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26/07/2018

O homem que salvou o Brasil de duas crises

O Estado pede-me para falar de Roberto Campos, que conheci ainda jovem, como presidente do BNDES, e com o qual convivi cinco anos na embaixada do Brasil, em Londres, durante as duas crises do petróleo, entre 1973 e 1976, e depois de 1980 a 1983, onde descobri uma homem de uma generosidade imensa, quase inacreditável. 

O presidente Geisel o respeitava muito, mas o temia ainda mais. Campos foi, desde os primeiros dias, o mais severo, ferrenho, incansável e consistente inimigo das reservas de mercado e do monopólio estatal do petróleo, assunto que, seguramente, conhecia muito mais que o próprio presidente. Durante a 2.ª Guerra Mundial, diplomata de carreira, Campos serviu na embaixada brasileira em Washington e era o encarregado de coordenar as compras e embarques de petróleo para o Brasil. "A cada petroleiro que saía, eu rezava para que não fosse afundado", contava Campos. 

Geisel, para quem o monopólio era um dogma, mais que uma religião, convidou Roberto Campos para a embaixada de Londres com o duplo objetivo de afastá-lo do cenário nacional, onde sua presença era incômoda e, ao mesmo tempo, utilizar seus conhecimentos sobre a geopolítica do petróleo (estávamos em meio à primeira crise, em 1973) e seus contatos financeiros na City de Londres, onde Campos era conhecido e respeitado desde que fora ministro do Planejamento, e conseguir empréstimos bancários para pagar à vista um petróleo cada vez mais caro. 

Entre 1973 e 1980, foram levantados empréstimos da ordem de US$ 60 bilhões, a maior parte em Londres, para comprar um petróleo que faltou no mundo inteiro, mas não no Brasil. Eu mesmo o vi ao telefone, negociando empréstimos para obter um dinheiro que nem entrava no País. Ficava lá mesmo, em Londres. Eram os petrodólares que vinham dos países árabes, passavam pela City e voltavam para eles numa reciclagem contínua que, no caso brasileiro, acabou respondendo pela metade da dívida externa que hoje ainda carregamos. 

Geisel mandou Campos para Londres com aquela importante missão, mas, ao mesmo tempo, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Azeredo da Silveira, cortava as verbas da embaixada. Principalmente as de comunicações, que eram basicamente feitas por telex, e de representação, justamente aquelas que poderiam facilitar a divulgação, no Brasil, de seus discursos, pronunciamentos e entrevistas, que sempre defendiam seus princípios liberais de abertura de mercado e atração de investimentos. 

Campos convidou-me para ser seu assessor cultural e de Imprensa, a título de contratado local, ou seja, com a remuneração desestimulante de US$ 1.500 por mês. Complementava meu salário escrevendo para O Estado de S.Paulo, com o pseudônimo de Altino Tavares, artigos esporádicos, muitas vezes criticando o governo, a Petrobrás e a reserva de mercado da informática, criada no regime militar. 

Mesmo sem recursos e sob intensa pressão de Brasília, Campos, que era sempre procurado pelos jornalistas, fazia chegar à imprensa, por meio dos mais engenhosos artifícios, os seus discursos, os seus pronunciamentos polêmicos, em que defendia a política econômica do governo e os interesses do Brasil na captação de recursos que escassearam, principalmente depois da crise financeira de 1982, quando todas as portas se fecharam para o País. Em 1973-74, a embaixada de Londres salvou o País do racionamento de petróleo, que atingiu o mundo inteiro. Em 1982, evitou o default. Tudo isso foi fruto do trabalho pessoal, angustiante a árduo de Roberto Campos. 

Cada entrevista, cada discurso de Campos, defendendo a abertura do mercado brasileiro e a atração, não de empréstimos onerosos, mas de investimentos produtivos, possíveis só com o fim dos monopólios e das reservas de mercado, uma religião para o regime militar, gerava violentas reprimendas e advertências do ministro Silveira. Campos lia e jogava na cesta... 

E lá continuávamos nós a divulgar seu pensamento econômico pelo Brasil afora, do Amapá ao Rio Grande do Sul, e pela imprensa brasileira e inglesa com as quais ele se encontrava quase que diariamente, e nas universidades, onde era requisitado a falar quase todas as semanas. Geisel conseguiu o primeiro dos dois objetivos que tinha ao mandar Roberto Campos para Londres - arranjar empréstimos para comprar petróleo e salvar a imagem da Petrobrás - mas não o segundo, que era silenciá-lo. 

Alguns acontecimentos marcantes daquele período vêm-me à memória.Um deles, foi a guerra das Malvinas, em 1982. Campos discordava do governo britânico, achava que as Malvinas eram da Argentina e não da Grã-Bretanha. Ele tinha uma posição até mais firme que a do próprio governo brasileiro. Eu discordava e discutíamos muito. Um dia, Campos perguntou-me: afinal, por que você está defendendo o colonialismo inglês? E eu, refletindo o pensamento de grande parte dos funcionários da embaixada, respondi que seguramente os residentes das Malvinas prefiriam o governo inglês ao sangrento regime militar argentino. 

O governo britânico conhecia a posição de Campos, não gostava e o vigiava. Quando o Brasil vendeu à Argentina dois ou três aviões Bandeirantes, contrariando a política de equidistância, foi um Deus-nos-acuda, em Londres. Um representante do Foreign Office foi à embaixada pedir explicações em nome do governo britânico. Lembro-me bem da resposta de Campos: 

- Eu acho que os senhores não entenderam bem. Não mudamos nada. Cotinuamos mantendo a nossa posição, tanto é que reservamos o mesmo número de Bandeirantes ao governo britânico, caso queira comprá-los. 

E o diplomata britânico saiu de cara emburrada, pois o que a Royal Navy poderia fazer com os nosso aviõezinhos, comparados com os seus jatos poderosos que cortavam o Atlântico? Campos ria muito quando contava essa história. 

Mas, de todas as lembranças que Roberto Campos - esse grande amigo, esse grande economista e corajoso brasileiro, incompreendido por sua geração - me deixa, a mais marcante é a de imensa, incomensurável generosidade. Naqueles cinco anos em que convivemos em Londres - e depois, no Brasil - não houve uma pessoa necessitada que eu levasse a ele com algum problema que Campos não resolvesse. Quando não podia resolver o problema ele próprio, encaminhava a solução junto a alguém mais. E não deixava o assunto morrer: chamava-me à sua sala para saber se a tal pessoa, para ele uma simples desconhecida, havia sido atendida e se ele, embaixador, tinha de fazer algo mais para ajudá-la. 

É esse homem de coração enorme e alma aberta, sensível a todo tipo de sofrimento alheio, que está marcado para sempre na minha memória. É esse o Roberto Campos que agora deve estar conversando com Deus, como dois velhos amigos. 

 

 


Alberto Tamer


Autor(es)

Roberto Campos