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26/07/2018

A Esperança

Voltamos a apresentar trecho de autoria de Gustavo Corção*, este agora de seu livro As Fronteiras da Técnica:

"Quanto à nossa esperança; senhores, ela repousa nas promessas de Deus. Nos piores dias de nossa vida ela nos faz companhia. Nos sofrimentos mais agudos ou mais persistentes, nós temos dentro de nós a semente da paz. E ninguém, ninguém do mundo a pode arrancar de nós, senão nós mesmos, pelo pecado, quando ousamos preferir qualquer coisa, seja o que for, às promessas de Deus.

Daí o nosso temor. Daí o nosso corajoso e humilde temor: corajoso - porque sabemos que nós mesmos, ai de nós, podemos perde-lo.

Mas, com um pouco de abandono, com um pequeno movimento de amor, a esperança em nós vence o temor, conservando-o, elevando-o, agasalhando-o, como mãe moça que ternamente protege a fragilidade de seu filho.

Nossa esperança, senhores, vem de Deus mesmo. Não somos nós que a inventamos, que a deduzimos, que a fabricamos. Deus mesmo é que nô-la deposita na alma, com as outras virtudes teologais, a fé e a caridade, que é a maior. E nós sabemos, agora, que nosso destino não é a força cega que empurrava o rei Édipo para o parricídio e para o incesto. Nós sabemos que as portas de nossos destinos abriram-se; sabemos que o Filho de Deus deitou-se sobre o abismo de dor e morte para que nós, um por um, pudéssemos passar por cima de seu corpo. Nós sabemos que uma festa está sendo preparada para nós, desde toda a eternidade e, quando apuramos os ouvidos, conseguimos distinguir os ruídos desses preparativos...

Quando éramos pequeninos, nas vésperas dos aniversários, ou das noites de Natal, ficávamos às vezes acordados na cama, nervosos, impacientes; e trocávamos olhares compreensivos com nossos irmãos, noite a dentro, ouvindo os passos, as vozes, os ruídos novos de objetos novos, e trocávamos olhares cheios de suposições, ouvindo a surda azáfama dos pais que povoavam nossa noite de mistérios e esperanças.

Ora, nossa esperança de hoje, essa esperança teologal, parece?se muito com aquela esperança filial de antigamente. Nós sabemos, com a certeza da fé, que há uma festa preparada para nós, e sabemos, desde já, que os preparativos escondidos não nos estão inteiramente escondidos. Ouvimos sinos que batem, ouvimos passos em procissão, ouvimos como um rio de amor, um murmúrio de orações ? e sabemos que é aqui mesmo, aqui em baixo, aqui e agora, entre velas, cálices e pães, que o Cristo Jesus e sua mãe preparam para nós as garantias da ressurreição...

Senhores,

foi nesse ponto, justamente quando Paulo falou na ressurreição, que os seus sábios e civilizados ouvintes do areópago mexeram-se nos lugares e se entre-olharam com sinais de impaciência. Foi neste ponto que os chefes da assembléia se levantaram e, chegando ao palrador, disseram com cortesia: "Está bem... está bem... na próxima vez tu nos explicará isto melhor...; tu nos dirás o resto..."

Dispersou?se então a assembléia. Saíram todos, rindo?se uns, abanando a cabeça outros. Os filósofos, com um altivo trejeito da capa trançada ao ombro, passaram pelo gesticulante asiático, sem o ver, com o sobranceiro olhar perdido no mundo das essências.

Paulo, abandonado e acabrunhado, sentindo que pregara em vão, voltava para a casa que o hospedara; e ia triste e magoado. Irritava?o sobretudo a soberba daquela vã filosofia, que ele fustigará mais tarde, escrevendo aos coríntios, e muito mais tarde, despedindo?se de Timóteo ... Ele prefere ser louco, a ser como aqueles moderados gregos; prefere ser um insensato a ser como aqueles sábios; prefere ser um aborto, prefere ser a varredura do mundo, a ser como aqueles orgulhosos... Ia assim Paulo, ruminando a sua derrota, quando, de repente, entre os ruídos da praça, ouviu passos atrás de si. Passos diferentes. Passos de quem acompanha. Ou de quem persegue. Ou de quem busca. Passos conhecidos de Paulo, o apóstolo de ouvido fino. Entre mil outros, no bulício, e no vozerio, seus ouvidos de profissional, de conhecedor, sabiam distinguir esses primeiros passos de quem se põe a correr no encalço de Cristo. Deteve?se. Alguém tocou?lhe no braço direito. Ia voltar?se: sentiu-se travado no braço esquerdo. Era Dionísios, e Dâmaris. Um homem e uma mulher. Dois que vinham saber o resto...

Senhores,

posso estar enganado. Posso estar incorrendo num ridículo mortal. Mas arrisco?me a dizer que Dionísios e Dâmaris estão aqui nesta sala, Creio?o, quase como num artigo de Fé. Creio?o, porque onde vai a palavra de Deus carregada por um de nós, o sopro de Deus toma a dianteira, e vem preparar os corações; porque Ele bem conhece a pobreza de nossas palavras, e a secura de nossos corações.

Só me resta dizer, a esse Dionísios, a essa Dâmaris que se apressem, que não percam tempo, que venham escutar conosco os ruídos promissores da festa que o Cristo e sua Esposa preparam para nós, e receber desde já, aqui e agora, a semente da ressurreição.

E nós, que somos servos dos servos de Deus, aqui estamos, para ajudar, para indicar o caminho, para contar o resto da história: onde quiserem e quando quiserem; de dia, de noite, na rua, no café, em casa, quando e onde queiram, de todo o coração.

 



* GUSTAVO CORÇÃO, Fronteiras da Técnica, Rio Agir.


Autor(es)

Gustavo Corção