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26/07/2018

Um clássico da cultura brasileira

O vazio deixado no cenário nacional pela morte de Miguel Reale atesta, agora mais do que nunca, que o falecido possuía o perfil de um grande homem. Grande homem é aquele que trabalha para a perenidade, dedicando sua vida a uma idéia, um ideal, uma causa maior do que ele mesmo. Grande homem é aquele depois do qual nossos valores já não são os mesmos, induzindo-nos a pensar e agir em novos moldes.

A obra de pensamento de Miguel Reale é monumental. Sua teoria tridimensional do direito (fato, valor e norma) assume o feitio clássico dos grandes documentos culturais, e está para a filosofia do direito assim como o romance machadiano está para a literatura brasileira, o Código Civil para o direito, ou Casa Grande & Senzala para a nossa sociologia. Ao ler Reale sempre dele se esperava a última palavra sobre questões disputadas na vida social, política e cultural. Sua opinião não era nunca apressada ou leviana, nem impaciente, como a de certos ideólogos revolucionários que querem mudar o mundo do dia para a noite. Em sua mente imperava a virtude romana da cautela, a prudência aguerrida do vir bonus: "vir bonus dicendi peritus", homem forte que sabe falar, na fórmula cunhada por Catão, o Antigo, modelo das sólidas virtudes republicanas. Ao cuidado para não errar unia a coragem para inovar em todos os campos em que atuou. Coragem intelectual, moral e até física, como deu prova no enfrentamento à turba de acadêmicos rebeldes que durante meses sabotavam suas aulas ao conquistar a cátedra de Filosofia do Direito na Academia do Largo de São Francisco.

Morre aos 95 anos o jurista Miguel Reale, marchetaram os jornais quando de seu falecimento. Jurista, e dos maiores, ele o foi, com certeza, mas é bom não insistir muito nessa condição. O Brasil sempre foi pródigo em juristas de grande porte, e o professor paulista soube honrar essa tradição. Mas o que Miguel Reale quis ser, e foi em grande estilo, era um homem de idéias, um pensador ou um filósofo, na expressão estrita do termo. Filósofo do direito, certamente, mas por extensão. O filósofo do direito, o jurista, o advogado, o administrador de larga visão foram personificações do pensador Miguel Reale, e nesta condição de pensador é que ele encontrou sua identidade e produziu livros notáveis, como A Doutrina de Kant no Brasil, Pluralismo e Liberdade, Experiência e Cultura e, principalmente, Verdade e Conjetura, um fascinante ensaio que só poderia ser escrito por um "espírito eminentemente filosófico", nas palavras de Evaristo de Moraes Filho. Nesse texto o pensador brasileiro reabilita a meditação metafísica sob a espécie do "pensamento conjetural", que parte da experiência, mas vai além dela, na perspectiva do plausível, conquistado passo a passo, sem resvalar para o irracionalismo, e desferindo um golpe fatal nessa forma tão difundida de acomodação e acovardamento das idéias que atende pelo nome de agnosticismo. Este recusa a inquirição das ultimidades da existência: o absoluto, a origem e o fim do universo, o mistério essencial da vida e da morte, o enigma do tempo, etc. A paisagem da qual se exclui a dimensão da profundidade será uma paisagem mutilada para sempre.

O maior título de orgulho para Miguel Reale foi a criação do Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF), em 1949. O IBF foi fundado como um desafio audacioso ao pensamento único que fazia praça em São Paulo na Faculdade de Filosofia da Rua Maria Antônia, dominada por um positivismo declinante e um marxismo ascendente, ambas as tendências encarnadas na figura do professor João Cruz Costa. Não era possível que a ocupação filosófica girasse, exclusivamente, em torno de Marx e Comte. Profundamente insatisfeito com tal limitação, Reale mobilizou um contingente de estudiosos de primeira linha, pertencentes às mais diversas correntes. Ilustres professores estrangeiros foram convidados para seminários e conferências. Em 1950 o instituto promoveu o primeiro Congresso Brasileiro de Filosofia. E em 1951 lançou o primeiro número da Revista Brasileira de Filosofia, editada até agora.

Alguns dos nomes que se congraçaram nessa empresa em nível nacional e internacional representavam o que havia no País de mais expressivo na produção filosófica: Vicente Ferreira da Silva (vinculado a Heidegger, com vigorosa disposição criadora), Renato Cirell Czerna (hegeliano, nascido na Bahia, mas ligado à melhor aristocracia européia, lembrava um personagem de Visconti), Heraldo Barbuy (tomista de alma romântica), João de Scantimburgo (profundo estudioso de Maurice Blondel, o filósofo da ação), Djacir Menezes (respeitável hegeliano), Leonardo van Acker (tomista de espírito aberto), Celso Lafer (liberalismo com responsabilidade social), A. L. Machado Neto (Julián Marías), Maria do Carmo Tavares de Miranda (existencialismo cristão), Creusa Capalbo (Husserl), Evaristo de Moraes Filho, Roque Spencer Maciel de Barros, Milton Vargas, Nelson Saldanha e Antonio Paim (kantiano, nosso mais completo historiador de idéias no Brasil, o maior e mais generoso colaborador de Reale na recuperação do nosso rico patrimônio de idéias no século 19).

De pronto, por efeito de contraste com o grupo marxista da Maria Antônia, o IBF e a revista foram caluniados como de "direita", quando, na verdade, se apresentavam como pluralistas, simplesmente, livres de sujeições e armadilhas ideológicas.

Em nosso tempo de especialismos, Miguel Reale se destaca por sua mente ampla, generalista, adepto da maior interdisciplinaridade, e com sua personalidade desdobrada em variados papéis, mostrando que nada do que é humano lhe era estranho. "Reale era uma presença imensa, um Uomo renascentista preocupado em esculpir sua vida como uma obra de arte, cultivando todas as vertentes, futebol, poesia, amizade, política, filosofia, história, literatura, direito teórico e prático, etc." (Ubiratan de Macedo).

O Estado de São Paulo, 01 de maio de 2006


Autor(es)

Gilberto de Mello Kujawski