Entrevistas

16/06/2018

O pensamento cristão de Paul Ricoeur

No dia 20 de maio, falecia serenamente enquanto dormia em Chatenay Malabry (Paris), aos 92 anos de idade, Paul Ricoeur, um dos maiores filósofos do século XX.
 
Sua morte aconteceu como ele a havia desejado, conforme fontes próximas ao pensador francês: em sua casa e não no hospital, sem sofrimento traumáticos, sem perder a consciência. Os funerais foram como os pediu, discretos, em sua paróquia protestante.
 
Com Ricoeur, vai-se uma das últimas vozes cristãs de maior influência na filosofia atual, explica o professor Carlos Díaz, fundador do Instituto Mounier, professor de fenomenologia da religião na Universidade Complutense de Madri, que conhecia pessoalmente o filósofo.
 
João Paulo II entregou a Ricoeur em julho de 2003 o qüinqüenal Prêmio Internacional Paulo VI e reconheceu que a investigação do filósofo «manifesta como é fecunda a relação entre filosofia e teologia, entre fé e cultura».
 
Que se perdeu com Paul Ricoeur?
Díaz: Com a morte de Paul Ricoeur, vai-se uma das últimas vozes cristãs de mais amplo alcance e de maior autoridade no pensamento filosófico mundial de hoje.

Esta aceitação deve-se fundamentalmente ao caráter hermenêutico de seu discurso, que se abre com todos os sistemas buscando o melhor deles.

O revés ou a contrapartida desta atitude paga o preço de uma certa vontade de «não querer levar razão». No pensamento contemporâneo, tal forma de enforcar os problemas resulta mais aceitável que a que se apresenta aberta e taxativamente.
 
Em que se notará sua herança, e quem a levará adiante?
Díaz: Sua herança - como se disse - ninguém disputará exclusivamente, mais bem sua recordação será a de um pensador acolhedor e amável.

Não aparecerá com sinais destacados em nenhuma parte. Que Ricoeur seja um dos grandes filósofos do momento não significa que vá passar às histórias da filosofia, ainda que seguramente será conhecido pelos mais especialistas. E tudo isto porque Ricoeur é mais analítico que propositivo, em minha opinião.
 
Pessoalmente, que aspecto do pensador o fascina mais?
Díaz: Primeiro a fidelidade de sua amizade e o reconhecimento do magistério que sobre ele exerceu Emmanuel Mounier.

No plano meramente humano, quando tive a sorte de encontrar-me com ele me chamou a atenção sua brincadeira, seu trato delicado, alinhado por uma certa capacidade de humor, que não desemboca contudo em mordacidade. Junto a isto, sua humildade - eu diria que até sua ternura - para dialogar com qualquer um, inclusive com os supostos mais ignorantes.

No que se refere ao terreno intelectual, o que me chama a atenção de Ricoeur é sua capacidade de entender qualquer autor em qualquer idioma, sua inteligência para discernir analiticamente os problemas me parece quase inigualável.
 
Ficamos órfãos de grandes intelectuais cristãos do nível de Ricoeur?
Díaz: Não, de maneira alguma. Primeiro, porque já disse que sua contribuição ao cristianismo como tal não foi demasiado temática, e depois porque como caberia não esperar de entre tanto cristão a emergência de mais teólogos, ou seja, daqueles que pensam no Senhor reclinando sua cabeça no Senhor?

Zenit

Autor(es)

Carlos Díaz
Fundador do Instituto Mounier, professor de fenomenologia da religião na Universidade Complutense de Madri