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20/04/2004

A democracia midiática

O modelo democrático possível no século 20 foi a velha democracia representativa. Se as pessoas não sabem governar, presume-se, ao menos, que saibam escolher quem as bem governe.

A Constituição brasileira de 1988 acenou com um novo paradigma: a democracia participativa. Não por acaso, a célebre disposição "todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido" ganhou nova dicção. Agora, todo o poder continua a emanar do povo. Mas este "o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".

Ainda foi tímida a implementação da democracia participativa. Além dos institutos já conhecidos do plebiscito e do referendo, o constituinte introduziu a iniciativa popular. A cidadania pode instaurar o processo legislativo e produzir o ordenamento que entender adequado para reger a vida social.

Melhor seria se tivesse adotado também o veto popular, para expurgar do ordenamento os comandos legislativos incondizentes com a maioria da população e o "recall". No Brasil, o instituto anglo-saxão só é utilizado para a reposição de peças automobilísticas defeituosas, não para cassar defeituoso mandato de quem descumpre promessas eleitorais.

Mas foi um avanço democrático. E se chegou a alimentar a esperança de que a inclusão digital, o acesso facilitado à comunicação eletrônica, seria alavanca para intensificar a participação cidadã na condução da coisa pública. Essa a democracia digital em que acreditei. A possibilidade de cada pessoa, ao acessar um computador, enviar mensagens ao detentor de mando, para sinalizar qual a conduta exigível ou esperada.

Em lugar disso, outros enxergam no presente a substituição da democracia representativa não pela democracia participativa, mas pela democracia midiática. Esta preservaria a representatividade, mas adicionaria elementos eletrônicos às eleições, ao acompanhamento da vida parlamentar e à reprodução de morais predominantes.

Seu veículo principal é a televisão, cujo instrumento básico é o jornalismo, formador da opinião pública. Ao acompanhar os noticiários, o cidadão se sente controlador dos acontecimentos. Se a imprensa dessacralizou a palavra, a TV desmistificou a imagem. O telespectador é levado não só a acreditar no visível - crê-se naquilo que se vê -, como a admitir que não exista o invisível.

É de Régis Debray a observação de que o Estado-Educador cedeu espaço para o Estado-Sedutor. O primeiro, ancorado na razão, acredita na persuasão como via de obtenção do consenso. Sua concepção é abstrata, calcado na lei e na versão republicana, regime sem corpo, fruto da conjugação de vontades abstratas. O Estado-Educador serve-se da repressão física legítima - o monopólio da força - como mecanismo de controle.

O Estado-Sedutor é a entidade da videosfera, do controle pelo estímulo, da cretinização da massa, da videopolítica. Ele diviniza o presente, faz do povo um telecorpo otimista e antenado e do governo, um produto veiculado, propalado e recomendado pela mídia.

Na visão de Edson Passetti, a ecologia, o humanitarismo e o cultural passam a ser as rubricas da sociedade do contato, de uma sociedade de suposta superioridade da sociedade civil. No Estado-Educador importava educar o educador e julgar os juízes. No Estado-Sedutor o que importa é seduzir os sedutores, de forma a enraizar a comunicação sob a forma de publicidade e marketing. São as sondagens que dão atualidade aos desígnios da sociedade civil e estes deverão ser atendidos, seletivamente, pelo governo. Pois o governo é o cliente e produto preferencial.

Já não importa o conteúdo da mensagem, mas a retórica das imagens. A figura política passa a ser vedete na parafernália eletrônica, com instituição de uma liturgia televisual propícia ao populismo e fundada na trindade informação-comunicação-técnica. O telespectador é o alvo no jogo das instantaneidades emocionais, que tomam o l
Autor(es)

José Renato Nalini