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14/05/2001

Ceticismo e verdade

CARLOS ALBERTO DI FRANCO



Segundo Chesterton, "o problema do homem de hoje não consiste em não crer em nada. Ao contrário, seu problema consiste em crer em tudo".





O comentário vai ao âmago de um paradoxo contemporâneo: a dogmatização do efêmero e a relativização do permanente. No imenso shopping das crendices, promovido pela força da mídia que tudo banaliza e transforma em espetáculo, há prateleiras para todos os gostos: duendes, pirâmides e cristais transmitem certezas absolutas e infalíveis. Vivemos sob a ditadura do politicamente correto e sucumbimos à tirania dos modismos. A vida é uma excitação só. O importante é curtir múltiplas e novas sensações, desde que desprovidas das amarras de quaisquer ônus. O descompromisso e a tolerância compõem as duas faces do dogma que norteia a cultura da inconsistência.





Curiosamente, as verdades redondas e os valores de sempre, que dão sentido e dignidade ao ato de viver, morrem no silêncio de inúmeras pautas. Não têm espaço na sociedade da "tolerância". Pier Paolo Pasolini, falecido cineasta marxista italiano, foi certeiro no diagnóstico. "Jamais a diversidade foi uma culpa tão assustadora como nesta época de tolerância", dizia ele nos seus Escritos Corsários. De fato, este mundo à deriva, carregado de contradições, experimenta a garra da "into-lerância dos tolerantes".





Sociedades aparentemente pluralistas e abertas contrapõem convicção e liberdade. Impõe-se, em nome da democracia, a unanimidade burra, o consenso despersonalizado, a ética de passeata, a moral indolor. Estabelece-se uma incompatibilidade absurda entre realidades que deveriam caminhar juntas.



Na verdade, entre a pessoa de convicções e um fanático existe uma fronteira nítida: o apreço, o respeito pela liberdade. O sectário assume a sua convicção com exasperada intolerância. O fanático impõe, fulmina, empenha-se em aliciar. A pessoa de convicções, ao contrário, assenta serenamente em suas idéias. Por isso, a sua certeza não a move a impor, mas a estimula a propor, a expor à livre aceitação dos outros os valores que acredita dignos de ser compartilhados. Sabe que somente uma proposta dirigida à liberdade pode obter uma resposta digna do homem.





O alardeado antagonismo entre convicção e liberdade não tem fundamento.



Trata-se de recurso defensivo das milícias ideológicas que aspiram ao monopólio da verdade. Conjugar democracia e verdade não é tarefa fácil.



Alguns, carregados de ranços imobilistas, pretendem uma verdade desvinculada da liberdade. Engrossam as fileiras dos integristas. Dominados por uma constante síndrome conspiratória, estão sempre vislumbrando moinhos de vento. Vivem do passado. Temem o futuro.





Outros, apoiados no relativismo essencial, imaginam uma liberdade divorciada da verdade. Esquecem que a democracia pressupõe uma fina sintonia entre verdade e liberdade. A harmonia, indispensável ao bom funcionamento do debate no espaço público, é também um pré-requisito da atividade jornalística. Afinal, a liberdade de imprensa, base da sociedade democrática, deve-se alimentar de uma paixão: o amor à verdade.





O jornalismo reclama uma balanceada combinação de convicção e ceticismo. A ingenuidade, num país dominado pela delinqüência arrogante e impune, é um desserviço à sociedade. É indispensável o exercício da pergunta inteligente, da dúvida honesta. Essa atitude, no entanto, não se confunde com o cinismo amargo de quem sabe "o preço de cada coisa e o valor de coisa alguma". O cínico não tem "olhos de ver". Sua atitude, carregada de prepotência, desemboca numa parcialidade antijornalística. A imprensa de qualidade só admite um engajamento: o compromisso com a liberdade e a verdade. Fora disso é o vazio.




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