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26/07/2018

Autor brilhante, frasista com senso de humor afiado

Roberto Campos ficou conhecido por sua ironia e seu sarcasmo, como também pela facilidade em transitar entre os universos dos números e das palavras, sempre com raciocínios precisos. Essa qualidade nem mesmo seus adversários políticos e ideológicos deixaram de reconhecer. Estudou economia em Washington e doutorou-se na Universidade de Colúmbia, em Nova York. Além do apurado domínio da língua portuguesa, atestado em livros, discursos e saborosas entrevistas, aprendeu a falar bem inglês, francês e latim, sendo capaz de expressar-se também em grego, italiano, espanhol e alemão. 

Sua obra é quase toda voltada para temas políticos e econômicos. Economia, Planejamento e Nacionalismo (1963), A Moeda, o Governo e o Tempo (1964), Ensaios contra a Maré (1969) e A Nova Economia Brasileira (1974) são alguns dos títulos mais conhecidos. Mas nenhum deles teve tanta repercussão quanto o volumoso livro de memórias A Lanterna na Popa, lançado em 1994. O título foi tomado de empréstimo de Samuel Coleridge. O escritor inglês exaltara a propriedade da lanterna de popa de iluminar as ondas que ficam para trás, quando o barco passa, e que tendem depois à serenidade, como as paixões humanas. 

É a metáfora escolhida por Campos como bandeira para um conjunto de vívidos perfis, não isentos de pinceladas incisivas, de pessoas com quem tivera oportunidade de trabalhar - desde presidentes da República até políticos renomados como San Tiago Dantas e Carlos Lacerda. Fala de personalidades do mundo cultural que foram seus amigos íntimos, como o escritor Nélson Rodrigues e o pintor Di Cavalcanti, do qual recebeu 16 quadros como pagamentos de dívidas. 

Como a ex-premier britânica Margaret Thatcher, ele tornou-se discípulo declarado do austríaco Friedrich August von Hayek, prêmio Nobel de Economia em 1974, que preconizava um Estado tão reduzido que não deveria sequer deter o monopólio da impressão do dinheiro. A exemplo do mestre, Campos notabilizou-se como ferrenho defensor da abertura de mercado. Sua linha de pensamento econômico é rotulada de ultraliberal. "Basicamente, eu sou um idiota da objetividade e um viciado da coerência", definiu-se certa vez Campos, construtor de frases pitorescas.

 


Renato Modernell


Autor(es)

Roberto Campos