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03/08/2004

Universidade pública ou barbárie?

A invasão da reitoria e da sala do Conselho Universitário da Unicamp, no último 2 de julho, por um violento grupo de manifestantes, acrescenta um elemento de grande gravidade à profunda crise orgânica vivida pela universidade pública, cujas conseqüências mais preocupantes ainda constituem matéria de difícil mensuração. Foram utilizados métodos semelhantes aos das milícias fascistas, rostos encapuzados, gritos, arrebentando portas e ameaçando pessoas, em total desrespeito ao duplo caráter público da reitoria: o de ser, ao mesmo tempo, instituição representante da coletividade acadêmica e patrimônio público.

Diante da perplexidade geral, as questões que imediatamente devem vir à mente de todos remetem à quebra dos pressupostos básicos da convivência democrática e da vida social civilizada. Entre eles, como um dos principais, destaca-se a estratégia do diálogo exaustivo entre os representantes de pontos em desacordo.

A prática da negociação permanente, como condição irrenunciável de nossos modus vivendi e modus operandi no encaminhamento e resolução de nossas demandas, sejam elas quais forem, não deve ser objeto de vacilações. O abandono dessas premissas de convivência cívica somente nos pode conduzir ao pântano da intolerância e do autoritarismo sem regras e sem limites. A arte da tolerância, como sabemos, é também a arte dos limites da tolerância.

Encontrar os justos limites é exatamente um dos momentos altos da arte de fazer a grande política. Nessa medida, a violência bárbara contida no ato da invasão da reitoria é a negação pura e simples da política como modo de persuasão do outro. Por essa razão, o ato violento é vazio de sentido político, em essência é absolutamente despolitizador, pois enreda os seus participantes no simplismo maniqueísta de situar-se entre o bem e o mal, o falso e o verdadeiro.

Afinal, os sujeitos responsáveis pelo vandalismo cometido agem e falam em nome de quem? Onde e quando receberam delegação para executá-lo? A resposta a essa questão, que diz respeito às exigências e responsabilidades de sujeitos democráticos, não é sequer posta como problema às mentes autoritárias. Em seu primitivismo político, representar-se a si mesmos lhes basta.

A invasão de uma reitoria constitui um assalto inaceitável a uma instituição pública e, ainda, um ataque aos mais caros valores republicanos, que têm por suposto fundamental dotar a atividade política de cuidado e respeito ao que se patenteia como bem de todos. Seu mandatário, o reitor, recebe delegação que lhe é conferida por eleições livres e reguladas por procedimentos livremente acordados nas instâncias universitárias pertinentes. Sua autoridade é inquestionavelmente legítima e seus atos podem ser criticados nos vários órgãos colegiados em que os diferentes corpos que compõem a universidade têm representação proporcional à especificidade de suas funções.

É bom lembrar, diante deste novo episódio, que estamos sofrendo nos últimos anos, por parte de pequeno agrupamento político, várias agressões no âmbito de nossas universidades, exatamente nos momentos duros e difíceis de nossa luta por expansão do alcance do ensino público e da melhoria das condições de pesquisa e de docência. As violências são marcadas pelo insulto, pelo desrespeito a professores e colegas, diretores de unidade e reitores. Os agressores costumam, como todos os personagens despóticos, se auto-instituir como os únicos e justos defensores de determinada causa. Os que ouvem atentamente as vozes da História sabem bem como isso acaba.

A universidade pública vive, sim, uma crise orgânica aguda, faltam-lhe recursos financeiros adequados, carece cada vez mais de estímulo à pesquisa e à docência. Seu corpo está gravemente enfermo, pleno de fissuras, cisões e fraturas graves. Numa interpenetração de causalidades, de efeitos perversos sobre sua dinâmica, proliferaram nas últimas décadas, por todos os lados, os apologetas
Autor(es)

Walquiria Domingues Leão Rêgo