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26/07/2018

SOBRE UMA PASSAGEM DO "CÂNTICO DOS CÂNTICOS"

SOBRE UMA PASSAGEM DO "CÂNTICO DOS CÂNTICOS"

Conferência do Dr. Gustavo Corção
PUC-RGS, Julho de 1953

(Colaboração do Prof. Dr. Jacy de Souza Mendonça, da PUC-SP )
(sem correção)

Meus caros amigos

Para começar nós ouviremos um disco que foi gravado na abadia de Getsêmani, onde Thomas Merton se queda enclausurado entre as quatro paredes de sua liberdade. E o trecho que vamos tocar foi tirado de um versículo do Cântico dos Cânticos, onde a Sulamita ouve em sonho a voz do bem amado:

"Ego dormio cor meum vigilat vox dilecti mihi pulsantis. Aperi mihi, soror mea, amica mea. Vulnerasti cor meum, cor meum, vulnerasti cor meum . Aperi mihi, soror mea, amica, columba mea, immaculata mea. Gloria Patri et Filio et Spiritu Sancto. Aperi mihi, soror mea, amica mea, columba mea, immaculata mea".

Ouvimos o Cântico dos Cânticos, o mais belo dos Cânticos, o Cântico do amor divino, com as cores e as palavras do amor humano. Com uma divina ousadia, o espírito inspirador começa este Cântico com as coloridas e quentes palavras humanas: "Dá-me o beijo de tua boca, porque os teus peitos são melhores que o vinho". E com este tom, com este colorido, o Cântico de amor divino ensinará aos homens de todos os tempos a riqueza do ser a bondade intrínseca das coisas, a bondade mesma da carne humana, que o pecado aflige, mas que intrinsecamente é boa. Vive, cordial contra o maniqueísmo, o pessimismo sombrio, que tantas vezes se tem atravessado no caminho da Igreja, com maléfica heresia, e que, freqüentemente, sem tomar forma de heresia nítida, vive um pouco no nosso pensamento, quando pela obsessão do sexto mandamento, nos inclinamos um pouco a pensar que a carne humana é má. Contra esse sombrio pessimismo, o Cântico dos Cânticos é um tônico, um cordial para vivificar a bondade intrínseca das criaturas, a bondade do ser. E com isso, com essa audácia que só a Deus é permitida, o mais espiritual dos amores se reveste deste colorido, tem esta tonalidade; e abre sua música, o seu cântico, com cálidas palavras do amor humano, do amor carnal: "Dá-me o beijo de tua boca, porque os teus peitos são melhores que o vinho". Cântico de apaixonado.


Neste trecho que ouvimos, neste pequeno versículo que o canto gregoriano repetiu três vezes, com uma pequena interpolação, ouvimos o chamado impaciente do esposo, batendo à porta da bela adormecida, sim, mas coração vigilante. Ora, quem não desejou, quem de nós não deseja e não desejará ardentemente ouvir ou ter o direito de dizer essas palavras de amor? Em todos os tempos carregam este sonho de brancura radiante, de infinita possibilidade dentro dos limites da vida. Nós bem sentimos, ai de nós, a composição de glória e de miséria que temos em nós, que todos carregam, uns com tristeza, outros com circunspecção e vanglória. Bem sabemos que o homem é mentiroso e versátil, inquieto, e que as melhores palavras de verdade sempre incluem algo de falso e que os mais admiráveis amores são forjados de amor próprio. Bem, sabemos, ai de nós, que aí está a desordem política, a desordem econômica, a desordem moral. Bem sabemos que a cupidez se casa com a dedicação, que o egoísmo se casa com a generosidade. Bem, sabemos, ai de nós, que o olhar translúcido da criança vai toldar-se de lágrimas, não mais de lágrimas de criança, ou vai escurecer de inveja e de rancor, porque nós também fomos assim, brancos, limpos, dessa brancura física das crianças. Nós, que hoje colaboramos para tornar inóspito o planeta; nós que contribuímos para a miséria e desordem, mesmo, ai de nós, quando pregamos ou quando pretendemos trabalhar para a limpeza do mundo. Falta-nos a plenitude da brancura, a plenitude do ser.

A quem diremos, ou de quem ouviremos, então, aquelas palavras com amor e verdade? Direis, talvez, "Soror mea", àquelas almas irmanadas na aflição. O título de irmã será então parentesco de miséria. Direis "amica mea", dentro da relatividade dos afetos, que são muletas para os estropiados da vida ou pomada para os contundidos do amor.

Dias atrás, passando por uma rua escura, vi, de relance, um vulto de homem, apoiado num ombro de mulher: parecia um ferido que ela carregava para a farmácia. Olhei melhor: eram dois namorados. A necessidade de apoio era outra e outro o ferimento.

"Soror mea, amica mea". Até aí ficou a entonação de gemido e soluço. Ainda podereis dizer e ouvir o desfile das aflições. Mas quem poderá dizer, ouvir, com verdade e amor, as palavras da brancura que voa e da pureza que cintila? Devemos, então, renunciar, renunciar a essa aspiração, devemos tomar juízo, ser gente grande, prática, realista, gente que sabe que a rotina matou o amor? E dizer que o melhor que ainda se pode fazer nesse vale de lágrimas, é um bom meio termo, uma praxe honesta, uma boa educação enfileirada para a sepultura? Não sei quantos há por aí que conseguiram essa organização do tédio, essa domesticação do desespero. Outros não conseguirão jamais. Pode o tempo passar, pode o fogo dos conflitos consumir suas carnes, crestar seus cabelos, e eles continuam com a voz do bem amado.

Eu durmo, mas meu coração vigia". De onde nos vem esse sonho? De que saudades perdidas se alimenta essa vigília dentro do sonho? "Eu durmo", diz a Sulamita, mas "meu coração vigia". E o amado que vem correndo pelos montes nos adverte: "Eu vos conjuro, ó filhas de Jerusalém, pelas cabras montesas e pelas corças do campo, que não perturbeis minha amada em seu descanso". Sim, que não na acordeis para os ruídos e para a algazarra do mundo, que não na acordeis antes do tempo, antes de passar o inverno e de aparecerem as primeiras flores da terra, antes da vinha amadurecer e de se ouvir o canto da rola, que não na acordeis antes do beijo do bem amado. "Eu quero o beijo de tua boca". Mas eis que ele vem, ó filhas de Jerusalém, e veio, e veio e estou enferma de amor.

 


Meus caros amigos.

O mundo está cheio de mal-acordados ou de sonâmbulos. Está cheio de gente que o alarido das imprudentes filhas de Jerusalém despertou antes dos tempos das rosas. E esses sonâmbulos por ai andam repetindo as palavras do sonho com acentos de nostalgia. Falam de fraternidade (soror mea), falam em amizade (amica mea), mas em vão procuram a asa leve e a brancura imaculada. Neste ponto do Cântico engolem um soluço, porque não sabem pronunciar com acento de verdade e elogio da pureza e não sabem dizer: "columba mea, imaculata mea.

Conheço muitos moços que procuram no mundo está pérola perfeita, e os mais velhos riem-se deles, porque, de antemão, sabem que só encontrarão uma companheira de indigência. Dias atrás recebi uma carta aflita, de um moço que já se correspondia comigo, e que entre perplexidades procurava Deus. Enviava-me de 600 kms de distância um grito de amor ferido: "Luciana mentiu, eu sabia que ela não era perfeita, mas queria que fosse autêntica. Luciana tinha que ser autêntica, porque o amor não pode ser amor se não é autêntico; mas Luciana mentiu". Respondi-lhe com extrema dificuldade, navegando entre perplexidades, porque o moço não me dera dados, as circunstâncias. Conheço Luciana, é uma boa moça, mas não tem os atributos divinos que o enfermo de amor procurava.

Terá mentido? Em que circunstâncias? Expliquei ao moço, que com todo o horror que tenhamos pela mentira, devemos considerar as circunstâncias, porque há infinitos matizes. Há mentiras feias e tristes, mentiras que vêm da fraqueza, do medo de perder um amor, do desejo de adiar uma explicação. Mas há também que denotam uma dobrez de caráter e uma falsidade profunda, com a qual não é possível nenhuma aliança. Além disso, notei que o moço queria a autencidade do amor, no mesmo contexto em que admitia não sei quantas imperfeições, e como é isso possível? Então, posso eu imaginar que uma pessoa carregada de imperfeições deva ser perfeita comigo? Será justa esta reinvidicação? Mereço eu mesmo esse tesouro prodigioso encontrado numa encruzilhada da vida? Na verdade, todas as nossas imperfeições, todas as nossas misérias vêm da falta de integridade, ou de autencidade, como hoje se diz. Há, na raiz de todas as nossas deficiências, uma falsidade: orgulho, amor-próprio, mentira, andam juntas. O orgulhoso, por mais sincero que se julgue é um homem que se mente a si mesmo. Somos compostos, misturados, divididos. Como se entende que pretenda exigir e merecer a autencidade de outro? E como explica que procuremos no amor de dois pobres seres humanos a cristalina perfeição que nenhum deles sozinho possui.

Há uma exaltação de amor humano que consiste em separá-lo do domínio da moral, isto é, da atmosfera comum da vida humana, onde tresanda a morrinha de nossas misérias, para entronizá-lo num universo à parte, de poesia e de supernal beleza. Essa concepção de amor romântico que nos persegue e que nos enfeitiça vem de longe, desde a Idade Média. E, se remontássemos mais longe ainda, ela aparece numa manifestação chamada amor cortês, amor cantado pelos trovadores, que estava aliada com toda a sua beleza, com todo o seu trágico, a heresia, a heresia dos albigenses, que perseguiam o ideal de pureza, um tamanho ideal de pureza, que recuavam diante do próprio Corpo de Deus, porque a palavra corpo era pesada demais, densa demais, para aquele ideal de pureza. E esses, que a si mesmos se chamavam castos ou puros, pretendiam uma religião puramente espiritual, e um amor puramente espiritual, um amor espiritual que repugnava ao casamento. O amor dos trovadores, a lenda de Tristão e Isolda, uma bela lenda de amor e de morte - como diz o prólogo - é realmente a concepção e a idéia de um amor que não tem outra saída senão a própria morte, e então, a purificação, a suprema purificação virá da morte e do nada.

Nesta concepção de amor romântico que pretende isolá-lo dentro da atmosfera moral, com um trágico de ópera e com uma aversão à vida, na verdade é uma divinização da criatura pela criatura. Mas só Deus pode divinizar a criatura. E este é o tom ardente, apaixonado, exaltado do Cântico dos Cânticos. Amor divino, com as cores e o sabor do amor humano - "Quero o beijo de tua boca, porque os teus peitos são melhores que vinho". A exesege corrente nos ensina que o bem amado é o Verbo de Deus, a segunda pessoa da S.S. Trindade, o Cristo Nosso Senhor, e que a Sulamita é a Igreja, ou a alma de cada um de nós. Esta explicação parecerá a certas pessoas talvez artificial, mas, diria eu, o contrário é que seria: esta linguagem do Cântico dos Cânticos, emprestada propriamente ao amor humano, é a exaltação, o desejo da autencidade absoluta e de perfeição, e de supernal beleza, atribuída ao amor puramente humano; esta é que seria artificial.

Porque agora, nesta perspectiva, dentro desta interpretação e desta explicação, vejam bem, o bem amado poderá, com a divina Veracidade, dirigir a criatura, como esposa, aquelas palavras de exaltação. Dirá, então: Soror mea, porque nos trouxe um vínculo real de nova e universal fraternidade, a fraternidade cristã. E porque nos dá o direito de dar a Deus o nome do Pai (Abba Pater). Dirá " Amica mea", porque a Graça de Deus, participação da vida divina, nos torna realmente, eficazmente, amigos de Deus. Dirá "Columba mea", porque o seu Santo Espírito, que arrulha com gemidos inefáveis, fez ninho na, pedra de nosso coração. E dirá "Immaculata mea", porque seu perdão, sua amizade, a sua fraternidade, a sua graça penetra em nós realmente, eficazmente, perdoa as nossas faltas, queima nossos pecados, nos dá - embora possamos perdê-lo - esse princípio, esse germe da divina pureza. Não só por atribuição e afetivamente ele nos diz aquelas palavras; ele nos faz o que nos diz, ele opera o que significa, ele nos diviniza.

O grande apaixonado (e quem não quer ouvir a voz de um grande apaixonado?) diz: "Vulnerasti cor meum". Atravessaste, feriste, atingiste meu coração. E, de duas maneiras o diz: diz-se ferido pelo nosso amor (ele está falando à esposa), como diz também (e ainda hoje lemos na oração da missa do Sagrado Coração), que é atingido, vulnerado, atravessado no coração pelos nossos pecados. Mas, em qualquer desses ferimentos, ao ferimento do amor e ao ferimento da lança, corresponde à mesma réplica divina, a mesma réplica de amor.

E, agora, que já sabemos de onde vem, então, agora, vejam, ou melhor, ouçam, agora que já afinamos a nossa alma pelo tom do Cântico dos Cânticos, agora que já vivemos no coro de Cristo, podemos nós também, pelo espírito que nos vivifica, por Deus, em Deus, com Deus, podemos nós, também, dizer uns aos outros as mesmas palavras de belo amor, sem mentira e sem orgulho, sem exaltação que leva à morte, podemos nos debruçar nos brancos abismos da imensa caridade, podemos, temos o direito, o privilégio de saudar a alma irmã e amiga, "Soror mea, amica mea", através dos defeitos, das imperfeições, podemos bater à porta dos corações, com a candura de Deus, sabendo que os defeitos são tenazes, que muita miséria permanece em nós, porque nos apegamos a ela, e não somos plenamente santos, embora podemos, desde já, com a garantia de Deus, dizer com verdade as palavras santas que encontrarão nas almas o trinitário diapasão. E a cada um de vós, almas amigas e irmãs no amor de Deus, eu poderei dizer, nesta última noite que aqui estou convosco, as palavras do Cântico dos Cânticos: "vulnerasti cor meum".

E quando eu voltar para casa, poderei imitar o bom Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga, cujo amor pelas almas, pelas obscuras almas e pela terra de seu arcebispado, nos fala o mestre Frei Luis de Souza. Sim, quando voltar à minha desarrumada Babilônia, depois desta curta separação, que injuria os meus hábitos, ao mesmo tempo que recompensa meu coração, e quando chegar numa rua chamada Pires Ferreira, lá onde me espera uma casa amarelo- desbotado, com um jardinzinho na frente, onde vive uma pequena família, mulher, quatro filhos, duas empregadas, gente boa, mas imperfeita, gente às vezes difícil: a mulher que se impacienta, a filha que fecha o rosto e as criadas (coitadas!), que se perdem nas ruas escuras onde vão procurar a efêmera alegria que o nosso serviço lhes roubou. E, quando eu avistar de longe a janela que eu pintei de verde e que ficou horrivelmente mal pintada, e quando de perto ouvir as vozes que são a minha alegria e a minha aflição, e quando a porta se abrir, ah, eu poderei cantar para esse punhado de gente que ora ajuda, ora aflige e que ora me ajuda, ora me aflige, a essa gente obscura, ó filhas de Jerusalém, eu poderia dizer à minha gente, pelo diapasão de meu Salvador: "Soror mea, amica mea, columba mea, immaculata mea".

E agora ouçam o que ainda é mais prodigioso: amanhã, depois de amanhã, por aí afora, pelo caminho de 1900 kms afora, em que o meu Salvador imóvel toma a dianteira de minha trepidante mobilidade, quando diante do altar o sacerdote me apresentar à hóstia pequenina e quando eu disser: "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada", então eu ouvirei no coração o próprio autor do Cântico dos Cânticos dizer-me: "Ó minha alma escura e pobre", a mim que realmente não sou digno, "Eu bato em tua porta", abre-me : "aperi mihi, soror mea, columba mea, amica mea, immaculata mea, vulnerasti cor meum".


Autor(es)

Gustavo Corção