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01/08/2003

Cultura da vida

O personalismo comunitário cristão resgata com força o princípio do bem comum associado ao princípio da função social da propriedade e do lucro

A palavra cultura tem amplos e diferentes significados. É a cultura no sentido em que a empregam os nossos agricultores, o amanho da terra, a produção dos alimentos que asseguram a vida e a alegria da mesa farta e partilhada. Cultura como expressão da arte, que se desdobra nos campos da literatura, da música, das artes plásticas e cênicas, nas manifestações estilizadas do corpo, das mãos e da mente humanas. Cultura como conhecimento e saber. Cultura na dimensão dos valores e procedimentos éticos, nas relações da pessoa humana consigo mesma, com os mais próximos, com a sociedade e com a natureza. Entramos aqui no campo da cultura política.

O ser humano é marcado por uma contradição de origem que o acompanha e aguilhoa ao longo da história. De um lado, somos seres gregários, buscamos a companhia dos nossos semelhantes e daí surgem as tribos, as aldeias, as cidades, as nações. Somos participantes de uma aventura e de um destino comuns. Somos interdependentes uns dos outros; carentes, somos suplicantes do olhar, da atenção, da escuta, do carinho do outro. O ser humano por si só, isolado, solitário, auto-suficiente, mais do que uma fantasia, é um nada. Somos seres relacionais.

De outro lado, estão sempre presentes nas relações humanas os nossos instintos e comportamentos mais primários e egoísticos que se traduzem nas mais variadas formas de violência e opressão. O filósofo grego Aristóteles, cuja obra no campo da ética e da política é de permanente e fascinante atualidade, afirmava o primado da comunidade. Para o notável estagirita, o homem fora da coletividade ou era um deus ou era um monstro. Consideravam os gregos, na linha socrático-platônico-aristotélica, que a realização da pessoa humana só se dava na polis, na cidade, no exercício dos direitos e deveres da cidadania. Daí a política como sendo a arte do bem comum.

Quase 2 mil anos depois da grande obra de Aristóteles, no início da idade moderna, a cultura ocidental conheceu uma nova e forte concepção da política fundamentada no individualismo e na ampla liberdade contratual e dos negócios. Emergia o liberalismo político-econômico. Ao contrário de Aristóteles e da tradição grega, os teóricos liberais afirmavam e afirmam a primazia do indivíduo.

A tradição cristã vem construindo ao longo de sua trajetória milenar e, especialmente no século XX, uma síntese nova entre essas duas grandes tradições. Ensinam os mais destacados mestres do pensamento e da militância política e social cristã que a vocação comunitária da pessoa humana não a faz uma peça anônima e amorfa da engrenagem social. Ela não se dilui na comunidade. Tem um rosto próprio e sagrado, é um ser vocacionado para participar e contribuir, portador de uma dignidade e um mistério que devem ser respeitados.

O personalismo comunitário cristão resgata com força o princípio do bem comum associado ao princípio da função social da propriedade e do lucro. O que se pretende nesse enfoque é criar simultaneamente as condições mais adequadas que possibilitem o melhor desenvolvimento da pessoa e da comunidade. O bem comum tem a sua porta de entrada no direito à vida, que se traduz concretamente nos direitos básicos relativos à comida, ao trabalho, à moradia, aos cuidados com a saúde. Como o ser humano transcende as dimensões corporais e materiais, impõem-se os direitos relacionados com a educação, o acesso aos bens culturais, a informação, o lazer, a participação política, a cidadania.

Na perspectiva do bem comum consideramos a propriedade e o lucro como direitos legítimos. Mas não são direitos únicos, exclusivos, sagrados. Pairam sobre eles as exigências superiores do direito à vida, da justiça social, do desenvolvimento nacional. Enquanto relativizarmos as exigências essenciais a esse bem fundame
Autor(es)

Patrus Ananias