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26/07/2018

O Homem mais lúcido do Brasil

Conheci Roberto Campos em 1939. Ele acabara de entrar para o Itamaraty após o concurso que se seguiu ao meu (1937) e, embora com uma diferença de apenas um mês na idade, adiara sua decisão profissional após haver passado uns anos no seminário. Lembro-me apenas de um jovem de poucas palavras, introvertido e com um jeito algo rebarbativo de mato-grossense. Foi no período do governo JK que principiei a me dar conta de sua presença no setor público do cenário nacional. 

Soube, mais tarde, que ele estudara economia matemática, na Universidade da Califórnia, e que, durante um estágio em nossa missão junto à ONU, fora graduado pela Universidade de Columbia, em Nova York. Sua capacidade excepcional já devia haver sido aquilatada a ponto de ser designado, ainda Segundo Secretário, para integrar a delegação brasileira à Conferência de Bretton Woods, 1944, que procurou estabelecer a estrutura monetária e financeira do mundo após a 2.ª Guerra Mundial. É provavelmente o último sobrevivente dessa reunião histórica. Acredito que tenha sido, nessa ocasião, que travou conhecimento com Eugenio Gudin e Otávio Gouveia de Bulhões, futuros ministros da Fazenda que deviam dar os primeiros passos do País na direção de uma economia liberal. Daí por diante, a carreira de Roberto Campos cresceu aceleradamente como tecnocrata eminente, representando o Brasil em órgãos especializados da ONU, UNRRA, GATT, CEPAL e na Comissão Preparatória da Organização Internacional do Comércio. Seu papel de destaque na Comissão Mista Brasil-Estados Unidos em 1951, na Presidência Getúlio Vargas e, posteriormente, durante o governo JK, o elevou ao pináculo da tecnocracia. Foi o fundador do BNDES. Na época, creio que ainda atribuía ao Estado a primazia no estímulo e condução do desenvolvimento. 

Sendo eu cônsul -geral em Zurique, recebi Roberto Campos em fins de 1961, como chefe da Missão Especial junto aos governos europeus para o que, eufemisticamente, se denominava "cooperação econômica". Em outras palavras, seu trabalho era renegociar a dívida do Brasil, no período de anarquia goulartiana, evitando uma demonstração ainda mais clamorosa daquilo que ele iria qualificar como a nossa "cultura do calote". Foi por volta de 1969/70 que, já como embaixador em Israel, assisti à sua participação num seminário, em Jerusalém, que reunia a fina-flor do pensamento econômico mundial. Pude então apreciar como o Roberto se movia com a intimidade e segurança absoluta de alguém do mesmo nível intelectual das sumidades internacionais ali presentes. 

Não me estenderei sobre outros contatos que com ele mantive durante o governo Castello Branco - sendo eu sub-secretário Geral Adjunto para os Negócios da Ásia e Europa oriental. Ele atingira o apogeu da carreira. Era o ministro que desbravara e preparara o terreno, permitindo que outros recolhessem os louros do "Milagre Brasileiro" dos anos 70. Quando Figueiredo foi indicado para suceder Geisel, recebeu a primeira grande decepção de sua vida profissional. Por intermédio do general Golbery, Figueiredo o convidara para assumir a pasta das Relações Exteriores. Embaixador em Londres, ele já se preparava para partir quando os famosos "barbudinhos" terceiro-mundistas da Casa, liderados pelo ex-ministro Azeredo Silveira, se congregaram para forçar Geisel a dissuadir seu sucessor da escolha. No lugar de Roberto, outro colega ocupou o cargo. Nos cinco anos seguintes, fui pessoalmente testemunho de omissões e distorções da política do Itamaraty, como no "escândalo das Polonetas", 4 bilhões de dólares entregues de mão beijada aos comunistas de Varsóvia e outros 4 bilhões a "repúblicas populares" falidas. Tal política irracional veio a constituir o mais aberrante exemplo de irresponsabilidade dado pela diplomacia de um país que, quando não toma cuidado, "n´est pas sérieuxe"... Roberto Campos pagou caro por sua lucidez, por sua coragem na defesa de idéias que apontavam para o futuro do Brasil. Foi alegremente alcunhado de Bob Fields. 

Foi caluniado como "entreguista" e vendido a interesses americanos. Foi detestado por aqueles que não o conheciam e traído por amigos, enquanto não deixava de merecer o reconhecimento de alguns de seus críticos mais ferozes. No Congresso, foi respeitado, mas, ao final, o povo carioca, pouco instruído e contaminado por certa imprensa marrom, a ele preferiu para o Senado um medíocre demagogo. Optou então por dedicar-se exclusivamente àquilo que mais adequadamente se conciliava com sua admirável inteligência: escrever. Seus livros e seus sueltos semanais, numa rede de grandes jornais em todo o País, revelaram uma penetração crítica que atingia profundamente o ponto crucial da problemática brasileira. Num povo de emotivos e impulsivos irracionais, Campos jamais desistiu de apelar para a razão e o bom senso. Gostava de citar Gilberto Amado, que declarava gozar de verdadeiros orgasmos de prazer mental cada vez que encontrava um compatriota capaz de estabelecer uma relação de causa e efeito. Frio, dando às vezes a impressão de mal-humorado, dotado no entanto de um "humor" ferino e capacidade de granjear fortes laços de amizade, ele representa a entrada do Brasil na Idade da Razão cartesiana, sem a qual dificilmente solucionaremos nossos problemas econômicos e políticos. Foi aquele que, risonhamente, melhor soube enfrentar o neo-burrismo de nossa e "intelligentzia sinistra". Por isso o considero o estadista mais lúcido que nossa cultura pública produziu nestes últimos anos - digno sucessor dos grandes liberais brasileiros, Cairu, Uruguai, Silvestre Pinheiro Ferreira, Mauá, Silveira Martins, Rui, Milton Campos, Gudin e Bulhões.

 

J.O. de Meira Penna


Autor(es)

Roberto Campos