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23/01/2019

PAPA FRANCISCO AOS PARTICIPANTES NO FESTIVAL DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

MENSAGEM VÍDEO DO PAPA FRANCISCO 
AOS PARTICIPANTES NO FESTIVAL DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

Verona, 24 de novembro de 2016

 

Uma saudação cordial a todos vocês que participam do VI Festival da Doutrina Social da Igreja. O tema deste ano é: «No meio do povo». Ele exprime uma grande verdade: somos feitos para estar com os outros — eu recordei isso após a minha eleição como bispo de Roma. A nossa humanidade se enriquece muito se estivermos com todos os outros, em qualquer que seja a sua situação. É o isolamento que faz mal, não a partilha. O isolamento aumenta o medo e a desconfiança, e impede que usufruir da fraternidade. É preciso dizer que corremos mais riscos quando nos isolamos do que quando nos abrimos ao outro: a possibilidade de sofrermos não está no encontro, mas no fechamento e na rejeição. O mesmo é válido quando nos ocupamos de outra pessoa: de um doente, um idoso, um imigrado, um pobre, um desempregado. Quando nos ocupamos do outro, complicamos menos a vida do que quando permanecemos concentrados só em nós mesmos.

Estar no meio do povo não significa só estarmos abertos e encontrar-nos com os outros, mas também nos deixarmos encontrar. Temos necessidade de ser olhados, chamados, tocados, interpelados, somos nós que precisamos dos outros para nos tornarmos partícipes de tudo o que os outros podem nos oferecer. A relação exige este intercâmbio entre pessoas: a experiência nos diz que geralmente recebemos dos outros mais do que oferecemos. Entre nós há uma autêntica riqueza humana. São inúmeras as histórias de solidariedade, de ajuda, de apoio que se vivem nas nossas famílias e comunidades. Impressionante como algumas pessoas vivem com dignidade as dificuldades econômicas, o sofrimento, o trabalho difícil, as provações. Ao nos encontrarmos com estas pessoas tocamos com as mãos a sua grandeza e recebemos como que uma luz, pela qual fica claro que podemos cultivar uma esperança para o futuro; podemos acreditar que o bem é mais forte do que o mal, porque essas pessoas existem. Estando no meio delas, temos acesso ao ensinamento dos fatos. Dou um exemplo: contaram-me que recentemente faleceu uma jovem de 19 anos. A dor foi imensa e muitos participaram no funeral. Todos se admiraram não só pela ausência de desespero, mas pela percepção de uma determinada serenidade. Depois do funeral as pessoas comunicavam a admiração de terem saído da celebração aliviadas de um peso. A mãe da jovem disse: «Recebi a graça da serenidade». A vida diária é entrelaçada por estes fatos que marcam a nossa existência: eles nunca perdem a eficácia, mesmo se não fazem parte das manchetes dos jornais. Acontece exatamente isto: sem discursos nem explicações, compreendemos o que vale ou não na vida.

Estar no meio do povo significa também entender que cada um de nós faz parte de um povo. A vida concreta é possível porque não é a soma de muitas individualidades, mas a articulação de tantas pessoas que concorrem para a constituição do bem comum. Permanecer unidos nos ajuda a ver o todo. Quando vemos o todo, o nosso olhar se enriquece e fica evidente que os papéis que cada um desempenha no âmbito das dinâmicas sociais nunca podem ser isolados nem absolutos. Quando o povo fica separado de quem comanda, quando se fazem escolhas em virtude do poder e não da partilha popular, quando quem comanda é mais importante do que o povo e as decisões são tomadas por poucos, são anônimas ou ditadas sempre por emergências verdadeiras ou presumidas, então a harmonia social é posta em perigo com graves consequências para as pessoas: aumenta a pobreza, a paz fica ameaçada, é o dinheiro que manda e as pessoas não estão bem. Portanto, estar no meio das pessoas faz bem não só à vida dos indivíduos, mas é um bem para todos.

Estar no meio das pessoas evidencia a pluralidade de cores, culturas, raças e religiões. É possível tatear a riqueza e a beleza da diversidade. Só com uma grande violência se poderia reduzir a variedade em uniformidade, a pluralidade de pensamentos e de ações em um único modo de fazer e de pensar. Quando estamos no meio das pessoas, tocamos a humanidade: não está presente apenas a cabeça, mas sempre também o coração, há mais realidade e menos ideologia. Para resolver os problemas das pessoas é preciso começar a partir de baixo, colocar a mão na massa, ter coragem, ouvir os últimos. Penso que nos vem espontâneo perguntarmo-nos: como fazemos isto? Podemos encontrar a resposta olhando para Maria. Ela é serva, é humilde, é misericordiosa, caminha conosco, é concreta, nunca está no centro da cena, mas é presença constante. Se olharmos para Ela, encontraremos o melhor modo para estar no meio das pessoas. Olhando para Ela, podemos percorrer todos os caminhos do ser humano sem medo nem preconceito, com Ela podemos nos tornar capazes de não excluir alguém. Estes são os meus votos para todos vocês.

Antes de saudá-los, desejo agradecer ao Bispo de Verona pela acolhida, a todos os voluntários pela disponibilidade e generosidade, ao padre Adriano Vincenzi pelo trabalho realizado para o conhecimento e a atualização da Doutrina Social da Igreja. E recomendo: não se esqueçam de rezar por mim. Obrigado!

 


Autor(es)

Papa Francisco