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26/07/2018

O dom da ciência e lições de abismo

Conferência do Dr. Gustavo Corção - PUCRGS ( Julho de 1953 )

(Colaboração do Prof. Dr. Jacy de Souza Mendonça, da PUC-S. Paulo)


Meus caros amigos.

Aqui estou agora, pela última vez, neste curto tempo em que estive entre tantos amigos que conquistei.
Eu teria preferido trocar a ordem destas duas conferências; mas na nossa organização preferimos fazer aquela do Cântico dos Cânticos hoje à tarde, e deixar esta para agora. É pena, porque nesta leitura que lhes vou fazer, sinto-me um pouco embaraçado. Não é cômodo falar de si mesmo, daquilo que a gente fez, de um livro, enfim... 
Não proponho, propriamente, explicar como é que eu fiz, como por exemplo, um grande poeta, um pouco por mistificação, Edgar Poe, explicou o seu grande poema, o Corvo, demonstrando, pondo diante dos olhos do leitor as engrenagens de sua alma de poeta. Mais tarde, parece que ficou comprovado por uma correspondência com Mallarmé, que teria sido uma mistificação do poeta. É difícil explicar, mesmo porque a alma do artista não tem engrenagens, tem sangue, tem vibração mas não pode ser desmontada em partes, não pode ser explicada.
Por outro lado, também, não me proponho a fazer a exegese, explicação, enfim, do que pretendia o meu personagem quase único. Mesmo porque a certa altura eu mesmo já não tinha o domínio completo sobre ele. Ele ganhou sua vida própria, tem seu mistério, sei lá, ...e, cá entre nós, até seria uma incompreensão entre pai e filho: não entendo bem o meu personagem.
Evidentemente, o processo de criação, da criação de um personagem, da criação de uma ficção, se faz à custa de uma clivagem do próprio coração, de uma divisão da própria alma. É dentro de nós mesmos que nós achamos o mundo, de heróis, de monstros e, com esse material, com a experiência profunda que nós mesmos encontramos, que se pode construir um romance, uma ficção; pôr de pé, andando, com vida própria, um personagem. Mas depois, não sei bem explicar como, ele ganha autonomia, vida própria, e se põe até um pouco para a conquista desta vida própria, com certa violência, em oposição com seu próprio criador. De modo que há entre nós dois uma certa incompreensão, uma certa dificuldade. 
Mas tentarei abordar o problema, não na sua vida psicológica, na sua vida íntima, nem nos processos propriamente da composição do livro, mas um problema, um problema filosófico vivido; um problema existencial, como se diz tanto hoje. Qual era o centro deste conflito em que meu personagem se agitava? Por que ele sentia aquele vento frio? Como explicar com termos de nossa doutrina, com termos um pouco filosóficos a posição de meu personagem?
Esse será um pouco e de um modo irritante, vos digo, a perspectiva da nossa conversa. Mas antes de entrarmos neste assunto, eu queria lhes ler, com risco de quebrar um pouco a unidade de nosso trabalho de hoje, eu queria ler um discurso de agradecimento - que não foi publicado, o quanto eu sabia, pelo menos - e que foi pronunciado em condições singulares, às quais eu não estou muito habituado. É o prêmio que eu ganho na vida, de qualquer coisa, desde o colégio primário... De modo que a circunstância era inteiramente nova para mim, sobretudo novíssima, porque o ambiente em que me achei, Palácio do Itamarati, ao lado de dois ministros de Estado... Acontece que eu continuo sendo escritor, e eles já não são mais ministros...
De onde se vê que aquele poderio, aquele prestígio deles é um bem mais leve, mais quebradiço do que, afinal de contas, e bom nome de um pobre escritor.
Então, esse discurso tem, por assim dizer, o motivo de nossa conversa de hoje. Falei de leve no livro. Depois, então, vamos desenvolver a idéia aqui contida. Peço, então, que não estranhem o tom desta leitura que vou fazer, que estava dirigida, digamos, a um outro auditório. Mas, na sua maior parte, é independente do auditório e terá algum valor de esclarecimento.
Depois de algumas formas de agradecimento inicial, que eu procurei tornar, dentro do possível, enfim, pouco convencionais, agradecendo, realmente, o prêmio recebido, ao Instituto que me dava o prêmio, recebi pela mão de uma pessoa, o Prof. Lourenço Filho, a quem por uma causalidade eu tinha, insistentemente, maltratado em artigos e em livro, de modo que ele mesmo viveu o prêmio. E o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, que estava ali representado pelo Prof. Lourenço Filho, merecia em primeiro lugar o meu agradecimento. Começo a dizer assim:
"O prêmio de uma instituição, como IBECC, tem um valor especial por causa da estima que tenho por esse tipo de instituição, que procura, no conturbado mundo moderno, um denominador comum, um vínculo, um ideal de unificação que supere as divisões geográficas, que atenue as trágicas separações da retalhada terra dos homens". 
Vivemos num mundo dividido. Se de um lado progride a técnica de comunicação dos corpos, de outro lado parece que se agrava a incomunicabilidade dos corações. Vivemos num mundo dividido, não pelas fronteiras físicas e pelos regimes. Dentro da mesma área, que nos mapas é monocromática, existem todos os matizes da sensatez e da loucura. Dentro da mesma unidade política, dos mesmos partidos, das mesmas famílias, existe o divisionismo. Não apenas a boa diferenciação orgânica de que é feita a sociedade, mas o divisionismo profundo, mórbido, que envenena a organicidade e que conspira contra a natureza das coisas. Os homens não se entendem sobre o que de mais perto lhes concerne. As palavras mais específicas não possuem nas mentes as mesmas ressonâncias e, freqüentemente, geram idéias opostas e, conseguintemente, cômicos ou trágicos equívocos. 
Falei há pouco de bem comum. Ora, se aqui se interrompesse esse discurso de gratidão e ousasse a impertinência de um inquérito, receio muito que o resultado viesse destoar da amenidade desta reunião. Os homens não se entendem. Alguns visionários, interpretando apenas materialmente a palavra do Livro Santo, relativa à confusão das línguas em Babel, imaginarão um mundo unificado pela unificação dos idiomas. Inventaram o Esperanto, o Volapuk, o Ido e não sei quantos outros idiomas aspirantes à universalidade. O pluralismo dessas tentativas, aliás, já deixa entrever a possibilidade de novo conflito em torno desses novos ramos de oliveira. 
Além disso, nós bem sabemos que melhor se briga, quanto melhor se fala. Direi até que este critério poderia fomentar um teste no aprendizado das línguas. Um brasileiro e uma chinesa podem se amar sem intérpretes. Porque o amor, desde a carícia dos corpos, até o entendimento profundo, alimenta-se de poucas palavras, de muito silêncio. A conversação turística ou climatérica exige um pouco mais: doze frases feitas e cinquenta vocábulos. Mas a briga, essa exige a loquacidade e a desenvoltura. Por mim foi preciso ouvir um dia uma caudalosa descompostura duma concièrge de Paris para descobrir que o meu francês ainda era assaz imperfeito. Por ai se vê que não está no léxico o segredo da paz e que não será a golpes de dicionário que se conseguirá pacificar o turbulento coração do homem.
O desentendimento é, evidentemente, anterior e mais profundo que os instrumentos verbais. É por isso que eu diria que as instituições que procuram, em chinês ou em português, o denominador comum da ciência e da cultura, estão muito mais próximas da direta via do que os inventores de línguas. O homem de nosso tempo, vítima das guerras humilhantes, em que a ciência veio a servir à estupidez, e de experiências políticas ainda mais humilhantes, em que a técnica se pôe a serviço da impostura, o homem do séc. XX chegou a extrema miséria. Já não é de Deus e dos homens que, em nome da divinizada razão, ele descrê; é agora da própria razão, do próprio homem e das coisas triviais que lhe dizem respeito.
Há, ainda, pessoas que se espantam de ver um professor de eletrônica acreditar em Deus e nos anjos. Mas, eu confesso que ainda mais me espanta quando encontro pessoas que, solidamente, acreditam em manteiga, em instrução pública e serviços municipais. E espanto-me agradavelmente, - ( o Ministro de Educação estava a meu lado...) - espanto-me agradavelmente, porque também sou desses que se obstinam em crer na possibilidade de um dia, não sei quando, tornar a ver aquelas realidades perdidas. O homem descrê do homem, de sua humanidade, de tudo que corcene à sua diferença específica. O paganismo, que ainda no século passado incensava Minerva, a Deusa de olhos claros, sacrifica hoje nos altares à Diana dos efésios. O instintivo toma neste século o lugar de honra do racional. E nós vemos crescer, dia a dia, essa onda de irracionalismo que já submerge a moral. E o psicólogo dos porãos da humanidade, o domesticador das forças instintivas, é o grande mágico dos tempos modernos. Receio que a próxima forma de totalitarismo político deixe o econômico e se firme no psicológico, como na história de Simão Bacamarte, de Machado de Assis.
Ora, no meio deste desconcerto e dos gritantes desentendimentos internacionais, há instituições que procuram reafirmar, em tempo e contratempo, que o homem é racional, que o homem é vertical, que o homem é humano. E, entre estas instituições, numa vanguarda operosa está este IBECC e a mais universal Unesco. Posso, pois, alegrar-me, sem constrangimento, com o prêmio que daí me veio, e posso agradecer com veracidade e sem as concessões às boas maneiras, que freqüentemente são o disfarce da mentira.
Mas, poderei eu dizer, dentro da mesma estrita veracidade, que a orientação destas instituições parece suficiente, plenamente, para a recuperação de um humanismo integral? Poderei, nos escorregões da eloqüência, a ONU ou a UNESCO bastam e contêm todas as dimensões necessárias para a conquista da humanidade, que seus prefixos anunciam? A direção geral, os princípios básicos, com poucas restrições, são generosos e verdadeiros. Mas seria um erro teológico pretender a conquista da unidade e da concórdia com instituições culturais.
Necessários e precisíssimos, eles, os institutos culturais, não são suficientes. Não basta cultivar o conhecimento para retificar a conduta. Não basta adornar as inteligências para cativar as vontades e subjugar as sensibilidades. Este erro filosófico, que chamaríamos de socratismo ou de culturalismo, poderia prejudicar gravemente o bom funcionamento destas instituições. Seria um lástima se os seus dirigentes se esquecessem que o mundo sofre da dolência das vontades, não só da inteligência, e que a humanidade do nosso tempo está doente do coração. Em outras palavras, é na integridade moral, na redescoberta da dignidade do homem que o mundo encontrará a pista perdida.
Veja o Sr. Presidente - (eu estou sentido o ridículo desta leitura...que parece uma sessão espírita, porque ele não está aqui...(risos) . Enfim... Disse também que seria um erro teológico afirmar que a cultura basta para salvar o mundo. Não, não basta. A história humana é realmente supra-humana. Estamos engajados com fenômenos que passam a nossa própria medida. E, por mais que os ignoremos ou os esqueçamos, eles estão em torno de nós com o ar, por cima de nós com o céu. Em última e definitiva instância, só o espírito pode vencer a confusão das línguas e dos espíritos; só um espírito pode realizar na plenitude dos tempos a unificação, o espírito de unidade e de universalidade que nesta semana de Petencostes repete ao mundo a sua lição de luz e de amor.
Atrevo-me, agora, a dizer-vos algumas palavras sobre os sentimentos que me acudiram ao receber a notícia do prêmio. O primeiro foi um susto, que logo se dissipou, quando me informaram de que claro quadrante vinha o vento. Subsistiram outros, que poderiam exprimir-se com essa fórmula mista: surpresa, arrependimento e alívio.
Sim, surpresa. O pobre artista, por mais que falem de suas vaidades e jactâncias, é sempre um inseguro, um mísero; e, às vezes sabe o que faz, mas quase sempre ignora o que fez. Um mendigo que precisa, mais do que ninguém, pancadinhas no ombro, um sequioso de confirmação, um faminto de elogios; só não precisa de elogios o homem muito santo ou muito orgulhoso. O primeiro porque tem a alma repleta do elogio da graça; o segundo porque carrega em si mesmo a sua claque, a sua bancada e a sua maioria.
Mas o artista do vulgar meio termo, que anda na montanha russa da vida, ora mais alto, ora mais baixo, sem atingir a santidade e sem endurecer de suficiências, este precisa de palmas, de sinais que o confirmem, de mãos que o salvem do oceano da perplexidade. Creio que já contei, não me lembro aonde, a história do ator dramático que envelhecia no esquecimento, depois de uma gloriosa epopéia pelos palcos do mundo. Contou-me um austríaco: a história passou-se em Viena, num daqueles saudosos cafés que ainda subsistiam com suas valsas até o dia que lá chegaram as divisões da ocupação nazistas. Neste café, o velho ator esquecido, o herói de amores famosos, envelhecia a representar variedades, a que ninguém mais dava atenção. Ora uma noite, com admiração geral, o velho ator deixa de lado os guizos de seu ofício, e põe-se a clamar como um profeta contra o regime nazista. A sala se eletriza, os consumidores se põem de pé. Ao fim do discurso estrugem as palmas. Logo depois chega a polícia e leva o nosso orador. Interrogado pelos nazistas, o velho confessa: eu não tenho nada contra o regime; mas eu não queria morrer sem ouvir, ainda uma vez, aquele barulhinho das palmas...Deixaram-no em paz. Os nazistas compreenderam, a seu modo, este gosto pelas palmas. Porque convém notar que esse fenômeno ás vezes transborda os limites do palco, e ganha os governantes. Mas, é melhor deixar de lado este espeto do problema, que viria anuviar a nossa sessão de hoje.
Voltemos á pobreza essencial do artista. O cientista é, de certo modo, independente dos louros. Gostará de prêmios, quem não gosta? Mas não depende deles, não depende de palmas. Tem o brilho no resultado, na evidência do resultado a sua maior recompensa. O técnico vê sua obra montada e posta a serviço dos homens. Mas o pobre homem que se pendura pelos nervos, e que se aventurou a dizer o indivisível, esse, depois de ter dado à sua obra todo o fervor, toda a paixão, depois de ser transformado um pedaço quente de vida em papel, em resmas, um enorme pedaço de vida cheio de dias festivos e de mansos dias comuns, esse, diante da lívida e chata substância em que inverteu seus dias, diante da palha, sentirá um enorme desamparo.
Quando levantou os olhos do papel, as filhas tinham crescido. As rosas meninas tinham dançado diante de sua desatenção. Quem lhe devolverá os gestos que não viu, os sorrisos que perdeu? Ei-lo em cima da mesa, o livro, o papel, o grosso parêntesis aberto na vida. E agora? Vai correr o mundo a paixão escondida. Quem lhe sentirá a palpitação? Um dia, eu vi na rua um desconhecido que passava sobraçando o meu livro. Passou, foi-se embora, levando a minha alma debaixo do braço. Mas será que ele levava? Ou melhor, teria eu efetivamente imantado de amor aquele tijolo de papel? Como o poderei saber se não consigo separar o que fiz daquilo que sonhei? Ah, quem me dirá? Quem, entre as hierarquias de anjos, dirá sim ou não? Se eu consegui inverter ou extroverter, dar forma, realizar em palavras, em frases, em páginas, em capítulos, tudo aquilo que me trouxe dias e dias de exílio, longe, numa ilha perdida, na doce e melancólica presença da defunta... enquanto o tempo real passava ao largo dos meus amores de papel? Triste coisa, amigos, triste coisa. Já pensaram no que acontece em volta de escritor debruçado? Já computaram o que ele perde? Triste coisa. No meu caso pesava-me uma preocupação: imaginar um romance interior, uma experiência viva, transportada para outra carne, em outra inteligência. Imaginar a história de uma alma que procura a inteireza das coisas e só encontra na vida, nos amores, nas rosas e no sangue a composição do não ser, o conúbio da vida e da morte, e que então sente na pele o frio e a aspereza das insuficiências e da porosidade do ser.
Os místicos falam de um dom da ciência. Dom infuso, sobrenatural, diretamente ligado à pedagogia do Espírito Santo e pelo qual a alma aprende a valorizar as promessas de Deus em contraste com as esponjosas ou evanescentes promessas das criaturas. E é nesta desolação, nessa aridez do Eclesiastes que muitas almas cantarinas, como a de Machado e a de Carlos Drumond, encontram o melhor tom, o riso triste e encolhido, o timbre do exilado que pendurou a harpa no salgueiro, com saudades de Sião. Foi esse o meu sonho. Uma alma, um personagem calcinado, por avidez de autenticidade, o homem empurrado pelo dom da ciência, sacudido pelo vento do Eclesiastes. E foi assim que eu vi passar um dia carregando amores falsos e sangue falso à procura de rubi verdadeiro, alto, magro, olhar perdido, com uma sombra de sorriso no rosto triste, andar incerto, braços soltos e frouxos em imensa disponibilidade, foi assim que eu vi passar no meu sonho, com seus sonhos dentro do meu sonho. 
Previa objeções. A vida mais interior e mais metafísica do que dramática, não seria vida e, por conseguinte, os seus lances não bastariam para formar o romance. Foi pois com surpresa, com gratíssima surpresa, que recebi dos leitores, dos críticos, depois desta instituição, os sinais de compreensão e de apoio. Fiquei espantado. Meu natural pendor de pessimista sofria um agradável desmentido. E, agora essa sessão solene, em que defronto personagens importantes, que sempre vira de longe e que quase me pareciam estes de razão, esta jubilosa e inesperada berlinda em que me encontro, acrescenta à surpresa uma pitada de remorso.
Permitam que me explique melhor. Tenho ímpetos não só de agradecer, mas de pedir desculpas a todo mundo. Embora talvez não pareça, sou, por inclinação natural muito agradecido, muito dependente e quase poderia dizer - como a grande Teresa D'Ávila - sou tão agradecido que por uma sardinha me comprariam. Ora, nessa sessão solene, agraciam-me com avultado número de sardinhas. E então? A tal inclinação natural que tenho nos nervos, me dá ímpetos de pedir desculpas e fazer retrações, de desdizer o que disse e no que porventura desagrade, desde que iniciei no meio do caminho da vida o novo ofício de escritor.
Dou-lhes um exemplo de retratação. Tempos atrás publiquei um artigo amargo a propósito de uma entrevista concedida pelo Sr. Jorge Amado, no Jornal de Letras. Naquela entrevista, depois de dividir o mundo entre o nosso lado e o feérico lado de lá, atrás da cortina de ferro, e querendo documentar a paradisíaca situação dos escritores no lado de lá, escritores comunista, o festejado romancista pronunciou esta frase que me deixou roído de inveja: "Nunca vi, por exemplo, um escritor chinês sem automóvel." E então, com despeito por esse ingrato ocidente capitalista, eu escrevi o artigo que terminava com essas amargas palavras: "Ó leitor inspirado, ó moços que por ai andais a rabiscar pensamentos febris neste desvalorizado idioma, que mal nos paga os cigarros, eia!, busquemos no arroz e no chá uma inspiração menos ingrata. Vamos, soou a hora de nossa emancipação. Rumo ao oriente! Vamos à China." "É verdade", acrescentava eu, "que ainda mantenho a custo um automóvel adquirido com outro ofício menos oriental, mas já se arma para mim um insolúvel problema de conserto de meu pobre veículo em decomposição. E, o problema tornou-se difícil porque em certo ponto da vida mudei de ofício, trocando a técnica pela degradada literatura deste lado de cá. E ia eu correr à procura de uma gramática chinesa, quando se me esfriou o entusiasmo na leitura da continuação da entrevista. Fiquei sabendo, pelo meu entrevistado, que na Rússia, por conseguinte na China, não se lê Dostoiewski. Lá, no lado de lá, os escritores que têm o peculiar relevo do Sr. Jorge Amado, andam de automóvel; mas Dostoiewski andaria a pé. E olhe lá... Não, já não me seduz aquele Eldorado das letras. Embora não pretenda, de longe, comparar-me ao autor de Irmãos Karamázov, ainda me apego a certos requintes burgueses, como o de não pedir licença ao governo para pensar. Fico aqui mesmo, neste triste país oprimido pelo capital colonizador, onde um escritor não pode comprar ou não pode manter um automóvel. Abro mão da mirífica perspectiva, resigno à perambulação, renuncio ao júbilo de ver um livro meu escrito em albanês ou mongol, mas um ideal, ao menos, eu conservo, uma esperança, ao menos, eu mantenho, o ideal, a esperança, de nunca, jamais, em tempo algum, de minha ocidental carreira literária, dar a um jornal qualquer uma entrevista com aquele sabor e aquele relevo que o festejado escritor internacional soube imprimir. Antes disso prefiro dar volta do mundo a pé. Não, decididamente não me seduz esse negócio da China...". 
Ora, como os senhores estão vendo, nós já podemos nos orgulhar do hemisfério ocidental e do trópico de Capricórnio, porque o meu automóvel pode ser consertado, esmerilhado, calçado e pintado, sem que ninguém me obrigue a uma autocrítica, sem que ninguém me exija retratações, sem que nenhum poder me force a desviar-me um décimo de segundo a linha de meu pensamento. E, basta-me esta pequena diferença para que eu possa proclamar a minha infinita preferência pelo lado de cá, pelo lado da ONU, da UNESCO e do IBECC, pelo lado do Brasil. (Palmas).
Agora umas considerações sobre o - entrando mais no assunto - e não prolongo demais porque sei que todos já estão no limite da saturação... e eu já estou um pouco cansado.
De passagem, observaram que eu apresentei o meu personagem como um personagem empurrado pelo dom da Ciência, sacudido pelo vento do Eclesiastes. Permito-me uma pequena dissertação em torno deste problema espiritual, deste problema de Teologia, a respeito do dom da Ciência.
Antes de mais nada, direi que o dom da Ciência, no sentido próprio, é um dom infuso, sobrenatural, faz parte do organismo sobrenatural da graça. A alma, dotada da graça santificante, tem o organismo sobrenatural das virtudes e dos dons: as virtudes teologais, as virtudes morais infusas e os sete dons do Espírito Santo. Cada uma dessas virtudes e desses dons, cada um desses hábitos, enfim, é especificado pelo seu objeto. Cada um deles tem, digamos, um modo próprio de dirigir o homem para a sua salvação e para a vida eterna, porque esta é a direção geral de todas as forças do organismo sobrenatural do homem, das virtudes e dos dons derivados do estado de graça.
Convém definir agora, um pouquinho melhor, o dom da Ciência. Nos sete dons costuma-se estabelecer um paralelo entre cada um dos dons e cada uma das virtudes teologais e morais. Há uma diferença capital entre o modo de funcionamento dos dons e o modo de funcionamento das virtudes. Ambos de procedência divina, de substância divina, as virtudes têm, entretanto, um modo humano, são uma participação de vida divina criada em nós. Nas virtudes o modo é parecido com o modo das virtudes naturais. Tem, digamos, o estilo do homem e a essência da coisa divina. Mas os dons têm um modo próprio, divino, de funcionar. Funcionam propriamente de um modo passivo. É mais uma dilatação da alma oferecida ao sopro do Espírito Santo. E, os teólogos fazem uma comparação que é clássica, comparam, por ex., no organismo espiritual, sobrenatural, as virtudes, a qualquer coisa que tenha força motriz, aos remos, ao motor de um barco e os dons às velas abertas para o Sopro do Espírito que conduz, que sopra onde quer.
Entre estes sete dons, então, há o paralelismo com as três virtudes teologais e com as quatro virtudes morais. O dom da sabedoria está na linha da caridade, aperfeiçoando o amor divino, a caridade. O dom da inteligência, do entendimento, está na linha da fé, tem por objeto a penetração dos textos, das verdades de Deus. E esse dom da Ciência, na doutrina de Santo Tomás, ele está na linha da fé também. Alguns tomistas, entretanto, põem-no na linha da esperança, como Garrigou-Lagrange. Pode-se, por assim dizer, conciliar as duas teorias dizendo que como dom da Ciência, como hábito intelectual, só pode estar realmente na linha da fé, como diz Santo Tomás, mas diretamente interessando à linha da vontade e, portanto, na direção da esperança divina.
Expliquemos um pouco melhor em que consiste a operação deste dom da Ciência. O que o pedagogia divina nos dà com esse dom da Ciência? Nos da valorização das coisas criadas, a valorização do mundo. Nós dá a valorização das coisas criadas em presença ou em contraste com o increado. Nos ensina o valor das coisas. E esse é um problema de uma importância capital para o homem, decisivo para todo o comportamento da vida religiosa de um homem. A valorização das coisas. Qual é o sentimento que nós temos, que a nossa alma tem do valor das coisas, do valor da vida, do valor do ser, do valor das rosas, do valor das pessoas ? Do mar, de um cavalo? Do céu azul, de tudo isso que tem tanta beleza e que nos maravilha, mas que é efêmero? 
Cabe ao dom da Ciência educar os homens nesse sentido, não da desvalorização pura e simples de todas as coisas para poder valorizar as promessas de Deus. A valorização da graça e das promessas de Deus nunca pode ser feita com desvalorização, propriamente, da natureza das coisas, porque um só, um, o mesmo Deus é o criador da natureza e o criador da graça. Não há conflito, não há ciúme entre Deus criador da natureza e Deus criador da graça. Quando, entretanto, nós lemos os místicos, tem-se a impressão, peIa sua linguagem antitética, de que há uma desvalorização radical da ordem criada para se poder então valorizar o increado. Essa impressão provém da deficiência da linguagem. A nossa linguagem é feita e construída em termos de apreensão sensível, da primeira experiência sensível.
A nossa linguagem é toda ela haurida na ordem criada e, portanto, ela não tem pauta, não tem alcance, não tem, digamos comprimento de onda, não tem vibração para atingir o increado. E, então, o místico tem de criar um estilo antitético, um exagero intencional para salientar as promessas de Deus, que ele quer tornar refulgentes. Parece que desvaloriza a ordem criada, mas há nessa desvalorização um imensa estima. É um equilíbrio difícil, renunciar, tocar a criatura de leve, não se prender demais no mundo, sentir bem o efêmero e o incompleto das coisas, sentir que a vida passa, sentir que o ser criado é poroso, composto de ser e não ser - être avec néant - como diz Maritain. Composto de tudo e nada. Sentir essa insuficiência e procurar a plenitude, só em Deus esta será a perspectiva, o ensinamento sobrenatural do dom da Ciência. 
Ora, eu diria agora, passando para outro plano, do plano Teologia para o plano da ordem natural, digamos, da mística para a mística natural, que é o clima dessa experiência vivida por esse cidadão, por esse personagem de que nos estamos ocupando. Nesta perspectiva da mística natural, da experiência da vida humana independente, propriamente da vida da graça, haverá um problema parecido e foi a esse problema que eu me referi a pouco, quando disse que "é nessa aridez, nessa desolação do Eclesiastes que muitas almas cantarinas como a de Machado e Carlos Drumond encontram o melhor tom, o riso triste e encolhido, timbre de exilado que pendurou a harpa no salgueiro com saudades de Sião". Há, na ordem natural, na sensibilidade mesma do artista, o sentimento de uma alma de poeta.
Essa adivinhação, que se põe paralela ao dom da Ciência, ah! perturbadora adivinhação da insuficiência do mundo criado... de uma certa composição, de uma certa falsidade dos valores, que nós pretendemos exaltar; não do ser mesmo, não da natureza intrínseca das coisas, mas dos valores que nós lhe atribuímos. E essas almas cantarinas, essas almas de exilados, almas peregrinas, que passam de leve no mundo, com um riso encolhido, com um humorismo contraído, dolorido, como o Machado de Assis, não são propriamente almas pessimistas, no sentindo profundo e infeccioso da palavra. Há em relação a valorização das coisas, à hierarquia dos valores, há este sentimento que está paralelo ao dom da Ciência na ordem sobrenatural, digamos, duas posições opostas: a do pessimismo, do pessimismo grave, do pessimismo infeccioso, do pessimismo que vai até o cerne do ser, da natureza das coisas, que ofende mesmo Deus criador da natureza, que apresenta o homem como profundamente corrompido, como essencialmente corrompido, e um mundo dividido em princípio bom e princípio mau.
Este pessimismo que torno a referir a este fenômeno de heresia maniquéia, era a atitude dos maniqueus, que dividiam o mundo, o autor do mundo, num autor bom e num autor mau, num princípio do bem e num princípio do mal, como se o mal fosse ser, como se existisse alguma coisa intrinsecamente má, patologicamente má, metafisicamente má, como se o mal fosse um ser, em outras perspectivas, sujeito, como Lutero e Calvino, a inspiração do protestantismo, a uma inspiração de pessimismo infeccioso.
Ainda acreditando em Deus, ainda acreditando na graça, a graça do protestante não é penetrante, não é purificadora, não é uma participação da vida divina, que queima, que calcina todas as nossas faltas, e nos torna realmente imaculados e puros, como ainda a pouco, antes do jantar, o Verbo de Deus mesmo nos diz no Cântico dos Cânticos. Para o protestante, aquele Cântico dos Cânticos, com todo aquele calor de carne, de figuras carnais representando como figuras do amor espiritual, aquela promessa de penetração da graça, de purificação profunda, não tem sentido para o protestante. A graça é quando muito uma cobertura, uma proteção intrínseca, continuando lá dentro uma corrupção profunda. O homem será uma podridão coberta pela graça de Deus. Chegando num de seus sermões ao exagero temperamental, que era muito próprio de Lutero, ele soltava palavrões, nomes feios, no auge da fúria ele comparou a graça a uma tampa de latrina. Perdoem a expressão. Era para cobrir a imundície que estava por baixo.
Esse pessimismo profundo nós encontramos, também, em Nietzsche, mal disfarçado por uma forma de esperança, no desejo do super-homem. Mas uma esperança em que o homem não tinha participação, porque ele seria substituído, e portanto não é uma superação aquilo que é uma substituição. Que espécie de superação: então eu me torno melhor me tornando outro? Esse desejo eu tenho, de me tornar o meu vizinho... Eu quereria adquirir essas perfeições continuando a ser eu mesmo. 
O pessimismo do princípio deste século, fim do século passado, uma forma de pessimismo filosófico profundo nós encontramos na obra de Freud, por ex., o homem torna-se presa de seus instintos. O irracionalismo domina a esfera do psicologismo freudiano. E nós nos sentimos então conduzidos por essas forças subterrâneas que não estão nas nossas mãos, que nós temos que ir a um médico, a um laboratório, a um consultório, para lá extrair de dentro as nossas molas secretas, sobrando sempre muitas. Somos, então meio responsáveis, meio irresponsáveis, conduzidos aos solavancos por essa lava que vem de baixo, por esse mundo misterioso que vem do irracional, do instintivo. 
Todas essas formas são pessimistas. Pessimistas também são escritores que nos tempos modernos aparecem degradando o homem, apresentando o homem como perdidamente mau. Pessimistas são certos filmes que se vê, em que a figura humana, em que a pessoa humana é espezinhada a fundo. Depois de cada guerra há uma corrente profunda de pessimismo. Não só de pessimismo puramente psicológico, mas de pessimismo moral, metafísico pessimismo maniqueu.
De outro lado estão os otimistas, e se os primeiros nos causam repugnância, temor, esses outros, para o meu gosto, pelo menos, se emprestam um pouco ao riso. É uma atitude um pouco bocó, porque é preciso uma certa ingenuidade que não é compatível com a maturidade de espírito para ter essa atitude de otimista. Mas em todo o caso, há grandes sujeitos, gente inteligente, como Rousseau, por ex. Aliás, esse otimismo a esse... (bem, daqui a pouco direi alguma coisa a respeito desta antítese). Cada uma destas situações supõe um pouco a outra, porque o erro é sobretudo dialético, tem uma dialética interna, o erro é contraditório. Um erro suscita o contrário.
Uma outra forma de otimismo, por ex. é o racionalismo. O racionalismo marxista por ex. Quando eles descobriram a perversão do regime capitalista, esses homens, alguns generosos, inclusive os que começaram a estudar esses problemas movidos por motivações generosas, motivações morais. Mas colocaram-no num plano técnico, num plano infra-humano e pretenderam resolver os grandes problemas dos homens com equações, com negócios, com o determinismo histórico, com a sociedade sem classes, com projetos desenhados em cima de uma prancheta. E imaginaram, então conduzir a felicidade humana. E tem coisas muito curiosas. Trotski, por ex., que aliás simpatizo mais com ele que com seu bem sucedido inimigo Stalin, e seus sucessores. Se é possível simpatizar mais com um do que com outro, eu simpatizo mais com o Trotski (amanhã os jornais comunistas vão dizer que eu sou trotskista, é infalível...)
Mas tem uma página dele, muito curiosa, em que ele está tão encantado com a futura sociedade sem classes, que ele começa a descrever como é a voz do homem, como é a cara, como é...vai tudo melhorar, o homem vai ficar mais bonito, vai ter melhores dentes, o nariz parece que vai ficar menos curvo, os cabelos não vão cair...Quer dizer, numa sociedade sem classes desse autor tem todos os sinais do Paraíso, do Paraíso Terrestre. É a idéia, então da instalação do Paraíso Terrestre, idéia desse otimista. Os socialistas, os marxistas, os progressistas, os sujeitos, ficam impregnados com o progresso das coisas, parece que cada dia a coisa vai melhorar, e mais um pouquinho. E há o otimista vulgar, o otimista, enfim, o otimista mais barato, o sujeito que pratica o otimismo cotidiano, na vida. E entre esses dois tipos humanos um deles é lúgubre, o outro não sei bem qual o adjetivo. Num deles há falsificação do sentido trágico da vida; no outro há supressão do sentido trágico da vida. Não sei qual escolher; com franqueza, nós não escolheremos nenhum.
Em todo caso essas são as posições extremas, do erro por excesso, do erro por carência. O justo equilíbrio, a finura de espírito, que se encontra naquelas almas cantarinas, que sentem bem o que o mundo tem de exílio, o que o mundo tem de falsos valores, construídos por essas teorias todas, o equilíbrio fino destas almas, o equilíbrio elevado, não o meio termo, a média entre esses dois extremos, mas uma média elevada, como na doutrina das virtudes, um vértice, uma média elevada, um equilíbrio é difícil, vertical. E uma vertical tremenda, uma vertical peregrina.
Esse tipo de homem sentirá, não terá esse otimismo vulgar, sentirá o efêmero, a passagem das coisas. Em termos cristãos, católicos, ele sentirá o vento do Eclesiastes, o dom da Ciência, a pressão escatológica, o fim dos tempos, será, por ex., um escritor como Mauriac, que tinha dessa, em mais alto grau, esse sentimento agudo, a tal ponto que na sua obra o termo efemêro aparece com insistência para caracterizar certas coisas. O efemêro e o eterno dançam dentro da obra de Mauriac. E, com dois grandes símbolos, o efemêro é Paris, é a rua, é o bar. É num romance, "Les Anges Noirs", é um casal que dança num bar, um americano que dança, que ele descreve de maneira primorosa esses personagens.
E o personagem central, que veio de Malagart, daquela casa de pedra que Mauriac tem em Bordeaux, cercada de pinheiros, aquele personagem acabrunhado que sente o peso da eternidade, neste bar parisiense olha aquelas figuras e chama-os de efemêros: les éphémères. O efêmero é a cidade, é a fulguração dessa vida artificial. O eterno é Malagart, é a casa, é a infância. É, pelo menos alguma coisa, não pela pedra, pelos valores espirituais nela contidos. Não pela grossura das paredes, não pela rigeza dos troncos de pinho, dos pinheiros, que até um deles caiu no dia em que o Mauriac tirou o prêmio Nobel. Malagart, o eterno. Paris, o tumulto, a cidade, o efemêro.
Sente-se isso também em Proust. Nós temos por um lado aquela procura do tempo perdido, aquele desejo de fixação da eternidade, a procura da memória reclusa das coisas. Ele ficava vendo se havia nas coisas por onde passava a imantação da memória, a saudade dos tempos perdidos. E fazia às vezes, conseguia essa mágica prodigiosa, de fazer a infância, Combrée, o eterno, nascer dentro daquelas visões efêmeras que tinha numa pétala de flor, numa folha de grama. Contam que andando com ele um amigo, adiantou-se um pouco, e quando parou, Proust estava debruçado, olhando uma relva pequenina, longos minutos, imobilizado. Procurando o que? A plenitude do ser, o imóvel, o incriado. E sentindo aquele frêmito das coisas que passam, a fragilidade daquela folhazinha, não querendo largá-la, não querendo perdê-la.
É nessa grande família, então, proporções guardadas ? não estou fazendo julgamento de valor - estou dando filiação, o meu pobre personagem terá então esses parentes, filho menor, brasileirinho, mas nessa linha, descendente destes personagens, como o personagem central de Mauriac, como o próprio Machado de Assis, como Proust, como Hamlet, talvez. E o traço característico e dominante destes personagens é a sensibilidade ao efêmero, sensibilidade à incompletidão, e uma sensibilidade levada ao máximo, exasperada, irritada, a falsificação com que os otimistas querem montar coisa duradoura com essa efêmera palha. Com folhas de avenca querem construir pirâmides seculares. Esses homens, com esse tipo, com essa sensibilidade, se irritam, se zangam, clamam, choram, sentindo a insuficiência das coisas e a porosidade do ser, a mistura: être avec néant.
E aí vai o meu pobre personagem, vendo essa incompletidão e essa falha, ora nas próprias coisas, ora nos atos humanos. O que mais encanta é a beleza, mas essa beleza mora peregrina e efêmera nas mulheres-flores. As mulheres-flores no bailado de Parsifal, dançam em torno do homem robusto, do homem ingênuo, tentando cativá-lo, tentando fasciná-lo, mas essa dança é efêmera, movida pelo Mágico, pelo... Logo, em poucos acordes e em poucas frases musicais as flores se desmancham no chão e levanta-se a mulher, a mulher dupla, a mulher que na mentalidade exótica de Wagner, pretendia ser qualquer coisa como uma justaposição de Eva e de Maria. Mulher que tinha perdido, mulher que salvaria. A beleza, a riqueza das coisas buscava na beleza, procurava na beleza sensível, nas pétalas das rosas.
Fica então pendurada no tempo, sujeita a esta....... dissolvidos, então no tempo......(eu quero chegar agora ao fim da idéia que de repente me faltou). Tem sêde, então, de alguma coisa que tenha a beleza de Eunice e a beleza das rosas, mas sem a fragilidade, sem a fragilidade das mulheres-flores. Luciano existe num décimo de segundo. As rosas dançam na jarra de opalina, até o desmaio e as (chuvas) de pétalas. A rosa que picou mortalmente o dedo do poeta, morreu com uma espetadela de rosa, rosa pura contradição, doçura intensa de não ser o sono de ninguém sob tantas e tantas pálpebras. Rosa, rosae; declinação, mobilidade, ladainha e o meu poeta debruçado com uma atenção proustiana a fixar o tempo. Quero encontrar os dias, os séculos perdidos nas pétalas levíssimas, que em três dias anunciam o efêmero evangelho da beleza. E no domínio moral, na vida própria dos homens, tudo parece falso, ou misturado ou equívoco. Falsa sua vida, falso seu amor e, agora, falso seu sangue. E em torno dele, como personagens wagnerianos, leit-motivs, movem-se os símbolos: o sangue fortificado ou pelo menos tornado ridículo com seus bastões, euzinópodos e mieloblastos, clama por uma realidade que tenha a plenitude do ser. O vento morno que passa no Eclesiastes, diz: vaidade das vaidades, nada de novo sob o sol, perseguição do vento. Mas o Eclesiastes está perto do Cântico dos Cânticos e ligado à promessa que nascerá entre os cervos de Cedar e as rosas de Jericó, o dom da Ciência está na linha da esperança.

Direi, ainda, para terminar, que é esta propriamente a tessitura dos dias contados nessas trezentas e poucas páginas. Mas há o esboço de uma solução, a descoberta de uma solução. A grande descoberta que este personagem faz é que está no amor a síntese da vida. E essa descoberta que Santa Teresinha do Menino Jesus realizou, no plano da sua vida sobrenatural, de sua vida de santificação, quando ela dizia, em páginas admiráveis, que ela sentia nela todas as vocações, ser como todos os santos: um confessor, um mártir, um missionário, ser santo no deserto e santo na cidade, ter todas as formas de confissão, todas as modalidades de vida a serviço de Deus, quando num dia ela compreendeu que de um modo ele realizava a síntese de todas as vocações: no amor. 
E aquela santa, que descobriu a síntese da vida, através de renúncias perfeitas, no caminho da santidade, a esse itinerário, itinerário de renúncia e de desolação, do dom da Ciência, com essa descoberta da síntese da vida, da vida de Deus, da vida sobrenatural do amor, a esse itinerário podemos dizer alguma coisa no plano natural, ou não sei, se o meu personagem,... eu não posso dizer Deus sabe, porque ele não existe, não posso brincar com essas palavras, mas... alguma coisa nesta ordem, da razão natural, se assemelha, é paralela, e a inteligência do artista, a intuição do artista, sua sensibilidade poderá descobrir, por intuição, não sei, talvez, por dom infuso, alguma coisa de parecido, e sentir e descobrir que toda aquela falsificação, que todas aquelas falhas, que todo aquele fracasso, que toda a vida de amor falhado, casamento falhado, filho falhado, netos falsos, pseudo-netos, pseudo-lágrimas, que tudo aquilo encontra solução, encontra uma síntese quando a estrela vermelha cai do céu, e quando o meu pobre moribundo clama três vezes a palavra "amor".

E, agora não lhes falarei nos episódios de agonia do meu poeta. Não sei mesmo o que se passou nos seus últimos dias. Vejo uma jarra vazia. Um espetáculo vulgar com que a farmácia prepara a eternidade. Ah, nem as três rosas me deixastes... A quem falava ele? Queixava-se ou aceitava este rigor maior de um deserto mais árido, como um começo de vida nos seus últimos dez dias? Não sei, não lhes direi, portanto, o desenlance que ignoro, mas apenas direi que o meu pobre Zé Maria andou pelos ásperos caminhos da esperança teologal.


Revisão do Prof. Carlos Aurélio Mota de Souza 
Marília/Janeiro, 2002


Autor(es)

Gustavo Corção