verdade que aqui ou ali os Papas têm entrado em matéria sociológica ou econômica com algumas sugestões, o que é indubitável é que os princípios a que estão submetidas e que constituem o cerne da doutrina. E esses giram sempre em torno das mesmas verdades. Sem a idéia da presença de Deus, sem a idéia do primado do espiritual, as encíclicas dos Papas são palha.

Uma especial consternação nos vem dos próprios meios católicos que passaram a pugnar ao lado dos materialistas sob a estrambólica alegação de que desejam as mesmas coisas. Como assim? Parece bem claro que não queremos as mesmas coisas, se tivermos o pequenino e elementar cuidado de ver as tais coisas pelo lado espiritual e não simplesmente pelo lado da matéria.

Como se já não bastassem os burgueses, glutões de vida e de mundo, os jovens católicos trazem sua contribuição de voracidade, de ferocidade, de inimizade. E eu creio que a falta deles é maior, parecendo-me que se aplica ao caso aquele evangelho da volta dos demônios à casa limpa e varrida. A esses, na desvairada suposição de ainda lerem o que escrevo, eu quereria gritar aquilo que Chesterton disse: procurem a outra ponta da meada! E o mesmo teria de dizer também aos militares democratas que se esforçam por consolidar a vitória sobre o comunismo: qualquer esforço de consolidação democrática será vão se não tivermos em mente, sempre, os transcendentes dados de nossa natureza e de nossa sorte. Sem isto, sem esse grito por cima dos telhados, a pregação democrática se perde ou se confunde, aqui ou ali, com a defesa de interesses egoísticos. É preciso espiritualizar o mundo, espiritualizar a civilização, livra-la do pesadelo do liberalismo e do socialismo, das filosofias da inimizade e da competição. É preciso começar, recomeçar tudo pela outra ponta da meada.

Pelo Bem Comum. Revista de Cultura Humanística, Rio, nº 140, Out. 1999, pp. 2/3.


Autor(es)

Gustavo Corção