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26/07/2018

Caridade e Caridade

O fato de sermos católicos nos deixa à mercê de certo gênero de tolice: todos se jul-gam autorizados a nos lançar em rosto nossa falta de caridade. Por carta ou por telegrama acusam?nos, sim, acusam?nos de falta de caridade por causa dos artigos indignados que escrevemos no dia em que viemos a saber que o palácio do Catete era um abrigo de mal-feitores. Um desses missivistas ficou tão perturbado com nossa falta de caridade que não conseguiu sopitar sua indignação. Provou assim que ainda é capaz de um assomo; mas provou concomitantemente que preferem os capangas aos escritores que os denunciam. A maioria dos correspondentes, sem esses resquícios de vigor ou sem tão flagrante incoerência, permanecem no adocicado estilo com que julgam exprimir a quinta?essência dos evangelhos. Mas apesar das blandícias não deixam de pronunciar a acusação capital.

A conclusão que tiro dessas cartas é que a caridade de seus signatários tem uma sin-gular compleição. Para começar, é indiferente à justiça. Eu diria que é algo de maleável, flexível, untuoso, que cheira a tabaco turco e sabe a alcaçuz. Para começar, é indiferente à justiça. Em nome dela não devemos denunciar os malfeitores. Em nome dela não devemos despedir o funcionário relapso e incompetente. Perdoa?se o chantagista porque é moço. O falsário porque é velho. O assassino, coitado, porque tem duas filhinhas. Deixam?se soltos os ladrões, a começar, evidentemente, porque aqueles ladrões de fundo católico que dão uma parte, embora pequena ? coitados! ? para associações de caridade (dessa caridade!) ou para um pobre vigário em apuros. Indiferente à justiça, essa vaselina das almas será soberanamente alheia à política, ao objetivo próprio da política, ao bem comum.

Quando um desses virtuosos, que em boa hora me excluem de sua comunhão, se candidata a qualquer coisa, diz que é para fazer o apostolado, ou para fazer donativos. Despreza o objeto próprio da política em nome dessa esquisita virtude que já desprezou a justiça em suas formas mais elementares.

Como serão os sinos nas igrejas dessa seita? Eu os imagino forrados e suavíssimos. Como será o fogo de seus círios? Eu suponho que seja morno. Ou tépido.

Mas há ainda, nessa maciez, uma coisa que me espanta. Se a maciez fosse apenas macia eu ainda poderia classificá?la entre os graus de consistência como se faz em minera-logia. O estilo deles seria riscável à unha. Mas o que me espanta é que essa suavidade fun-cione às avessas e só encontre uns restos de vigor para reclamar de mim que escrevo, e nunca dos que roubam e matam.

Ah! essa caridade assim definida, eu a vomito! A que aprendi, e tão mal sirvo, soa como bronze e queima como fogo. É paciente, sem dúvida, conforme diz o apóstolo, mas é paciente quando está em jogo o seu próprio interesse, e impetuosa, terrível, colérica, quando vê a injustiça triunfar, quando vê nos postos de mando os que deviam estar na ca-deia, quando vê o bem comum mal servido, quando vê o pobre humilhado, o inocente feri-do, e sobretudo, sobretudo! quando vê o culpado engrandecido. A mais alta virtude é hie-rarquizada, é ampla, poderosa, e só é o que é se tem capacidade de império sobre todas as virtudes. Se comanda a justiça, se regula a força, se dá medida à temperança, Só é o que é, se tem coerência, e consistência, e conseqüência; se agora é branda como um arrulho, e logo após formidável como um trovão.

A caridade que eu aprendi não tolera apenas a indignação justa; ela a exige! A cari-dade que em boa hora me ensinaram vivifica e anima todas as forças da alma e nada tem a ver com o pieguismo sentimental que absolve os criminosos no júri, e que tolera o des-vairado empreguismo que infelicita o nosso país.

Alguém me perguntou se não me senti um pouco responsável ? ou um pouco culpado ? quando recebi a notícia do suicídio de Getúlio Vargas. Não, não me senti arrependido de nada. Os outros sentimentos que me acometeram no momento em que aquela alma com-parecia diante de Deus não são da conta de ninguém, e reservo?me o direito de não publi-cá?los. Mas arrependimento só tive de não ter lutado bastante, de não ter sido forte, atu-ante, e indignado em conformidade com as terríveis exigências da justiça que é serva da caridade. Disse atrás que sirvo mal o primeiro dos mandamentos. Disse?o com sinceridade, e não por convenção estilística que falsifica a humildade. Sirvo mal, sem dúvida, mas aqui onde escrevo e acolá onde ensino, eu dou o melhor de mim mesmo, e Deus sabe que não minto. E convido meus caridosos missivistas a esse incômodo serviço em que não se ganha dinheiro e até, como ficou provado, se arrisca a vida.

É preciso lembrar que o direito de escrever o que escrevemos nos foi dado por quase vinte anos de luta. Quando a polícia de Vargas ditador, comandada por Felinto, espancava e torturava comunistas, e os rapazes faziam rodízio para o espancamento, foram os nossos que se levantaram em defesa dos torturados. Foi Sobral Pinto que tomou a defesa de Pres-tes. É claro que por isso fomos acusados de simpatia com o credo de Moscou. Mas é clarís-simo ? e disso só duvidará quem não conhece os senhores comunistas ? que será sobre nós e não sobre seus carrascos que cairá a fúria soviética se algum dia alcançarem o poder. Fe-linto Müller, ou algum dos Vargas teria cargos, e Sobral teria o pescoço cortado. Nunca ti-vemos nenhuma simpatia pelo sr. Luís Carlos Prestes; e se ficasse provado que foi ele o mandante do assassinato de Elza quereríamos vê?lo na cadeia, porque esse é o lugar apro-priado para mandantes de homicídios. Mas o envio da esposa de Prestes, da cadeia de Fe-linto para o campo de concentração de Himler, o que vale dizer de Vargas para Hitler, foi um fato que nos revoltou. Como nos revoltou a tortura de Harry Berger.

Agora são os comunistas que falam o idioma do sentimentalismo e que só faltam in-vocar a adocicada caridade de nossos missivistas. Recentemente, por causa do ligeiro in-cômodo pedido pelos oficiais do Galeão à d. Darcy Vargas ? que afinal foi ouvida em sua própria residência e durante poucos minutos ? os oradores que só vêem o mal em Guate-mala ou Wall Street acharam de glosar o respeito e a piedade pela viuvez. Viuvez por viu-vez eu me lembro da moça cujo marido foi assassinado há pouco mais de mês. Depoente por depoente eu lembro a viúva de Virgílio Melo Franco, também assassinado, e que supor-tou um interrogatório de cinco horas.

A nossa caridade, ou a caridade como a compreendemos, tem hierarquia e tem me-mória. Seu objeto próprio, como ensina qualquer catecismo, é o amor sobrenatural de Deus e do próximo, e a sua refração é, e só pode ser, a do fervor e do vigor no desempenho de nossos deveres de estado. É pela força daquele amor divino que desejamos servir, que de-sejamos a ordem, que desejamos um Prefeito que empregue menos parentes, que sonha-mos um palácio presidencial desinfetado, e que lutaremos por uma ordem social mais jus-ta.

Um grande Papa, a propósito desse problema da ordem social, apostrofou severa-mente aqueles que querem se servir do nome da caridade para acobertar as injustiças. Procuramos seguir essa lição.

Agosto, 1954

In: Dez Anos. Crônicas. Rio de Janeiro, AGIR, 1957, pp.217/222.


Autor(es)

Gustavo Corção