Entrevistas

16/06/2018

Álvaro Machuca

Ac@demus
- Alguns cientistas, favoráveis ao desenvolvimento de
técnicas de clonagem humana, consideram atraso da ciência
não recorrer a técnicas de fertilização
"in vitro" para alcançar uma gravidez. O que
o senhor pensa a esse respeito?


Dr.
Machuca - A ciência deve estar a serviço da vida
e não apoderar-se dela. A fertilização
"in vitro" disponibiliza vários embriões
que ficarão implantados no útero materno até
certo momento, quando só um ocupará todo o espaço.
Os demais serão sumariamente descartados, sem contar
os que serão congelados no banco de embriões.
A vida gerada nasce de um produto de técnica, sem o relacionamento
profundo entre dois seres. Em tal caso, a vida passa a ser instrumentalizada
pela ciência.




Ac@demus - Em nossos dias, defende-se a clonagem humana em nome
da terapêutica de certas doenças. O fim justifica
os meios?


Dr.
Machuca - A vida gerada e em determinado momento eliminada,
como peças de reposição, configura crime
contra a vida, mesmo que tenha sido originada assexuadamente.
A ciência tem solução para a terapêutica
de certas doenças. As células tronco encontradas
no sangue do cordão umbilical poderiam ser armazenadas
em banco específico e, se necessário, em determinado
momento, utilizadas para fins terapêuticos, sem a clonagem
humana.




Ac@demus - É lícito intervir no patrimônio
genético normal do ser humano? Há hipóteses
em que são lícitas tais intervenções?


Dr.
Machuca - Não é lícito alterar o patrimônio
genético normal do homem. Mas é lícito
intervir no patrimônio genético defeituoso quando
se pretende obter um resultado terapêutico, em benefício
do próprio indivíduo, desde que exista o consentimento
do mesmo ou dos seus representantes legais.




Ac@demus - O congelamento de embriões, para ser usado
como material disponível, fere a dignidade do ser humano?


Dr.
Machuca - Desde a fecundação a vida existe e deve
ser preservada, mantida e protegida. O congelamento é
uma situação anormal. Nega-se o direito de o ser
humano, já definido pelo seu DNA, desenvolver-se no útero
materno. O ser humano existe e não pode, sob pena de
ficar comprometida sua dignidade, sujeitar-se aos caprichos
da ciência, sendo manipulado aleatoriamente.




Ac@demus - Quais as exigências éticas para o
transplante de órgãos entre pessoas vivas?


Dr.
Machuca - Para a licitude do transplante entre pessoas vivas
é preciso que o órgão não seja necessário
para a vida do doador. Que a doação seja livre
e tenha finalidade honesta. Que o transplante seja verdadeiramente
necessário para a vida ou saúde do receptor. Que
haja razoáveis esperanças de êxito e proporção
entre os benefícios esperados e os prejuízos causados
ao doador.




Ac@demus - Deve a ciência orientar-se pela consciência
moral?


Dr.
Machuca - Se conseguirmos fundir ciência e moral, de forma
equilibrado e justa, teremos dado um excelente salto de qualidade.
Cada situação deve ser encarada de forma particular
e coletiva, dentro de um contexto e de uma cultura que transpirem
o amor fraterno.




Ac@demus - Cabe ao Estado ditar normas a esse respeito?


Dr.
Machuca - O Estado tem papel regulador nessas situações.
Políticos conscientes de seu papel devem junto a sociedade
civil organizada, em todos os segmentos dar sua contribuição
na construção de uma sociedade mais harmoniosa
e saudável, onde o respeito a vida seja o fator preponderante.





Autor(es)

Álvaro Machuca
*Dr. Álvaro Machuca é médico, membro do movimento dos Focolares há mais de 30 anos, Diretor de Defesa Profissional da APM - Associação Paulista de Medicina. Site: www.drmachuca.com.br