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26/07/2018

No último discurso, a síntese do pensamento

O deputado Roberto Campos (PPB-RJ) ocupou pela última vez a tribuna da Câmara em 31 de janeiro de 1999, para despedir-se dos 16 anos de Parlamento. Durante um discurso crítico à política brasileira, que definiu como "mesmicee", Campos foi interrompido dezenas de vezes por aplausos e apartes elogiosos. Causou impacto o tom melancólico de suas palavras ao reconhecer o "fracasso de uma geração" em promover o desenvolvimento sustentável no País. A seguir, os principais trechos do discurso de despedida: 

Para Campos, não levar o País ao desenvolvimento sustentável foi o fracasso de sua geração 
Minha melancolia não provém de saudades antecipadas de Brasília, cidade que considero um bazar de ilusões e uma usina de déficits, e sim do reconhecimento do fracasso de toda uma geração - a minha geração - em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado. Continuamos longe demais da riqueza atingível e perto demais da pobreza corrigível. O Brasil, conquanto capaz de saltos de desenvolvimento, não aprendeu a tecnologia do desenvolvimento sustentado. É um saltador de saltos curtos, e não um corredor de resistência. Nossa Carta é intervencionista no econômico, utópica no social e híbrida no político. Os militares concluíram seu longo reinado com dois erros: não fizeram a abertura econômica antes da política; adotaram a política de reserva de mercado na informática, que atrasou em pelo menos 15 anos nossa modernização tecnológica. Sempre acreditei que as nações só podem ser salvas pelo claro sucesso, que gera confiança, ou pelo fracasso exemplar, que provoca mudanças. O perigo está no meio-sucesso, em que tivemos, por exemplo, anormal tolerância para com a inflação. É excelente ser bem falado na saída. É melhor do que ser bem recebido na entrada. Tenho para mim que a juventude não é provavelmente um fenômeno etário, mas uma capacidade de surpresa. Acho que a marca do homem honesto é a capacidade de arrependimento. O monopólio não é outra coisa senão a cassação de direitos econômicos, com efeitos sociais perversos, porque tende a criar uma burguesia estatal. A doença brasileira não é doença do setor privado, é do setor público. E essa doença se revela através do déficit fiscal. O Imposto de Renda foi imaginado num manifesto comunista como instrumento de destruição da burguesia, mas o capitalismo, com sua sabedoria espontânea, instintiva e inata, transformou-o em instrumento de flexibilização do capitalismo. Os economistas têm um grave defeito: não sabem traduzir em textos legais, realistas e praticáveis as idéias econômicas. O grande evento desta década, que esperávamos marcasse a retomada do crescimento, mas que será apenas de transição, foi sem dúvida o Plano Real. Trouxe um avanço econômico e cultural que não deve ser subestimado, apesar de nuvens negras e tempestades à vista. Não conseguiremos ingressar numa trajetória de desenvolvimento sustentado se não corrigirmos duas carências: a falta de poupança doméstica e as deficiências de educação básica. O governo tem-se empenhado corretamente em deslocar maiores recursos para a educação básica, mas ainda não teve ânimo para desafiar o tabu da universidade pública gratuita, à qual os pobres têm difícil acesso e na qual os ricos e remediados recebem subvenção desnecessária. Como congressista, não consegui ser nem um grande articulador nem um grande operador nem um grande mobilizador. Fui antes um pregador, quase um profeta sem carisma, pois que conseguia detectar na bruma do futuro a silhueta das coisas, sem grande capacidade para mobilizar outros em função dessas visões. Previ o colapso do socialismo, a vitória das economias de mercado, a necessidade do adelgaçamento do Estado pela privatização, a crise previdenciária tornada inevitável pelas mutações demográficas e a necessidade de abertura internacional. Insisti em ser, como dizia Nelson Rodrigues, "um idiota da objetividade", procurando equidistância entre o fel de Cassandra e o mel de Pangloss. E aceitei muitas vezes a solidão da verdade, de preferência às blandícias aconchegantes do erro. Sempre achei que um dos mais graves problemas dos subdesenvolvidos é sua incompetência na descoberta dos verdadeiros inimigos. Assim, por exemplo, os responsáveis pela nossa pobreza não são o liberalismo nem o capitalismo, em que somos noviços destreinados, e sim a inflação, a falta de educação básica, e um assistencialismo governamental incompetente, que faz com que os assistentes passem melhor que os assistidos. Os promotores da inflação não são a ganância dos empresários ou a predação das multinacionais, e sim esse velho safado, que conosco convive desde o albor da República: o déficit do setor público. Os que ficam nesta Casa têm pela frente uma formidável agenda reformista. Desejo-lhes, como na oração do teólogo Reinhold Niehbuhr, que Deus Ihes dê serenidade para aceitar as coisas que não possam mudar, coragem para mudar as coisas que possam mudar e sabedoria para saber a diferença.


Autor(es)

Roberto Campos