Filósofos

Biografia Comentada

Como não existem reedições dos livros de Gustavo Corção, apresentamos abaixo uma bibliografia comentada. Caso o leitor encontre nos sebos estes livros, poderá saber do que se trata. Mas gostaria de sublinhar o fato que o pensamento político de Gustavo Corção, muito influenciado pela obra do filósofo francês Jacques Maritain, até os anos 60, foi corrigido em seu último livro, pelas retratações feitas pelo autor na Introdução.

1- A descoberta do outro, Agir, 1944. 10ª edição, 2000. Traduzido em inglês, espanhol e francês.

Numa primeira abordagem, o primeiro livro de Gustavo Corção aparece como uma espécie de autobiografia espiritual. O autor descreve os passos de sua conversão, ou se preferirem, de sua volta ao catolicismo. Porém, uma leitura mais atenta nos mostra que este livro se situa num plano mais profundo e sério. Depois de descrever diversas situações que marcaram seu itinerário em direção à fé, Corção analisa, com uma inteligência aguda e particular, os meandros da alma na busca da verdade. Mostra ao leitor o quanto vivemos mergulhados em vícios intelectuais que nos impedem de sermos verdadeiros e objetivos; o quanto somos apegados às nossas próprias opiniões, e o quanto isto nos cega diante da grande realidade que é a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu amor por nós. O autor procura nos ajudar a harmonizar nossa vida racional para que estejamos aptos a alcançar de Deus a harmonia sobrenatural, divina.

De certa forma este livro estará presente em toda a obra literária de Gustavo Corção. Ele é uma espécie de marco inicial, mas já carregado de genialidade literária e de grande sabedoria espiritual. "Quando este escritor veio à tona, - escreve Josué Montelo em artigo de 1987 - não precisou aprender o seu ofício diante do público. Já trazia um estilo, um cabedal de idéias, uma visão do mundo que de pronto ajustou à singularidade de sua prosa muito pessoal. Não se parecia com ninguém. Era ele mesmo, sem deixar de ajustar-se à índole e à tradição da língua portuguesa".

2- Três Alqueires e Uma Vaca, Agir, 1946. 6ª edição, 1973. Traduzido em espanhol.

É com certa nostalgia que se lê este ensaio de Gustavo Corção sobre a obra e o pensamento de Chesterton. De um lado estamos diante de uma análise de alto nível sobre o grande escritor inglês, feita por um autor que dele herdou todo um posicionamento espiritual. Por outro lado, vemos alguns enganos próprios à época, onde Corção enaltece as convicções democráticas de Chesterton. Na verdade, basta uma leitura para descobrir que esta palavra "democracia", no pensamento destes dois autores, nada tem a ver com o que vivemos hoje, com este vocábulo que brota espontaneamente da mente deturpada de políticos, educadores, padres da novidade e arruaceiros. Para os antigos, democracia era sinônimo de vida saudável, de moralidade, da liberdade de educar seus filhos, de andar nas ruas, de pensar. Era, principalmente, oposição à escravidão socialista. Mais tarde Corção descobrirá que o que ele chamava de democracia não existia nos políticos de qualquer partido que fosse.

3- Lições de Abismo, Agir, 1950. 13ª edição. Traduzido em inglês, italiano, holandês, polonês e alemão.

Este romance, premiado pela Unesco em 1954, o único da carreira de Corção, conta a volta à fé de um professor com leucemia. Nos últimos meses de vida José Maria escreve num diário suas reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto e termina reencontrando a vida da graça. O tradutor de Corção para o francês, Hugues Kéraly, assim definia, numa carta, o que pensava de Lições de Abismo: "O senhor tem razão. Li e reli. Literariamente, dramaticamente, liricamente, psicologicamente e até espiritualmente, Lições de Abismo é sua obra mais tocante, mais acabada".

4- As Fronteiras da Técnica, Agir, 1954. 5ª edição, 1963.

É uma reunião de várias conferências e aulas, tratando com simplicidade temas profundos e difíceis: O tecnicismo - O fazer e o agir - Política e técnica - A técnica de Deus, sua arte e seu amor - Patriotismo e nacionalismo - A missão da mulher - O valor da vida. A riqueza e a arte do português de Gustavo Corção brilham aqui como nos outros livros.

5- Dez Anos, Agir, 1956, 2ª edição, 1958.

Coletânea de artigos publicados nos jornais ao longo de dez anos.

6- Claro Escuro, Agir, 1958. 3ª edição, 1963.

Ensaio sobre a família, casamento, divórcio.

7- Machado de Assis, Agir, 1959. 2ª edição, 1965.

Apresentação, comentários e notas sobre os romances de Machado de Assis (1839-1908).

8- Patriotismo e Nacionalismo, Ed. Presença, 1960.

Artigos e conferências sobre política.

9- O Desconcerto do Mundo, Agir, 1965 Leia a carta de Manuel Bandeira, propondo Corção para Prêmio Nobel por este livro.

Um livro que nos fala sobre a alma humana, suas capacidades racionais, o pecado original e suas conseqüências, tudo isso e mais ainda através da visão dos poetas, romancistas e pintores. Assim é construído O Desconcerto do Mundo.

Corção parte de uma estrofe de Camões para analisar as razões dos líricos queixumes. De início exige de si mesmo um questionamento sério e verdadeiro: "Não, não pode ser convencional, nem pode deixar de ser verdadeiro esse recado de mágoa que vem de longe, e que parece ser uma dor do Universo expressa por boca humana; sim, que parece ser uma dor primeira que remonta às origens do mundo". Em seguida procura no pensamento dos poetas e pensadores o porque dessa aflição: Chesterton, Pascal, Camus, Hugo. E em todas as religiões do mundo, a mesma dor, a mesma confusão. A análise do problema do mal continua com o Eclesiastes e o livro de Jó, elevando-se a considerações de ordem sobrenatural com a teologia das bem-aventuranças.

A segunda parte deste grande livro é uma análise da obra de Machado de Assis, mostrando alguns aspectos importantes, como a genialidade que vem se somar ao talento, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o que há de verdadeiro por detrás do propalado pessimismo do grande escritor, a presença do sábio do Eclesiastes na obra de Machado. Corção mostra a grandeza dos personagens de Machado para, em seguida, mostrar outro grande romancista, Eça de Queirós, cujos personagens são pobres, mas que encontra toda sua arte na contemplação de certas descrições lentas e aparentemente monótonas. Em suma, uma aula sobre o valor de um romance, seu conteúdo mais misterioso e elevado, que ilumina a alma do escritor.

Enfim, na terceira parte, Corção muda de ambiente sem mudar de tom. É já nas artes plásticas dos grandes pintores que nos ensinará a enxergar por detrás das tintas e das molduras, buscando o pensamento, a elevação, a razão formal da arte.

Em três momentos distintos, poesia, romance e pintura, nosso autor nos faz ver além da superficialidade comum dos eruditos, destilando para nós um ensinamento de verdadeira cultura, de vida, de sabedoria.

10- Dois Amores Duas Cidades, Agir, 1967.

Talvez não exista no Brasil uma análise tão profunda e verdadeira da chamada Civilização Moderna. Em dois volumes, mais de 700 páginas, Corção mostra que esta nova Civilização é, na verdade, um novo posicionamento do homem, que perde seu eixo sobrenatural para centralizar-se em si mesmo, no seu orgulho. Corção mantém neste livro suas posições herdadas de Maritain, mas compreende, ao terminá-lo que algo não está bem explicado. Escreve assim sua Inconclusão, analisando a crise que começa a flagelar a Igreja. Com isso, ao terminar este livro de modo tão incômodo, Gustavo Corção recomeça seu estudo buscando as fontes desta crise, o que o leva a escrever uma longa conclusão, que será seu último livro, O Século do Nada.

Por causa disso, este livro possui um contexto todo especial, e resolvemos deixar ao próprio Corção, no artigo Cristianismo e Humanismo, as explicações que se tornam necessárias.

11- O Século do Nada, Record, 1973. 2ª edição. Traduzido em francês.

Uma vez entendido o fundo da questão, todo o século XX merece ser revisto nas causas dos seus principais acontecimentos. Quem poderia pensar, aqui no Brasil, que uma crise no governo francês, o Affaire Dreyfus, tivesse importância para o século que começava? Corção vê estas causas e descreve como a política geralmente ensinada e propalada está cheia de enganos e erros. Assim também para a condenação da Action Française, de Charles Maurras, o papel de Franco na salvação da Espanha e todos os demais acontecimentos do século XX. Termina com um pungente capítulo sobre a Igreja, sobre o Concílio Vaticano II, que abre as portas aos progressistas, dando início ao que Corção chamou de pecado terminal.

12- A Tempo e Contra-tempo, Permanência, 1969.

Coletânea de artigos sobre a crise da Igreja.

13- Progresso e Progressismo, Agir, 1970.

Coletânea de textos de diversos autores sobre o tema. A parte II é de Gustavo Corção.

14- As Descontinuidades da Criação, Permanência, 1992.

A Editora Permanência publica neste volume as conferências que Corção fez em seu auditório sobre Filosofia da Natureza e Evolucionismo. Refuta o erro do evolucionismo na visão do físico-matemático, na visão do filósofo e na visão do teólogo. Queria levar adiante seu estudo mostrando que nada, na natureza humana, previa que Deus a elevaria à vida divina pela graça. Infelizmente não teve tempo de terminar, o que fez com que fosse publicado somente a primeira parte.