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29/10/2003

Cidadãos da fraternidade

"Acordar é re-acordar-se ao que ao nosso redor gira”. João Cabral de Melo Neto

Como sabemos, na ética aristotélica, a política é uma ciência que se ocupa da felicidade coletiva, do bem na perspectiva social da existência humana: “a finalidade da vida política é o melhor dos fins, e o principal empenho dessa ciência é fazer com que os cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações; e é mais nobre e mais divino alcançar este bem para uma nação inteira”. (Ética a Nicômaco).

A felicidade social, que se alcança mediante o exercício da virtude, adquirida como resultado do hábito cotidiano, é ao mesmo tempo uma vida boa conseguida através de um viver bem, corretamente: “mesmo na adversidade, a nobreza de um homem se deixa mostrar, quando aceita com resignação muitos e grandes infortúnios não por ser insensível à dor, mas por nobreza e grandeza de alma” (idem).

E a diferença do bom e do mau político reside não apenas nos objetivos aos quais se destina alcançar, mas principalmente na forma pela qual exerce a política, porque “somente torna-se justo praticando atos justos”.

Em outras palavras, os meios devem justificar os fins; o ato político para ser considerado verdadeiramente político, na concepção aristotélica, deve não apenas almejar o bem comum, mas deve realizar-se de forma virtuosa, ética.“Esse é o propósito de todos os políticos, contribuir para tornar bons todos os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem, vivendo por primeiro esses hábitos; e quem não consegue esta meta, falha no desempenho de sua missão”.

Carlos Drummond de Andrade, o nosso poeta maior, dizia possuir “duas mãos e o sentimento do mundo”, apelando para caminharmos de “mãos dadas”. A construção de uma nova metodologia política parece requerer não apenas uma revisão de conceitos e valores, como também a conquista de uma nova postura que privilegie “as mãos dadas”, ou seja, o sentimento e a capacidade de escutar o outro, sem pré-conceito de qualquer ordem, facultando-lhe a palavra-poder, reconhecendo em todos a mesma origem e o mesmo fim: Deus-Pai, que é o Amor.

Jesus, “o rei dos judeus”, numa de suas últimas declarações, não chamou seus companheiros de servos, mas amigos, porque lhes havia revelado tudo o que possuía, possibilitando-lhes participar do seu paraíso, da sua riqueza, da sua felicidade. Ele consumou essa verdade ao dar a própria vida por seus amigos em sua morte de cruz, vivendo em primeira pessoa aquilo que já houvera advertido: ”não é quem diz Senhor, Senhor, mas aquele que escuta as minhas palavras e as coloca em prática, esse é meu amigo”.

Uma nova forma de ser da política, com toda certeza, requer uma compreensão mais profunda do valor da verdadeira fraternidade como método político, alma com a qual poder-se-á mirar a construção de um futuro feliz para todos. Não se trata apenas de possuir um novo discurso, mas principalmente de uma nova prática, viva, concreta, conseqüente, para que o discurso tenha a credibilidade e o resultado devidos.

Mikhail Gorbachev, em 1989, no Capitólio Romano, enfatizou: “A solução, para os desequilíbrios do mundo de hoje e para certas ameaças do progresso técnico e científico, está na espiritualização da vida, na revisão do comportamento do homem em relação à natureza, aos homens e a si mesmo”.

Nas palavras do teólogo Segundo Galilea, “a espiritualidade da contemplação exige que se recupere o sentido autêntico da contemplação cristã: experimentar Deus na intimidade da oração, mas também experimentar Deus no irmão, no empobrecido, na história. Isso requer que se una a oração com o compromisso. Não há espiritualidade libertadora sem viver a esperança cristã, que brota da fé viva na ressurreição de Jesus, a esperança que nos diz a cada dia que nem o pecado nem a injustiça nem a opressão terão a última palavra na história”.

E Chiara Lubich, no seu discu
Autor(es)

Alexandre Aragão