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25/03/2000

Reflexões Sobre a Linguagem

1. Novo paradigma da reflexão filosófica. Ao longo da História da Filosofia no Ocidente, sucederam-se paradigmas diversos, como os do ser e da objetividade, do conhecimento e da subjetividade, do valor e, por fim, da linguagem.



O desenvolvimento deste último paradigma aconteceu a partir do positivismo lógico. Com ele, a preocupação principal da Filosofia passou a ser a análise filosófica da linguagem, operando-se, destarte, uma autêntica "reviravolta lingüística " (Manfredo Araújo de Oliveira, Sobre a fundamentação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993, p. 46). Em verdade, tal mudança apenas se completou, uma vez transcendidas as dimensões sintática e semântica, com a tematização do lado pragmático da linguagem, até então esquecido em sua significação fundamental. Isto representou a introdução do novo paradigma, o mais recente, da reflexão filosófica , o da linguagem.



Trata-se da "dimensão da linguagem enquanto práxis social", o que significa uma "virada pragmática" dentro da "reviravolta lingüística" (ibid., p. 51). A linguagem passou a ser pensada no horizonte, não mais do sujeito isolado, ou da consciência individual, mas da comunidade de sujeitos em interação. Obviamente, nesta perspectiva, ela é vista como práxis comum, de acordo com regras que se formaram historicamente nas comunidades e se transformaram em instituições. Assim, a linguagem é considerada uma ação comunicativa entre sujeitos que, à semelhança de um jogo, pressupõe um consenso crenças, valores e convicções enraizadas em sua comum Lebenswelt (Bárbara Freitag. A teoria crítica, ontem e hoje, 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 99)- mundo da vida, "âmbito das relações sociais espontâneas, das emissões lingüísticas não tematizadas, da vigência do entendimento mútuo" (Jaime José Rauber, O problema da universalização em ética. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999, p. 65). Destarte "falar é uma ato social que se realiza numa comunidade de vida através de hábitos e costumes,... significa adquirir uma práxis determinada de uma determinada comunidade humana, assumir sua forma de vida, inserir-se na configuração sócio-histórica, que constitui esta comunidade enquanto comunidade" (Manfredo Araújo de Oliveira, op. cit., p. 54).



2. Competência lingüística e argumentativa. Segundo Karl Otto Apel e Jürgen Habermas, expoentes atuais deste modo de pensar, é possível, por reflexão discursiva, encontrar as condições de possibilidade intranscendíveis ou irrefutáveis de toda argumentação, que servem para a fundamentação do conhecer (discurso teórico) e do agir (discurso prático). Sobre esta base, na dimensão prática, é construída a assim chamada Ética do Discurso, consentânea aos regimes democráticos , uma ética dialógica, formada intersubjetivamente, numa comunidade real de argumentantes, pressuposta contrafaticamente a comunidade ideal, da qual participam, potencialmente, todos os portadores de competência lingüística. Na formação das proposições com validade normativa não deve prevalecer o argumento da força, da ameaça ou da fraude, mas a exclusiva força do argumento.



Obviamente, a participação de todas as pessoas da comunidade no discurso formador das proposições normativas democráticas exige delas, em primeiro lugar, competência lingüística, ou seja, suficiente domínio da linguagem. Sem esta instrumentalização, sua participação só pode ser defeituosa, tosca ou tão só formal, para não dizer fictícia ou mesmo inexistente.



3. Duas denúncias. Do sobredito exsurge, com clareza meridiana, a importância do cultivo acurado do idioma oficial, comunidade lingüística; em nosso caso, a língua portuguesa. Todavia, o descuido com ela chega a ser tão grave entre nós, que é notada por todas as pessoas medianamente cultas e denunciada até por profissionais de outras áreas especificas, como o jurista e filósofo Miguel Reale, que saiu a campo para defendê-la.



Com o título Variações sob


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