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31/03/2005

A revolução da mulher

Quando se fala tanto na revolução global causada pelos processos eletrônicos de comunicação, até o ponto de qualificarse a nossa era como sendo a da Informática ou da Cibernética, parece-me que assiste razão aos que põem antes a tônica na revolução da mulher, referindo-se ao papel que o chamado belo sexo passou a representar no mundo, subvertendo-lhe as coordenadas fundamentais.

Trata-se de um movimento silencioso e gradual, sem ímpetos e arroubos repentinos e espetaculares, cujas raízes se confundem com as da própria civilização, assinalando o ponto culminante de suas conquistas no desenvolvimento dos valores culturais. Não há dúvida que as condições de sua eclosão se devem sobretudo ao sexo masculino, com o seu avassalador predomínio no campo das ciências naturais e humanas, por mais que se diga que todo grande homem pressupõe uma grande mulher e seu trabalho comum complementar.

O certo é que , no giro de poucas décadas, a mulher veio competir com o homem em todas as suas atividades, não apenas nas que exigem apuradas inteligência e sensibilidade, como se dá com as letras e as artes, mas também nas que exigem vigor físico e muscular. A última delas é nas construções civis, para assentamento de tijolos e blocos de cimento.

Há poucos anos uma minoria, já agora a mulher predomina sobre o homem no exercício de muitas profissões. Para dar um exemplo, em 1930, em minha classe na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, com mais de 250 colegas, havia apenas duas moças, quando agora elas constituem maioria, não raro na vanguarda dos estudos.

Já agora estamos longe do tempo da senhora do lar que não tinha outra ocupação senão essa, constituindo o centro de gravidade da família, enquanto que, hoje em dia, prevalece o seu trabalho externo, confiados os filhos às babás e às creches.

Essa emancipação da mulher ocorreu sem perda de nível cultural, primando ela em muitos setores do conhecimento e das artes, superados antigos preconceitos quanto à sua capacidade criadora ou participante. Estamos perante um fato social novo, de outra natureza, como diversa expressão do eterno feminino, o qual, de uma forma ou de outra, representa sempre componente essencial de nosso ser social. Trata-se de um valor positivo, sobretudo no plano religioso, no qual, a meu ver, o catolicismo se sobressai por ser de Cristo e também de Maria.

Todavia, como toda luz possui a sua sombra, essa alteração substancial no papel da mulher representou uma queda no que se refere à estrutura familiar, mesmo quando ela não abre mão de sua concomitante missão de mãe ou de esposa. A família, que a Constituição continua considerando a base da sociedade, já não é a mesma, visto como o seu centro referencial sofreu uma inflexão violenta, alterado que ficou o pólo condicionador por excelência de seu equilíbrio, dependente da perene dedicação materna.

Diga-se o que se quiser a respeito, o que se deu foi uma diminuição no amor como vivência e convivência.

Como ninguém pode desfazer alterações criadas pela revolução da mulher, que, no dizer de Bobbio, é a maior revolução de nosso tempo, cabe-nos transformar esse assunto no maior problema de nosso tempo, reclamando a atenção dos filósofos, sociólogos, políticos, de todos, em suma, em busca de adequada solução, que vai desde a intimidade do lar até a responsabilidade da mídia eletrônica, pois a babá da criança abandonada a si mesma ou entregue aos cuidados de terceiros pode ser um deformador programa de televisão.

Pode-se dizer que uma das preocupações maiores deste começo de milênio é a indagação sobre a posição social da dona de casa, muitas vezes chefe de família, tão freqüente é o abandono imotivado da prole pelo marido ou pelo companheiro, tranqüilamente esquecido de seus deveres paternos.

Nesse sentido, sempre estranhei o alheamento do Ministério Público, ao qual cabe a primordial missão d
Autor(es)

Miguel Reale