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12/11/2014

O espectro de Newton: a Parte e o Todo

          Se alguém tomasse para si cada uma das cores do arco-íris e dissesse: “Esta é a cor melhor e mais bela, a única com valor, e deve predominar sobre as outras!” Se fizesse delas o seu ideário de vida, a ponto de tudo colorir com aquele tom, teria feito uma revolução na natureza: transformar uma parte do todo (ou da unidade) em outro todo, fazendo de uma visão ou pensamento parcial da realidade, outra “totalidade”.

          Dessa ideia parcial totalizada decorreriam várias ideias contrapostas: cada “dono” de uma cor a transformaria numa ideia superior, mais valiosa que as demais, estabelecendo conflito odioso entre elas, e não a harmonia do diálogo. Pois quem vê a parte não vê o todo; mas quem vê o todo (ou o uno) vê todas as partes dele. Quem faz de uma parte um todo, “totaliza” aquela parte da realidade, tem uma visão parcial e, portanto, distorcida do universal. O mundo real, tanto o da natureza das coisas, como o metafísico das ideias, é o ser completo, universal, em concreção, e não o parcial, em isolamento. O mundo é feito de cores, “de ideias”, e não “de uma ideia”. Bem por isso, quem raciocina somente com uma parte da realidade cria uma visão “totalitária”, que, não obstante, é uma visão apenas “parcial” do todo.

          Um cardiologista, por exemplo, se pensar que sua especialidade (visão ou estudo parcial da medicina) é a mais importante, porquanto se o coração para, cessa a vida humana, terá uma visão parcial de sua profissão, pois todos sabemos que o coração só por si não basta para manter a vida, mas também os pulmões, os rins, o sangue etc., são necessários, uma vez que  todas as coisas na natureza e no homem estão perenemente inter-relacionadas. O jurista italiano Carnelutti já havia analisado que, do ponto de vista da metodologia do Direito, “causa pena o cientista que, tendo sobre sua mesa um pedaço cortado do corpo do Direito, para fazer sua análise, se ilude ao crer que aquele pedaço forma um Direito inteiro”[1].

          Quem não sobe ao cume da montanha não terá a visão do infinito, que é o campo da mente humana: os céticos sempre se equivocaram, pois a inteligência do homem foi criada com aptidão para captar todas as realidades da natureza, do pensamento e dele próprio; se o homem ainda desconhece muitas coisas é porque não foram descobertas, mas muitas descobertas estão se realizando diuturnamente, bastando verificar a velocidade do desenvolvimento cultural e científico da humanidade no último século! Mas quem adota uma visão ou postura parcial das coisas permanece na planície, cujo horizonte será sempre limitado e finito, afirmando a sabedoria popular que “não vê um palmo adiante do nariz”.

          A visão da universalidade da natureza e do homem, como é a palheta das cores, quando atuada no campo da cultura, das ideias políticas ou das religiões, é expressão do pluralismo enfatizado na Constituição brasileira (Preâmbulo e art. 1º); ao revés, a valorização exacerbada de uma ideia, de um aspecto cultural, político, econômico ou religioso é exercício de um monismo que se transforma em fundamentalismo, radicalismo ou, em palavra-chave, numa ideologia.

          Enquanto a visão pluralista é abrangente de todas as manifestações dos homens, numa sociedade aberta, e portanto amplia livremente as possibilidades de desenvolvimento integral do ser humano, pela inclusão de todas as demais expressões, a visão monista é um reducionismo anti-humano porque a adoção de um só pensamento ou práxis limita o mundo das idéias e da ação humana num só direcionamento, com a exclusão de todas as demais.

          O pluralismo, no entanto, que é centrífugo, mas não dispersivo, promove a inclusão das diversas ideias (ou cores) para um amplo diálogo[2], no inter-relacionamento de homens, grupos intermédios, partidos políticos, ideias culturais e pensamentos religiosos diversos; o monismo, que é centrípeto e individualista, promove, por uma dinâmica que lhe é intrínseca, a exclusão das ideias ou tendências diferentes, que se tornam “inimigas”, “adversárias”, “reacionárias”, provocando a polêmica ou conflito, que separa e mata, e não o diálogo que aglutina e vivifica.

          O equilíbrio entre as duas tendências ou tensões está em que o pluralismo não pode excluir nada ou ninguém do diálogo (como no confronto entre as maiorias e as minorias de qualquer espécie), mas não deve incluir aquilo que não é objeto de livre discussão, como a natureza própria das coisas ou dos homens, quanto às leis naturais que devem ser respeitadas, como o direito natural à vida e à liberdade, à dignidade integral da pessoa humana e suas decorrências, os chamados bens inegociáveis.

          E o monismo “puro” não existe isolado da natureza e do homem, porque estes são essencialmente multifários, variegados, multifacetados, de sorte que, em relação ao homem, sobretudo, qualquer reducionismo é fraudador da inteligência, coator da liberdade e castrador da vontade, virtudes ou características naturais estas que constituem a íntegra da dignidade do ser humano. Racismos, nacionalismos, bairrismos, trabalhismos, classismos sociais, fundamentalismos religiosos, são ideias parciais, monistas, totalitárias, cujas sementes há dois séculos vêm sendo plantadas , gerando “frutos amargos” que já convulsionaram - pela violência das guerras e das perseguições políticas - todos os povos da Terra, quase sem exceção, sem que deles resultasse um efetivo avanço para a humanidade.

 



[1]. Francesco CARNELUTTI. Metodología del Derecho, p. 62; antes afirmara que “desfazer o Direito em pedaços não é o Direito, senão uma parte do Direito e a realidade da parte exclui a realidade do todo”; e mais, que “para ver o Direito vivo há que subir o mais alto possível, onde o olho possa abarcar, o quanto possa, sua imensa realidade”.

[2]. Isto é, para o ágape, símbolo da amizade humana total e plena


Autor(es)

Carlos Aurélio Mota de Souza