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26/07/2018

Roberto Campos, o herói da razão

Historiadores já começam a pesquisar quais as forças intelectuais que moldaram as opções políticas, os movimentos sociais e as escolas econômicas no Brasil do século 20. Para esses investigadores do pensamento, tenho uma pista de algum interesse: o Debate do Século, uma minissérie de encontros, transmitida pela TV Educativa do Rio de Janeiro, que registrou a esgrima de idéias entre Luiz Carlos Prestes, o "Cavaleiro da Esperança", como era chamado pela comunidade de admiradores na esquerda brasileira - e Roberto Campos, o "Herói da Razão", como gostaria de chamá-lo, daqui para frente.

Eu fui. Também tive a oportunidade de pisar o campo de batalha daquele estúdio de TV, na série de debates memoráveis entre Prestes e Campos, por um desses convites que não se pode retribuir nunca, quando o Herói da Razão me convidou para compor uma dupla de comentaristas, dois acólitos ou "ajudantes-de-armas" que, segundo as regras da emissora, cada debatedor deveria levar consigo ao extraordinário duelo.

Ali, com Paulo Guedes - o outro "padrinho" -, pude assistir ao vivo o desfilar de todo um século de idéias e lutas em nosso País, através de seus protagonistas, Campos e Prestes, homens que conformaram as convicções de tantos outros, anjos ou demônios no entender de muitos, homens-heróis, isso certamente, pela intensidade da sua paixão maior: o Brasil.

Agora, enquanto o Herói da Razão descansa, começamos a entrever, por trás do pesado e surdo vazio de sua falta, a dimensão permanente da sua personalidade. Num país de poucas façanhas e de variados facínoras, num país de tão pouca memória de seus expoentes, a saga desse menino de Mato Grosso feito seminarista, feito professorzinho do interior, feito diplomata por sobra de méritos, feito planejador de Estado, feito legislador, feito polemista insuperável e, por tudo isso, feito economista como nenhum outro de seu tempo, cruza da raça do paulista com a força telúrica do Pantanal mato-grossense dentro de si, deu ao nosso carente patropi um de seus raros e genuínos intelectos de grandeza mundial.

O herói, queira ou não, se distingue do resto de nós outros, por duas virtudes que lhe imprimem caráter: a fidelidade e a solidão. A primeira - fidelidade - seria sua marca religiosa, algo transgênico, que o jovem Roberto teria incorporado, com grande alegria interior, quando de sua passagem pelo antigo Seminário de Guaxupé, sua pós-graduação em mineiridade e, por coincidência, o local do último passeio que fez, para encontrar velhos amigos naquela brasileiríssima capital do café.

Fidelidade à família, ao País e a seu povo, fidelidade a suas próprias idéias e convicções, mesmo diante de uma rixenta ou rancorosa oposição.

Fidelidade, nos pequenos detalhes, ao seu leitor anônimo, por exemplo, que ficava à espera de sua infatigável crônica dominical, sempre ferina, sempre brilhante. Mal sabia esse leitor do sofrimento do escritor, desesperado diante do texto inconcluso - oprimido pela folha de papel em branco ou pelo cursor da tela do monitor piscando "...tô te esperando".

Já a solidão, amiga da fidelidade, é a virtude do montanhista, capaz de arriscar o pico mais alto, a escarpa mais perigosa. Escalar até o topo já é muito; permanecer no topo, como Roberto Campos ficou, por mais de meio século de incessante criação intelectual, é desafio para muito poucos. O seu A Lanterna na Popa, obra magistral e resumo desta solidão no meio de muitos, deixa gravado o seu grito de Prometeu, punido por querer transmitir a chama do conhecimento para a sofrida e impenitente brasilidade.

Roberto gostava das trilhas difíceis, enfrentando com prazer os mitos persistentemente repetidos, combatendo a liturgia do erro travestido de solução econômica. Sabia propor e sabia contrapor. Sua convicção liberal nunca se valeu do jogo das conveniências. Por isso, padecia a incompreensão e, às vezes, a crucificação por parte de seus verbosos oponentes, os homens-bromélias, distintos exemplares da flora local, bem verdes e vermelhos, espécies atraentes em qualquer roda de discussão, sempre agarrados a algum galho da frondosa copa intelectual de Roberto Campos.

Por isso mesmo, a vida do Herói da Razão nos conduz muito além de uma personalidade unilateral. O que pouca gente já parou para conhecer ou reconhecer são os outros Robertos. Se fosse Fernando Pessoa, assinaria também Ricardo Reis, ou Álvaro Campos ou Alberto Caieiro. Como liberal, Roberto foi sempre o mais socializador e, como globalizante, o mais nacionalista, o mais sensível às "razões do Estado".

Dos arquivos implacáveis do amigo comum , o também notável M.F. Thompson Motta, emergiram alguns episódios do "realpolitik" de Roberto Campos.

O crítico feroz dos "sauros" estatais também chegou a assinar uma ficha de direção no nosso filme de parque jurássico. Décadas atrás, entre inviabilizar a Petrobrás, premida no nascedouro por falta de verbas, ou viabilizá-la financeiramente, por uma engenhosa alteração no imposto que para ela geraria recursos, Roberto não titubeou: teve consciência ecológica; preservou o jovem sauro; supriu o oxigênio que lhe faltava.

Globalizante ou nacionalista? O visceralmente antinacionalisteiro, sempre encontrou um meio de estimular a produção nacional, de criar empregos, não de exportá-los para fora do País como hoje, infelizmente, andamos fazendo.

Roberto jamais traiu as causas nacionais. Nisso aproxima-se de outros grandes guerreiros como Santiago Dantas, seu colega e amigo, Lucas Lopes, seu chefe por algum tempo, Octávio Bulhões, seu "irmão" mais velho, e Eugênio Gudin, o guru de todos. As novas gerações, desamparadas de informação precisa, talvez tenham dificuldade de enxergar Roberto como um dos fundadores do BNDE, em plena revolução industrial brasileira, ou à frente do Plano de Metas de JK e que, hoje, muitos procuram, com notória dificuldade, imitar.

Será, talvez, mais difícil ainda ver Roberto à frente do gasoduto Brasil-Bolívia, que lhe valeu à época (anos 50) a alcunha mesquinha de "Bob Fields" - apelido transformado em reconhecimento carinhoso ao nosso primeiro brasileiro de padrão-exportação!

Mas são dele também iniciativas de estadista, como a aproximação com a Argentina, a antevisão do Mercosul - sobre o qual insistia - apesar das negativas dos militares, ou a criação de um centro financeiro internacional no Rio de Janeiro, acoplado a um parque industrial de exportáveis, que teria transformado a hoje combalida cidade ex-maravilhosa numa região de prosperidade mais impressionante do que Hong Kong.

O "idiota da objetividade", como assim o chamava com pseudo-agressividade seu amigo Nelson Rodrigues, quis sempre para o seu Brasil, para o nosso Brasil, aquilo que, de algum modo lamentável, perdemos ao longo das décadas de "besteirol" econômico, que se seguiu algum tempo depois do curto milagre plantado pela dupla dinâmica, Campos-Bulhões.

Nelson Rodrigues, o profeta dos nossos desacertos e pirraças sociais, estava certo. Neste país, foi idiota tentar ser objetivo. Tivemos que gramar muitos equívocos, como ainda hoje, para nos certificar de que as mensagens do herói estavam, de fato, certas. Mesmo assim, mesmo depois que o muro de Berlim caiu sobre nossas cabeças, ainda somos parceiros de ilusões. Falta-nos a histamina da convicção firme, a visão límpida que Roberto Campos sempre nos quis proporcionar.

Se já percorri o Campos estadista, o profeta implacável, o mensageiro da razão, não posso deixar de trazer para o vale dos mortais o herói que vive no topo da montanha. Não desejo mitificar quem sempre se ocupou, ele mesmo, de destruir mitos e crenças falsas.

O herói é, sobretudo, o homem. Orador de tiradas fabulosas, freqüentador dos mais requintados salões, era o mesmo homem quase tímido, capaz da piada bem-humorada, despojado de vaidades para além do território de sua biblioteca. Houve, por trás de sua montanha, sempre uma estrela - Stella -, brilhando altaneira...

De Drummond, falando de Manoel Bandeira, sobre seus planos de recolher-se a Pasárgada, tomo, por empréstimo cordial, a linha definitiva sobre nosso Herói da Razão:

Não foste embora para Pasárgada Não era teu destino.

Não te habituarias lá Em teu território próprio, intransferível Nem Rei nem amigo de rei és puramente aquele lúcido e dolorido homem experiente que subjugou seu desespero a poder de renúncia, vigília e ritmo.

De fato, sobre Roberto Campos, para sempre o Herói da Razão, não carece ressaltar mais nada. O tempo dirá. Aliás, a amizade não conversa por palavras. O que se diz, se mente. A beleza de ser amigo não versa sobre pensar nem dizer. Ao coração, como à vida de um herói, basta ser. Intransitivamente.

O Estado de São Paulo, 14 de outubro de 2001

Paulo Rabello de Castro


Autor(es)

Roberto Campos