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15/03/2007

A vinda do papa

Os preparativos, em São Paulo e em Aparecida, para a recepção do papa Bento XVI, com a participação do clero brasileiro, do Vaticano, de leigos e de autoridades, estão a demonstrar o prestígio que o sucessor de João Paulo II, em seu curto pontificado, já adquiriu - principalmente após a encíclica Deus Caritas Est, que, num mundo conturbado por ódios, guerras e preconceitos, veio realçar a importância do amor.

É sugestiva a própria escolha de seu nome - Bento XVI -, como sucessor do papa Bento XV, o grande arauto da paz durante a 1ª Guerra Mundial, que dialogou à exaustão com os Estados beligerantes, na Europa, para pôr fim ao conflito, auxiliando as convenções de paz que os europeus exigiam, exauridos que estavam pela sangrenta luta.

O mundo, hoje, está, nitidamente, dividido entre uma sociedade que acredita e outra que não acredita em Deus, esta última sintetizada na frase de personagem de Dostoievski em Os Irmãos Karamazov: Se Deus não existe, tudo é permitido.

Mesmo a sociedade que acredita em Deus vive as dificuldades próprias de se manter inserida na realidade atual, em que falsos profetas instrumentalizam a crença dos humildes e dos menos preparados, além de conviver, de um lado, com a permissividade, que explora as fraquezas inerentes à natureza humana, e, de outro, com a falta de aprofundamento nos mistérios da fé, quase sempre superficial e acobertada pelo sentimentalismo.

Mesmo assim, esta parte da sociedade que acredita conhece, por intuição ou estudo, que o mundo não é produto de um acaso criador e que somos todos filhos de Deus, mesmo aqueles que o negam, sendo o livre-arbítrio o dom maior da herança divina.

Ao contrário dos materialistas históricos, que só têm uma fórmula para o futuro da humanidade - já pré-escrita, como pretendia Marx, na eliminação da classe burguesa pela ditadura do proletariado e no advento de um paraíso irreversível no porvir -, aqueles que acreditam em Deus sabem que a liberdade de opção e a luta pelos caminhos próprios é a grande lição que as religiões universais formulam.

Enquanto as correntes espiritualistas da História acreditam na liberdade e no homem formatador das suas ações, as correntes materialistas perfilam um determinismo sem alternativas, pelo qual o seu modelo seria o único a sobreviver.

Estas, não poucas vezes, se sentem incomodadas pelos valores defendidos pelos fiéis seguidores das religiões históricas, como família, fidelidade conjugal, ética profissional, solidariedade humana, responsabilidade com os filhos, altruísmo e dedicação, entre outros, e procuram por todos os meios, principalmente pela moderna mídia eletrônica, destruí-los, tachando-os de conservadores. Por esta ótica, ser livre é não ter nenhuma responsabilidade em relação ao outro ou à sociedade, sendo o hedonismo supremo e todos os ingredientes para a felicidade momentânea e sem compromisso seguidos, muitas vezes, de um vazio existencial sem limites.

Apesar da frase do presidente Lula de que a sociedade poderá, um dia, até vir a punir os fetos se baixar o limite para a maioridade penal, esta sociedade já os pune ao perfilar o aborto sem limites, apesar de, sentimentalmente, defender os ovos de tartaruga, os fetos das baleias ou dos ursos pandas.

Nesta sociedade dividida, a vinda do papa Bento XVI - que difunde, como seu antecessor, os valores a serem preservados na moderna sociedade - para o encontro dos bispos latino-americanos transcende de muito o escopo de definir os relevantes caminhos da Igreja no continente, pois Sua Santidade se propõe mostrar a todos os povos a importância da valorização da família, da vida, do amor e da paz entre os homens.

O mundo do século 21, em que a tecnologia surpreende todos os dias e onde há mais de US$ 100 trilhões de ativos financeiros e de mercado circulando pelos países, está mergulhado em tristezas como guerras, crimes, violência, drogas, desamor, sofrimentos e falta de solidariedad
Autor(es)

Ives Gandra da Silva Martins