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30/03/2004

Paixão deve ser visto pelo filtro da fé e da crítica

Filme polêmico, a Paixão de Cristo, de Mel Gibson, tem suscitado grande interesse e debates apaixonados, com ou sem razão, na opinião pública e em muitos órgãos da grande imprensa. A maior polêmica gira ao redor da questão se ele alimenta ou não o anti-semitismo. Importantes líderes religiosos e outras personalidades, que não podem ser acusadas de reagir apenas emocional ou preconceituosamente, têm manifestado opiniões entre si contraditórias. Uns afirmam que o filme alimenta claramente o anti-semitismo, outros declaram não concordar, pois, ao vê-lo, não perceberam nada que pudesse dar sustentação a essa tese.

Independentemente da questão se, em forma objetiva e explícita, há ou não anti-semitismo no filme, creio que o simples fato de a comunidade judaica, no Brasil, ter considerado o assunto tão grave a ponto de emitir uma nota para denunciar anti-semitismo, deve ser levado seriamente em consideração ao julgarmos o filme. Na verdade, um filme sobre Jesus Cristo não deve ser nem parecer anti-semita, pois por tudo que sabemos de Jesus, ele jamais aceitaria ser usado para o anti-semitismo seja aberta seja disfarçadamente, tanto assim que ele mesmo, sua mãe, seus apóstolos, inclusive Paulo, todos são judeus. Acrescente-se que o anti-semitismo já causou perseguições inomináveis contra os judeus, culminando no holocausto de milhões perpetrado por Hitler. Por essa razão, hoje mais do que nunca, devemos estar em alerta para não favorecer o anti-semitismo.

O autor do filme declara que se ateve aos textos evangélicos. Contudo, quando se tomam os textos bastante sóbrios do Evangelho para representá-los em forma concreta e por assim dizer recriá-los historicamente mediante os recursos da imaginação e da atual capacidade tecnológica do cinema, correm-se muitos riscos de não ser mais tão fiel ao que o Evangelho quis dizer e aos fatos históricos que, sem dúvida, estão na base do relato evangélico.

Diante do debate sobre o filme e considerando que neste momento histórico há um recrudescimento do anti-semitismo, por exemplo, na Europa, é urgente e necessário retomar as conclusões importantes do Concílio Vaticano II referentes à pergunta sobre quem foi o responsável pela morte de Jesus. São essas conclusões que devem ser retomadas, defendidas, divulgadas e assumidas. Elas representam o pensamento atual da Igreja Católica sobre essa questão tão grave, delicada e sempre ardente. Em primeiro lugar, a Igreja sempre ensinou que Jesus Cristo morreu por causa de nossos pecados, isto é, os pecados de todo o gênero humano. Nesse sentido, todos somos responsáveis por sua morte. Em segundo lugar, ela sempre ensinou que Jesus aceitou livremente morrer pela nossa salvação, não tendo sido submetido à morte contra sua vontade. Ele sabia que no mistério de sua morte e ressurreição se decidia a sorte da humanidade, por isso sua vigorosa determinação em enfrentá-la e não recuar por mais terrível que ela fosse. Isso é teologia católica, interpretação católica do que nos foi legado pelos Evangelhos e demais escritos do Novo Testamento e pela Tradição.

Considerando, porém, as circunstâncias meramente históricas e humanas da paixão de Jesus, a Igreja Católica reconhece que somente a autoridade constituída do Império Romano, que governava a Palestina da época, no caso, o governador Pôncio Pilatos, tinha poder de condenar Jesus à morte e o fez.

Portanto, não os judeus, ainda que um grupo de seus dirigentes tenha apoiado sua condenação à morte. O responsável verdadeiro foi Pôncio Pilatos. Por essas e outras razões, o Concílio Vaticano II, no documento, intitulado Nostra Aetate (1965), sobre as relações da Igreja com as Religiões não-cristãs, na parte em que trata da relação com a Religião Judaica, ensina que não se pode culpar coletivamente nem o povo judeu da época nem o de hoje pela morte de Cristo. O documento diz clara e decididamente: "Aquilo que se perpetrou na Paixão de Cristo, não
Autor(es)

Dom Cláudio Hummes