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08/02/2004

Brasil 2004: possibilidades e desafios

Os dados macroeconômicos do Brasil são animadores: inflação sob controle e câmbio estável, risco Brasil em queda, superávit na balança de pagamentos. Some-se a isto a crescente presença internacional do nosso País e da liderança do Presidente Lula. São indicadores que abrem boas perspectivas para 2004 e os próximos anos.

O mais importante é que vão-se consolidando os sinais de retomada do desenvolvimento econômico e social de forma sustentada. As conquistas no setor agropecuário e agroindustrial foram notáveis, em áreas como café, algodão, açúcar e álcool, carnes, soja e milho. Podemos ser um país autosuficiente na produção de trigo e garantir, com fartura, arroz e feijão na mesa de todos os brasileiros. Ao mesmo tempo, fica cada vez mais nítida a saudável convivência entre o agronegócio e a agricultura familiar, mostrando que as exigências da reforma agrária e do princípio da função social da propriedade e do lucro não afetam aqueles proprietários que estão gerando empregos, incorporando novas tecnologias, produzindo alimentos para o consumo interno e para exportação e pagando impostos que possibilitem novos investimentos em infra-estrutura e na área social.

A partir da agropecuária, novas cadeias produtivas se articulam e se desenvolvem, como a indústria de tratores, máquinas e insumos e o processamento de produtos agrícolas, com reflexos positivos sobre o desenvolvimento de arranjos produtivos locais e regionais, que estimulam o empreendedorismo, o surgimento de novos empresários com crescente sensibilidade social e ambiental, a formação profissional voltada para o mercado de trabalho, o aproveitamento criterioso dos recursos e das potencialidades das diferentes regiões de Minas e do Brasil. Da mesma forma, abrem-se novas possibilidades para a expansão da economia solidária, do cooperativismo, da união dos pequenos.

A estabilização da economia permite-nos concentrar nossa atenção sobre os grandes desafios nacionais. Três deles são urgentes e fundamentais, porque dizem respeito ao próprio projeto nacional, à soberania e segurança do povo brasileiro. O primeiro deles é tornar o País menos dependente do mercado externo. Está claro, claríssimo, que o Brasil precisa exportar e exportar muito, diversificando sua pauta de comércio e agregando-lhe mais valor. Mas não podemos esquecer o mercado interno: dos quase 180 milhões de brasileiros, menos de um terço alcançaram níveis satisfatórios de consumo. Mais de 100 milhões de compatriotas não consomem ou consomem muito pouco frente às necessidades fundamentais à dignidade humana. Cem milhões de pessoas formam um mercado potencial fantástico, que não pode ser desprezado, seja por razões éticas e patrióticas, seja por razões econômicas.

Precisamos superar a histórica advertência que nos fazem os autores desta obra coletiva monumental, que é a História Geral das Civilizações. Eis o que encontramos no XV volume, página 19, em análise sobre a América do Sul de há 100 anos: "É preciso exportar a todo custo, a fim de pagar os juros das dívidas externas: se a exportação enfraquece, a economia do país desmorona, arrastando a moeda nacional e, com ela, o governo. Este, não dispondo de fundo de reserva, nem de meios de ação sobre os bancos, tem de sujeitar-se à sua vontade e deixar que orientem, segundo os seus próprios interesses, a vida econômica. É, pois, o cliente estrangeiro quem estimula ou freia a produção, através de suas compras, e quem fixa os preços". É verdade que o mundo mudou nestes 100 anos, mas também é verdade que é preciso assegurar e defender permanentemente os interesses nacionais e comerciais do País.

Os outros dois problemas, correlatos com o anterior, são o desemprego e a violência. Penso que o Brasil, o governo nacional, os governos estaduais e municipais, a sociedade brasileira, todos temos que confrontar estes dois desafios, que não podem esperar e não podem ficar submetidos a lógicas aritméticas orçame
Autor(es)

Patrus Ananias